Temos de ser inflamados
para seguir a Deus aonde quer formos por Ele chamados. Sua Palavra tem de ter
tal autoridade para conosco como ela merece, e, havendo-nos retirado deste
mundo, temos de nos sentir arrebatados na busca da vida santificada. Porém, é mais
que estranho que, embora a luz de Deus esteja brilhando mais radiantemente que
nunca, haja uma lamentável' falta de zelo. Em resumo, é impossível negar que é
para nossa grande vergonha, para não dizer temível condenação, que conhecemos
tão bem a verdade de Deus e temos tão pouca coragem em defendê-la.
Acima de tudo, quando
olhamos para os mártires do passado, nos envergonhamos de nossa covardia! Em
sua maioria não eram pessoas muito versadas nas Santas Escrituras para poderem
disputar cm todos os assuntos. Eles sabiam que havia um Deus, a quem convinham
adorar eservir; que haviam sido remidos pelo sangue de Jesus Cristo a fim de
colocarem a confiança de salvação nEle e em sua graça; e que todas as invenções
dos homens, sendo mera inutilidade e lixo. eles deviam condenar todas as
idolatrias e superstições. Numa palavra, sua teologia era, emsubstância, esta:
Há um Deus que criou todo o mundo e nos declarou sua vontade por Moisés e pelos
profetas, e, finalmente, por Jesus Cristo e seus apóstolos; e temos um Redentor
exclusivo, que nos comprou por seu sangue e por cuja graça esperamos ser
salvos. Todos os ídolos do mundo são amaldiçoados e merecem abominação.
Com um sistema
abarcando nenhum outro ponto que não esses, eles foram corajosamente às chamas
ou a qualquer outro tipo de morte. Não entravam de dois em dois ou de três em
três, mas em tamanhos grupos, cujo número dos que caíram pelas mãos dos tiranos
é quase infinito.
O que então deve ser
feito para inspirar nosso peito com a verdadeira coragem? Temos, em primeiro
lugar, de considerar quão preciosa é a confissão de nossa fé aos olhos de Deus.
Pouco sabemos o quanto Deus preza isso, se nossa vida, que não é nada, é
estimada mais altamente pornós. Quando isso se dá, manifestamos maravilhoso
grau de estupidez. Não podemos salvar nossa vida à custa de nossa confissão sem
reconhecermos que a mantemos em mais alta estima que a honra de Deus e a
salvação de nossa alma.
Um pagão poderia dizer:
"Foi coisa miserável salvar a vida deixando as únicas coisas que tornavam
a vida desejável!" E, não obstante, tal indivíduo e outros como ele nunca
souberam por que propósito os homens são colocados no mundo, e por que vivem
aqui. Sabemos muito bem qual deve ser a principal meta de vida, isto é,
glorificar a Deus, para que Ele seja nossa glória. Quando isso não é feito, ai
de nós! Não podemos continuar vivendo por um único momento na terra sem
amontoarmos outras maldições sobre
nossas cabeças. Contudo, não estamos envergonhados de obter alguns dias para
nos enlanguescer aqui embaixo, renunciando o Reino eterno ao nos separarmos
dEle, por cuja energia somos sustentados em vida.
Mas como a perseguição
sempre é severa e amarga, consideremos: Como e por quais meios os cristãos
podem se fortalecer com paciência, para resolutamente exporem a vida pela
verdade de Deus. O texto que lemos em voz alta, quando corretamente
compreendido, é suficiente paranos induzir a agirmos assim. O apóstolo diz:
''Saiamos da cidade para o Senhor Jesus, levando seu vitupério". Em
primeiro lugar, Ele nos lembra que, embora as espadas não sejam desembainhadas
contra nós, nem o fogo aceso para nos queimar, não podemos ser verdadeiramente
unidos ao Filho de Deus, enquanto estamos arraigados neste mundo. Portanto, um
cristão, mesmo em repouso, sempre tem de ter um pé pronto a marchar para a
batalha, e não só isso, mas tem de ter seus afetos retirados do mundo, ainda
que o corpo esteja habitando aqui.
Enquanto isso, para
consolar nossas enfermidades e mitigar a vexação e tristeza que a perseguição
nos causa, é-nos oferecida uma boa recompensa. Sofrendo pela causa de Deus,
estamos caminhando passo a passo após o Filho de Deus e o temos por nosso Guia.
Fosse dito simplesmente que para sermos cristãos tivéssemos de corajosamente
passar por todos os insultos do mundo, encontrar a morte em todo momento e da maneira
que Deus se agradasse designar, teríamos aparentemente algum pretexto para
replicar. É um caminho desconhecido para irmos na dúvida. Mas quando somos
ordenados a seguir o Senhor Jesus, sua direção é muito boa e honrada para ser
recusada.
Somos tão melindrosos
quanto à disposição de suportar qualquer coisa? Então temos de renunciar a
graça de Deus pela qual Ele nos chamou à esperança de salvação. Há duas coisas
que não podem ser separadas — ser membro de Cristo e ser provado por muitas
aflições. Quem dera fosse realmente fácil, mesmo para Deus, nos coroar
imediatamente sem exigir que sustentássemos qualquer combate. Mas assim como é
seu prazer que Cristo reine em meio aos seus inimigos, assim também é sua
vontade que nós, sendo colocados no meio deles, soframos a opressão e violência
que nos infligem até que "Ele nos liberte. Sei, de fato, que a carne
esperneia quando deve ser levada a este ponto, mas não obstante a vontade de
Deus tem de sobrepor-se.
Em tempos passados,
muitas pessoas, para obter simples coroas de folhas, não recusavam o trabalho
duro, a dor e a dificuldade. Até mesmo a morte não lhes era grande preço, e,
ainda assim, cada um deles disputava uma corrida, não sabendo se iria ganhar ou
perder o prêmio. Deus nos oferece a coroa imortal pela qual nos tornarmos
participantes da sua glória.
Ele não quer dizer que
devemos lutar a esmo, mas todos temos a promessa do prêmio pelo qual nos
empenhamos. Temos algum motivo para nos recusarmos a lutar? Achamos que foi
dito em vão: "Se morremos com Jesus, também com ele viveremos"? Nosso
triunfo está preparado, e contudo fazemos tudo o que podemos para evitar o
combate. para não deixar meios sem serem empregados que sejam adequados para
nos estimular, Deus coloca diante de nós Promessas, de um lado, e Ameaças, do
outro. Sentindo que as promessas não têm influência suficiente, fortaleçamo-nos
acrescentando as ameaças. É verdade que devemos ser obstinados no extremo de
não pôr mais fé nas promessas de Deus, quando o Senhor Jesus diz que Ele nos
confessará como seus diante de seu Pai, contanto que o confessemos diante dos
homens.
Mas se Deus não pode
nos alcançar por meios gentis, não devemos ser meros obstáculos se suas ameaças
também falham? Jesus convoca todos aqueles que, por medo da morte temporal,
negam a verdade, a comparecerem no tribunal de seu Pai, e diz que então o corpo
e a alma serão entregues à perdição. Em outra passagem, Ele afirma que negará
todos o que o tiverem negado diante dos homens. Estas palavras, se não somos
completamente impérvios para sentir, bem que podem fazer nossos cabelos se
levantarem enfim!
É em vão alegarmos que
piedade deve nos ser mostrada, já que nossas naturezas são tão delicadas; pois
é dito, pelo contrário, que Moisés, tendo buscado a Deus pela fé, foi
fortalecido para não se entregar sob tentação. Portanto, quando somos flexíveis
e fáceis de dobrar, é sinal manifesto. Não estou dizendo que não temos zelo,
nem firmeza, mas que não sabemos nada de Deus ou de seu Reino. Há dois pontos a
considerar. O primeiro é que todo o Corpo da Igreja em geral sempre esteve, e
até ao fim estará, sujeito a ser afligido pelos ímpios. Vendo como a Igreja de
Deus é pisoteada nos dias atuais pelos orgulhosos indivíduos mundanos, como um
late e outro morde, como torturam, como conspiram contra ela. como ela é
assaltada incessantemente por cães raivosos e bestas selvagens, não nos
esqueçamos de que a mesma coisa foi feita em todos os tempos passados.
Enquanto isso, o
assunto de suas aflições sempre foi afortunado. Em todos os eventos, Deus fez
com que, embora fosse oprimida por muitas calamidades, ela nunca tenha sido
completamente esmagada; como está escrito: "Os ímpios com todos os seus
esforços não tiveram sucesso no que intentaram". O apóstolo Paulo se
gloria no fato e mostra que este é o curso que Deus, em misericórdia, sempre
toma. Ele diz: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos,
mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não
destruídos; trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no
nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos
corpos" (2 Co 4.8-10).
Só menciono brevemente
neste sermão para ir ao segundo ponto, que está mais a nosso propósito, que
devemos tirar vantagem dos exemplos particulares dos mártires que foram antes
de nós. Não são limitados a dois ou três, mas são, como diz o apóstolo,
"uma tão grande nuvem". Com esta expressão, ele intima que o número é
tão grande que deve ocupar toda nossa visão. Para não ser tedioso, mencionarei
somente os judeus, que foram perseguidos pela verdadeira religião, não apenas
sob a tirania do rei Antioco, mas também um pouco depois da sua morte. Não
podemos alegar que o número dos sofredores foi pequeno, pois formava um grande
exército de mártires. Não podemos dizer que consistia em profetas a quem Deus
tinha separado das pessoas comuns, pois mulheres e criancinhas faziam parte do
grupo. Não podemos dizer que eles escaparam por pouca coisa, porque foram
torturados tão cruelmente quanto possível. Por conseguinte, ouvimos o que o
apóstolo diz: "Uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para
alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e
açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos
a fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
desamparados, aflitos e maltratados (homens dos quais o mundo não era digno),
errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra (Hb
11.35-38).






