Eis
que nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe (Salmo 51.5).
Davi avança para além
do mero reconhecimento de um ou de muitos pecados, confessando que nada
trouxera consigo em sua entrada no mundo senão pecado, e que sua natureza era
inteiramente depravada. Ele é assim levado pela consideração de uma só ofensa
de peculiar atrocidade à conclusão de que nascera na iniquidade, e que era
absolutamente destituído de todo bem espiritual.
Aliás, todo pecado deve
convencer-nos da verdade geral da corrupção de nossa natureza. A palavra
hebraica, yechemathni, significa
literalmente aqueceu-se de mim, de, yacham, ou chamam, aquecer; os
intérpretes, porém, a têm mui apropriadamente traduzido me concebeu.
A expressão notifica
que somos criados em pecado desde o primeiro momento em que nos achamos no
ventre [materno]. Davi, pois, é aqui forçado, ao refletir sobre uma
transgressão específica, a fazer um relance retrospectivo sobre toda a sua vida
pregressa e a nada descobrir nela senão pecado. E não imaginemos nós que ele
fala da corrupção de sua natureza, meramente como o fazem os hipócritas
ocasionalmente, a fim de justificar suas faltas, dizendo: "É possível que eu tenha pecado, mas que poderia fazer? Sou homem
e inerentemente inclinado a tudo quanto é mal."
Davi não recorre a tais
artifícios para evadir-se da sentença divina, e faz referência ao pecado original
com vistas a agravar sua culpa, reconhecendo não que havia contraído este ou
aquele pecado pela primeira vez recentemente, mas que havia nascido no mundo
com a semente da própria iniquidade.
A passagem oferece um
notável testemunho em prol do pecado original transmitido por Adão a toda a
família humana. Não só ensina a doutrina, mas pode assistir-nos na formulação
de uma correta idéia dela. Os pelagianos,
com o fim de evitarem o que consideravam um absurdo, ou seja, afirmar que todos
foram arruinados através de uma única transgressão do homem, sustentavam o que
vem de tempos imemoriais, a saber, que o pecado só se originou de Adão através
do hábito de imitação.
A Bíblia, porém, tanto
neste como em outros passos, claramente assevera que nascemos em pecado, e que
existe dentro de nós uma enfermidade inerente à nossa natureza. Davi não culpa
a seus pais, nem traça seu crime até chegar a eles, mas senta-se diante do
tribunal divino, confessa que fora formado em pecado, e que era um transgressor
nato, assim que viu a luz deste mundo. Portanto, constitui um erro grosseiro em
Pelágio, negar este que o pecado era hereditário, inerindo na família humana
por contágio.
Os papistas, em nossos dias, concordam que a natureza humana se
tornou depravada, mas atenuam o pecado original o quanto podem e o representam
como que consistindo meramente numa inclinação para o que é mau. Restringem sua
sede à parte inferior da alma e aos apetites grosseiros; e embora nada seja
mais evidente à experiência que o fato de a corrupção aderir aos homens ao
longo da vida, negam que o mesmo permanece neles subsequentemente ao batismo.
Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos
convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos
que tanto a mente quanto o coração humanos se têm tornado completamente
corrompidos.
A linguagem de Davi soa mui diferentemente daquela dos papistas:
Fui formado na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe. Ele nada diz de
seus mais grosseiros apetites, mas simplesmente assevera que o pecado, por
natureza, penetrara cada parte dele, sem exceção alguma.
Aqui se formula a
seguinte pergunta: Como o pecado se transmite de pais para filhos? E esta pergunta
tem guiado a outra relativa à transmissão da alma, negando muitos que a
corrupção possa derivar-se dos pais para o filho, exceto na suposição de uma
alma ser gerada da substância da outra. Sem pretender entrar em tão misteriosas
discussões, basta que sustentemos que Adão, em sua queda, foi despojado de sua
justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade, pervertida, e que,
sendo reduzido a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a
ele em caráter.
Se porventura alguém
objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais
poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quando
em sua criação foi dotado com os dons do Espírito, não mantinha um caráter
privativo ou isolado, mas que era o representante de toda a humanidade, que
pode ser considerado como tendo sido dotado com esses dons em sua pessoa; e
deste conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós,
juntamente com ele, perdemos nossa integridade original.






