(1º
parte)
(Do
1º ao 5º Mandamento)
Lutero:
Sempre oro sobre os Dez Mandamentos. Pego um ponto depois do outro, para que
fique inteiramente livre para a oração (o quanto isso for possível), fazendo de
cada mandamento um quádruplo, ou uma coroa torcida quatro vezes, ou seja: Tomo
cada mandamento primeiro como um ensinamento, como ele na realidade o é em si
mesmo, e reflito o que nosso Senhor Deus nele exige de mim com tanta seriedade;
por outro, faço dele uma ação de graça; em terceiro lugar, uma confissão, e em
quarto, uma oração, a saber, da seguinte maneira, com pensamentos e palavras
deste tipo:
O Primeiro mandamento:
“Eu sou o Senhor teu
Deus”, etc. “Não terás outros deuses além de mim”, etc.
Aqui penso em primeiro
lugar que Deus exige de mim e me ensina a confiar nele de coração em todas as
coisas, e que ele, muito seriamente, deseja ser meu Deus. E como tal devo considerá-lo,
sob pena de perder a eterna bem-aventurança. E meu coração em nada mais deve
basear-se ou confiar, seja em algum bem, honra, sabedoria, poder, santidade ou
qualquer criatura.
Em segundo lugar, sou
grato à sua insondável misericórdia, por se voltar tão paternalmente para mim,
homem perdido, oferecendo-se a si mesmo sem ser solicitado nem procurado e sem
qualquer merecimento meu, para ser meu Deus, aceitar-me, e por querer ele ser
meu consolo, proteção, auxilio e força em todas as aflições. Isso que nós
pobres e cegos seres humanos temos procurado diversos deuses e ainda os
procuraríamos, caso ele mesmo não se fizesse ouvir de forma tão manifesta e se
nos não oferecesse em nossa linguagem humana, querendo ser nosso Deus. Quem,
por tudo isso, lhe pode agradecer o bastante para sempre e eternamente?
Em terceiro lugar,
confesso e professo meu grande pecado e ingratidão, de ter desprezado, de
maneira tão vergonhosa, doutrina tão bela e dádiva tão valiosa por toda minha
vida, e de ter provocado sua ira de forma tão horrível com inúmeras idolatrias;
isso me dói e peço misericórdia. Em quarto lugar, peço e falo: Deus meu e
Senhor, ajuda-me por tua graça que eu, a cada dia, consiga aprender e
compreender melhor este teu mandamento e possa em confiança sincera, agir de
acordo. Protege meu coração, para que não me torne tão esquecido e ingrato, não
procure outros deuses nem consolo em quaisquer criaturas, mas permaneça de todo
o coração unicamente contigo, meu único Senhor. Amém, querido Senhor Deus e
Pai, amém.
O segundo mandamento:
“Não abusarás do nome
do Senhor teu Deus”, etc.
Primeiro aprendo daí
que devo manter glorioso, santo e belo o nome de Deus, e, por meio dele, não
jurar, imprecar, mentir; não ser presunçoso nem procurar a própria dignidade ou
nome, mas, em humildade invocar, adorar, exaltar e glorificar o seu nome. E
deixo que toda minha honra e glória esteja no fato de ele ser meu Deus e de eu
ser sua pobre criatura e servo indigno.
Por outro lado,
agradeço pela dádiva maravilhosa que ele me concedeu: De me ter revelado e
concedido seu nome; de eu poder me gabar do seu nome e me deixar chamar de
servo e criatura de Deus, etc.; e de seu nome ser meu refúgio como um castelo
forte (conforme diz Salomão), no qual o justo se refugia e é protegido (Provérbios
18.10).
Em terceiro lugar,
confesso e professo meu vergonhoso e grave pecado que cometi contra este
mandamento em minha vida: Não só deixei de invocar, de exaltar e de glorificar
o seu santo nome, mas também me mostrei ingrato por essa dádiva, dela abusando
para toda sorte de infâmia e pecado, jurando, mentindo, enganando, etc. Disso
me arrependo e imploro misericórdia e perdão, etc.
Em quarto lugar,
suplico auxílio e força, para doravante poder aprender bem esse mandamento.
Peço que me guarde dessa vergonhosa ingratidão, o abuso e pecado contra seu
nome, e, ao invés, seja achado agradecido e no devido temor e glorificação de
seu nome. E como disse acima com referência ao pai-nosso, da mesma forma
recomendo mais uma vez: Caso o Espírito Santo intervier nesses pensamentos e
começar a pregar em eu coração com ricos e iluminados pensamentos, dê-lhe a
honra, então, e deixe de lado esses pensamentos preconcebidos; fique quieto e
escute aquele que o sabe fazer melhor do que você; e o que ele pregar, isso grave
e tome nota. E haverá de contemplar maravilhas na lei de Deus (como diz Davi,
Salmo 119.18).
O terceiro mandamento:
“Lembra-te de
santificar o dia de descanso”
Aqui tomo conhecimento,
em primeiro lugar, de que o dia de descanso é uma lei, destinado não para o
ócio nem para o prazer carnal, mas para ser por nós santificado. Mas não é por
nossa obra e atuação que ele é santificado; porque nossas obras não são santas;
é santificado pela palavra de Deus, pois só ela é pura e santa, e santifica a
tudo que com ela está em contato, seja tempo, lugar, pessoa, trabalho,
descanso, etc. Pois através da palavra também as nossas obras se tornam santas,
conforme diz S. Paulo em 1 Timóteo 4.4s: Toda criatura é santificada através da
palavra e da oração.
Por esse motivo vejo
nisso que no dia de descanso eu devo, em primeiro lugar, ouvir e refletir sobre
a palavra de Deus, e na mesma palavra então agradecer e louvar a Deus por todas
as suas bênçãos, bem como orar por mim e por todo mundo. Quem assim procede no
dia de descanso, esse o santifica. Quem não o faz, age pior do que aqueles que
nele trabalham.
Em segundo lugar,
agradeço nesse mandamento pela grande e bela bênção e graça de Deus de nos ter
concedido sua palavra e pregação, mandando-nos praticá-las em especial no dia
de descanso. Esse tesouro, não há coração humano que o possa valorizar o
bastante, pois sua palavra é a única luz nas trevas desta vida, e é uma palavra
da vida, de consolo e de toda bem-aventurança. E onde não estiver presente a
querida e salutar palavra, ali há só terrível e assustadora escuridão, engano,
sectarismo, morte, toda sorte de infelicidade e tirania do diabo, como todos os
dias vemos diante dos nossos olhos.
Em terceiro lugar,
confesso e professo meu grande pecado e vergonhosa ingratidão de ter passado os
dias de descanso de forma tão infame em minha vida, desprezando de maneira tão
lastimável sua palavra cara e preciosa; de ter sido preguiçoso, indisposto e
enfastiado de ouvi-la, isto para não falar de que jamais a procurei de coração
nem por ela agradeci. Deixei, portanto, que meu Deus em vão pregasse para mim e
desprezei o tesouro precioso, pisando-o com os pés. E ele o tolerou de minha
parte por exclusiva bondade divina, e nem por isso deixou de continuar a pregar
para mim e de me chamar para a bem-aventurança de minha alma, com todo amor e
toda a fidelidade paterna e divina; por isso lamento e peço misericórdia e
perdão.
Em quarto lugar, rogo
por mim e por todo mundo que o Pai amado nos queira conservar junto à sua santa
palavra, não a tire de nós por causa do nosso pecado, de nossa ingratidão e
negligência; queira ele proteger-nos contra espíritos sectários e falsos
mestres, e nos enviar bons e fiéis obreiros para a sua seara, isto é, pastores
e pregadores leais e devotos; ele também nos dê a graça de, em humildade,
ouvirmos, aceitarmos e fazermos jus a essa palavra que é sua própria palavra, e
de agradecermos e louvarmos de coração por isso; e assim por diante.
O quarto mandamento:
“Honrarás a teu pai e
tua mãe”
Primeiramente, aprendo
aqui a reconhecer em Deus o meu Criador e como me criou de forma tão
maravilhosa com corpo e alma; que dos meus pais me deu a vida, e lhes deu o
coração de me servirem como fruto do seu corpo na medida em que lhes foi
possível, que me alimentaram, conservaram, cuidaram e educaram com muito zelo,
preocupação, risco, esforço e trabalho. E até este momento ele me guardou e
muitas vezes também ajudou como sua criatura, em corpo e alma, contra inúmeros
perigos e dificuldades, como se a cada momento me criasse de novo. Pois o diabo
nem por um momento sequer deixa de nos invejar a vida.
Por outro lado,
agradeço ao rico e bondoso Criador, por mim e todo o mundo, por ter, com esse
mandamento, instituído e preservado o crescimento e a conservação do gênero
humano — a vida familiar e a vida pública. Pois sem essas duas instituições ou
regimes o mundo não poderia persistir nem por um ano, porque sem o regime
secular não há paz; e onde não há paz, não pode haver vida familiar; onde não
há vida familiar, não podem ser gerados nem educados filhos, e paternidade e
maternidade teriam que acabar completamente. Mas para isso está aí esse
mandamento, mantendo e guardando a ambos, vida familiar e vida política,
determinando obediência para filhos e súditos, cuidando também para que ela
realmente seja prestada. Ou então, onde isso não acontecer, ele não o deixa
impune. Caso contrário, os filhos há muito que teriam solapado toda a vida
familiar com sua desobediência, e os súditos teriam acabado com a vida política
através de tumultos, porque seu número é muito maior que o de pais e regentes.
Por essa razão também essa bênção é inestimável.
Em terceiro lugar,
confesso e professo minha lastimável desobediência e pecado pelo fato de ter
infringido esse mandamento do meu Deus: Não honrei meus pais, nem fui
obediente; indignei e ofendi-os com freqüência; aceitei seu castigo paternal
com impaciência e resmunguei contra eles; desconsiderei sua leal admoestação,
preferindo o convívio irresponsável de malandros perversos. Isto que Deus mesmo
não permite que esses filhos desobedientes escapem e tenham vida longa, como,
pois, muitos há que por causa disso morrem e sucumbem de modo vergonhoso antes
de alcançarem idade adulta. Pois quem não obedece a pai e mãe, tem que obedecer
ao carrasco ou senão perder cruelmente sua vida pela ira de Deus, etc. Por tudo
isto lamento e peço misericórdia e perdão.
Em quarto lugar, rogo
por mim e por todo mundo que Deus nos queira conceder sua graça e derramar
ricamente sua bênção sobre a vida familiar e vida política; que doravante nos
tornemos devotos, honremos os pais, sejamos obedientes às autoridades,
resistamos ao diabo e não sigamos sua incitação à desobediência e tumulto; que,
portanto, ajudemos ativamente a melhorar o lar e o país, e manter a paz, em
honra e louvor a Deus, para o nosso próprio proveito e todo bem; e que
reconheçamos essas suas dádivas e sejamos gratos por elas. Aqui deve acompanhar
também a intercessão pelos pais e autoridades: Que Deus lhes conceda
entendimento e sabedoria de nos liderarem e governarem de forma pacífica e
venturosa. Ele os guarde da tirania, de excessos e de fúrias desenfreadas. Que
os livre disso, para que honrem a palavra de Deus, não provoquem perseguições
nem causem injustiça a alguém, porque essas dádivas elevadas se têm que
alcançar através da oração, como o ensina S. Paulo em Colossenses 4.2. Senão o
diabo acaba tomando conta e atua de modo perverso e desenfreado.
E se você também for
pai ou mãe, então agora é a ocasião de não se esquecer de si mesmo, nem dos
seus filhos e da sua criadagem. Peça com seriedade que o querido Pai o colocou
na dignidade do seu nome e ofício e quer que você também seja chamado e honrado
como pai. Peça-lhe, pois, com seriedade que lhe conceda a graça e a bênção de
dirigir e alimentar sua mulher, seus filhos e sua criadagem de forma divina e
cristã; que lhe dê sabedoria e força de bem educá-los; e a eles, um bom coração
e boa vontade de seguirem seus ensinamentos e de lhe obedecerem. Pois tanto as
próprias crianças como o seu desenvolvimento são dádivas divinas, tanto que
saiam bem e permaneçam bem. Caso contrário um lar nada será senão um chiqueiro,
sim, uma escola de malandros, como se observa entre a gente ímpia e devassa.
O quinto mandamento:
“Não matarás”
Aqui aprendo, em
primeiro lugar, que Deus deseja de mim que eu ame meu próximo, de forma que não
lhe cause nenhum dano em seu corpo, seja em palavras, seja em atos; não me
vingue nem o prejudique com minha raiva, impaciência, inveja, ódio ou qualquer
malevolência, mas saiba que tenho a obrigação de ajudá-lo e dar-lhe conselho
adequado em todas as suas necessidades físicas. Pois com esse mandamento Deus
me incumbiu da guarda do corpo do meu próximo, e determinou, por sua vez, a meu
próximo que guarde o meu corpo, como fala Siraque: A cada um de nós ele confiou
o seu próximo.
Por outro lado,
agradeço aqui por este indizível amor, providência e fidelidade para comigo:
por ter levantado esta tão grande e forte guarda e muralha ao redor do meu
corpo, fazendo com que todas as pessoas tenham a obrigação de me poupar e me
proteger, assim como também eu tenho esta mesma obrigação para com todas as
demais pessoas. Ele também cuida de sua observância, e onde ela não se realiza,
Deus estabeleceu a espada para castigo daqueles que não o cumprem. Caso
contrário, não existisse esse seu mandamento e instituição, o diabo haveria de
perpetrar tamanho morticínio entre nós pessoas humanas, que ninguém poderia
viver em segurança por uma hora sequer, como de fato acontece quando Deus se
indigna e pune o mundo desobediente e ingrato.
Em terceiro lugar,
confesso e lastimo aqui a maldade minha e do mundo: Não só a terrível
ingratidão por este seu paternal amor e cuidado para conosco, mas — e isto é o
mais vergonhoso — o fato de não conhecermos tal mandamento e ensino, tampouco
dele querermos tomar conhecimento; desprezamo-lo, como se nada tivesse a ver
conosco ou como se dele nenhum proveito pudéssemos ter. E ainda andamos
despreocupados, e nem sequer deixamos que nossa consciência se impressione com
o fato de, à revelia deste mandamento, desprezarmos, abandonarmos, sim,
perseguirmos e lesarmos o nosso próximo, ou até o matarmos em nosso coração,
agindo conforme a nossa ira, raiva e toda maldade, como se estivéssemos agindo
bem e corretamente.
A verdade é que está na
hora da lamentação e do clamor sobre nós facínoras malvados e gente cega, selvagem
e má, que nos pisamos, batemos, esfolamos, mutilamos, mordemos e devoramos
mutuamente como animais enfurecidos, e não nos deixamos intimidar o mínimo por
esse sério mandamento de Deus; e assim por diante.
Em quarto lugar, peço
que o Pai amado nos queira ensinar a reconhecer esse seu santo mandamento e
ajudar com que também procedamos e vivamos de acordo: Que nos proteja a todos
daquele homicida que é o mestre e exemplo de todo morticínio e dano (João
8.44). Que conceda sua graça abundante para que as pessoas (e nós com elas)
sejam amáveis, mansas e bondosas entre si, perdoem-se sinceramente e cada um
suporte a falha e defeito do outro de forma cristã e fraternal. E assim vivam
em boa paz e união, como no-lo ensina e de nós exige esse mandamento.






