Mas
tu, ó homem de Deus, foge dessas coisas... (1 Tm 6.11,12) - Ao denominar Timóteo
de homem de Deus, o apóstolo adiciona peso à sua exortação. Se alguém concluir
ser conveniente restringir sua aplicação ao apelo para seguir após a justiça, a
piedade, a fé e a paciência, ao que ele está precisamente dizendo, então este
será o seu antídoto para corrigir-se a avidez pelo dinheiro. Ele diz a Timóteo
que as aspirações que ele devia seguir são de caráter espiritual. Mas pode
aplicar-se ainda mais amplamente ao contexto mais remoto, ou seja, que Timóteo,
mantendo-se isento de toda vaidade, evitasse a fútil curiosidade, [perierguia],
a qual condenara um pouco antes. Aquele que se mantém totalmente ocupado com as
questões básicas, facilmente se manterá livre das coisas que são supérfluas.
Ele menciona algumas formas de virtudes, à luz das quais podemos concluir que
as demais estão também incluídas. Quem quer que se devote a buscar a justiça,
que almeje a piedade, a fé e o amor, e que cultive a paciência e a mansidão,
não poderá deixar de abominar a avareza e seus frutos.
Combate o bom combate.
Na próxima epístola ele diz que nenhum soldado se envolve em negócios alheios à
sua vocação [2 Tm 2.4]. Por isso aqui, com o fim de poupar Timóteo de excessiva
preocupação com os afazeres terrenos, ele o exorta a lutar. A displicência e o
comodismo emanam da preocupação que os homens sentem em servir a Cristo sem
problemas, como se fosse um passa-tempo, enquanto que Cristo convoca a todos os
seus servos para a guerra. Com o fim de encorajar Timóteo a lutar bravamente no
campo de batalha, o apóstolo denomina essa luta de bom combate, ou seja,
combate abençoado e que, portanto, de forma alguma deve ser evitado. Pois se os
soldados terrenos não hesitam em combater quando a vitória é incerta e correm o
risco de perder a vida, quanto mais bravamente devemos nós lutar sob o comando
e a bandeira de Cristo, onde podemos alimentar de antemão a certeza da vitória,
especialmente quando sabemos que há um galardão à nossa espera, o qual está
muito acima dos galardões geralmente conferidos pelos comandantes a seus
homens, ou seja, uma gloriosa imortalidade e a bem-aventurança celestial. Seria
indigno se com uma esperança dessa natureza diante de nós ainda esmorecêssemos
ou caíssemos pela exaustão. E isso é precisamente o que o apóstolo continua
dizendo.
Toma possa da vida
eterna. É como se ele dissesse: "Deus te convoca para a vida eterna,
portanto despreza o mundo e esforça-te por alcançá-la." Ao dizer a Timóteo
que tomasse posse dela, ele o proíbe de desistir ou de deixar-se dominar pelo
cansaço em meio à trajetória. E como se dissesse: "Nada se concretiza até
que tenhamos obtido a vida futura, à qual Deus nos convida." Por
conseguinte, em Filipenses 3.12 ele declara que se esforçava por progredir,
visto que a vida eterna não estava ainda concretizada.
Para a qual foste
chamado. Visto, porém, que os homens lutam precipitadamente e sem qualquer
objetivo de caráter perene, caso não tenham ainda Deus a dirigir sua trajetória
e a estimulá-los à atividade, o apóstolo menciona também a vocação deles. Nada
poderá encher-nos de mais coragem do que o reconhecimento de que fomos chamados
por Deus. Pois desse fato podemos inferir que o nosso labor, que está sob a
direção divina e no qual Deus nos estende sua mão, não ficará infrutífero.
Portanto, pesaria sobre nós uma acusação muito grave caso rejeitássemos o
chamado divino. Contudo, deve exercer sobre nós uma influência muito forte
ouvir: "Deus te chamou para a vida eterna. Cuidado para que não te desvies
para alguma fantasia, ou de alguma forma fracasses no caminho antes que o
tenhas percorrido."
E fizeste a boa
confissão. Ao mencionar a vida pregressa de Timóteo, Paulo o incita ainda mais
a perseverar. Fracassar depois de ter feito um bom começo é mais lamentável do
que nunca haver começado. A Timóteo, que até então havia agido bravamente e
granjeado louvor, o apóstolo apresenta este poderoso argumento: que o seu ponto
de chegada correspondesse ao seu ponto de partida. Entendo confissão, aqui, no
sentido não de algo expresso verbalmente, mas, antes, de algo realizado de
forma concreta, e não numa única ocasião, mas ao longo de todo o seu
ministério. Significando, pois: "Tu contas com muitas testemunhas de tua
pública confissão, tanto em Éfeso como em outros países, a saber: que elas têm
assistido a tua viva fidelidade e seriedade em teu testemunho do evangelho; e
tendo transmitido um exemplo tão positivo, agora outra coisa não podes ser
senão um bom soldado de Cristo, caso não queiras incorrer em maiores vexames e
infortúnios." A luz desse fato aprendemos a seguinte lição geral: quanto
mais eminentes nos tornamos, menos justificativa temos em fracassar e mais
obrigados somos a nos manter em nossa firme trajetória.






