Uma criação literária
fantasmagórica do século 20 (fantasmagórica porque ela espelha várias verdades
inconfortáveis a nosso respeito) é o personagem Peter Pan de J. M. Barrie,
"o garoto que não crescia" como subtítulo de Barrie para o filme. Por
duas gerações, Peter Pan foi celebrado e apreciado como um entretenimento
infantil de qualidade. Várias gerações o perceberam simplesmente como a
história de Peter e os piratas, com Wendy a reboque, e a amaram como tal.
Quando era criança, li a história várias vezes. Ela se tornou minha leitura
favorita. Sem dúvida, o filme de Steven Spielberg, Capitão Gancho, trouxe uma
nova vida para a parte pirata da história. Contudo, Peter Pan continuará sendo
um clássico infantil no século 21.
Contudo, Peter Pan não
é uma pessoa com a qual qualquer adulto ou criança inteligente se identificará.
Sua declaração, repetida duas vezes, de que "apenas quero ser um garotinho
e me divertir" é realmente uma má notícia. Peter Pan representa a fixação
de uma fase na vida pela qual passa um garoto que, se tudo correr bem,
crescerá. Sua escolha (pois foi isto que ele fez) de interromper seu próprio
desenvolvimento o deixa tão defeituoso que temos de descrevê-lo como um
anti-herói, um personagem significativamente antipático e até repelente.
Apesar de corajoso,
inteligente e líder, ele também é hábil em chamar a atenção, absorver a si
mesmo, cruel e incapaz ou de amar ou de aceitar o amor dos outros. Pelas
pesadas narrativas de ambivalência sentimental (alternância entre alegria e
tristeza, que era a especialidade de Barrie), a história deixa claro que,
depois de suas aventuras na Never Land (Terra do Nunca), Wendy e seus irmãos
estão melhor preparados para retornar à vida de uma família comprometida com o
crescimento normal de uma criança em direção à fase adulta. Para Peter Pan,
voltar as costas para o mundo dos relacionamentos e trabalho, a fim de tocar
sem parar sua flauta de Pã no meio das fadas é uma tragédia de pequena escala.
Espera-se que o público sinta o mesmo em relação ao crescimento.
A mudança corrente no
mundo ocidental de sua posição cristã para um materialismo secular gerou o que
só pode ser chamado de cultura de Peter Pan. Aqui, todas as facetas de seu
egoísmo infantil são encorajados a emergir e se firmar, e são tratadas como
virtudes quando assim o fazem. Nessa cultura, é difícil tornar-se um adulto
responsável, principalmente na área das emoções. Já foi dito que o maior
problema social do mundo moderno é a extrema imaturidade emocional que se
dissimila como um estilo de vida adulto. Na ordem de Deus das coisas, a família
deve funcionar como uma rede de relacionamentos na qual as lições do amor
responsável e da estratégia para a vida serão ensinadas na íntegra. Mas com o
enfraquecimento da vida familiar, quase no mundo inteiro, isto não está
acontecendo. O mundo de hoje está repleto de pessoas com corpo de adulto que
abrigam uma estrutura emocional juvenil e até infantil - pessoas, em outras
palavras, que apenas querem ser crianças e se divertir. A afluência permite que
o comodismo infantil se torne um estilo de vida da adolescência para frente, e
os resultados, mais tarde, são dolorosos.
Os cristãos, como todos
os outros, são condicionados e influenciados pela cultura da qual fazem parte.
Também tornam-se infectados por esta síndrome de Peter Pan. Os axiomas e
disciplinas da devoção não podem nos ajudar se não estivermos preparados para
mudanças neste ponto. Será que estou disposto a saber se preciso crescer
emocionalmente? E você?
Mais uma vez, é Jesus,
"o Autor e Consumador da fé" (Hb 12.2), que se apresenta a nós como o
modelo dessa maturidade emocional e comportamental à qual o nosso crescimento
na graça deve nos levar. É, por fim, por meio de nossa própria avaliação por
ele, uma vez que o encontramos nas páginas dos Evangelhos, que chegaremos a ver
quais são as nossas necessidades nesta área e que tipo de crescimento, na busca
de sua estatura, nos será exigido.
Que possamos ser
capacitados a crescer na graça neste momento, "aperfeiçoando a nossa
santidade no temor de Deus" (2Co 7.1).
Primeira
Disciplina: Aceitação dos Fatos
O realismo é uma
virtude cristã que reconhece a soberania de Deus sobre o mundo. Ele interpreta
os desapontamentos inesperados e a esperança não concretizada como atos da
sabedoria e bondade divina, de acordo com as suas promessas. Nenhum desânimo,
amargura ou cinismo (as doenças decadentes da alma) encontra espaço para
firmar-se no coração realista. Pedro diz aos seus leitores, que pareciam
abatidos e perplexos diante do fato de que o Senhor não havia ainda retornado,
que a suposta demora de Cristo em concluir a História era, na verdade, uma
expressão de sua longanimidade misericordiosa, esperando a salvação de alguns
que, de outro modo, estariam perdidos (2Pe 3.3-9,15). A aceitação disto, na confiança
de que tudo o que Deus faz é bom, tornou-se essencial para que continuassem a
crescer na forma devocional. Ressentir-se contra Deus, por esta ou outra razão,
bloquearia completamente o crescimento.
Segunda
Disciplina: Evitar as Loucuras
A justiça é uma
obrigação cristã, e o que Pedro chama de "erros dos homens
insubordinados'' (2Pe 3.17) - ou seja, a imoralidade e o orgulhoso desinteresse
pela santidade, descritos em 2Pedro 2 - é um comportamento tolo diante das
exigências divinas e que provoca o julgamento. A rejeição de tal comportamento
enlouquecido é algo necessário para o crescimento devocional contínuo.
Entregar-se a ele, permitindo alguma forma de negligência moral, e,
consequentemente, o desagrado divino, bloquearia completamente o crescimento.
Terceira
Disciplina: Assimilação do Alimento
A verdade bíblica, a
Palavra de Deus, é o verdadeiro alimento da alma. Em sua primeira carta, Pedro
diz aos seus leitores que devem desejá-la (IPe 2.2). Na sua segunda carta, ele
diz que eles devem atentar para as Escrituras escritas pelos profetas (2Pe
1.19-21; 3.2) e certificar-se de que não interpretam erroneamente as cartas de
Paulo (2Pe 3.15). Confiança na verdade divina do ensino bíblico, e a sua
constante assimilação, são ingredientes necessários para um crescimento
contínuo na graça. Dúvidas a respeito das Escrituras, no entanto, bloqueariam
completamente o crescimento.
Quarta
Disciplina: Afirmação da Comunhão
Deus não criou, nem
redimiu, ninguém para que fosse um lobo solitário neste mundo. Fomos criados, e
salvos, para uma vida de ajuntamentos afetivos e ajuda mútua. Pedro desenvolve
este modelo: primeiro, ele chama seus eleitos de "irmãos" (2Pe 1.10;
cf. 2Pe 1.7) e, depois, por quatro vezes em 2Pedro 3, ele os chama de seus
"amados" (literalmente, "queridos"), assim como refere-se a
Paulo como seu "amado [querido] irmão" (v. 1,8,14,15,17). A
imparidade da posição e autoridade apostólica nunca inibe ou restringe sua
comunhão com seus convertidos na qualidade de irmãos que amam e que são amados
na família de Deus. Ocupar o nosso lugar na irmandade interdependente da
comunhão cristã é algo necessário para o crescimento contínuo na graça. O
isolamento voluntário, qualquer que seja sua motivação, bloquearia
completamente o crescimento.






