Mas
a piedade é grande lucro (1Tm 6.6,7). De uma forma elegante, e com uma mudança irônica, o
apóstolo repentinamente arremessa contra seus oponentes as mesmas palavras com
significado oposto, como se quisesse dizer: "Eles
agem errônea e impiamente em fazer comércio da doutrina de Cristo, como se a
piedade fosse [fonte de] lucro; e no entanto entenderam corretamente que a
piedade é de fato um grande e riquíssimo lucro." Ele a qualifica assim
porque ela nos traz plena e perfeita bem-aventurança. Aqueles que se aferram à
aquisição de dinheiro, e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se
culpados de sacrilégio. Mas a piedade é por si só suficientemente um
imensurável lucro para nós, visto que é através dela que nos tornamos não só os
herdeiros do mundo, mas também [é através dela] que somos capacitados para o
desfruto de Cristo e de todas as suas riquezas.
Com contentamento. Esta
pode ser uma referência ou a uma disposição íntima ou a uma suficiência de
riqueza. Se porventura for subentendida como uma disposição, o significado
será: os piedosos que nada desejam, mas que vivem contentes com sua pobreza,
esses têm granjeado um grande lucro. Mas se for tomada no sentido de
suficiência âe possessões - interpretação esta que no momento me agrada -, será
uma promessa como aquela do Salmo 34.10: "Os filhos dos leões passam
necessidade e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao Senhor bem nenhum
faltará." O Senhor está sempre presente com seu povo; e, segundo a demanda
de nossas necessidades, ele concede a cada um de nós uma porção de sua própria
plenitude. Portanto, a genuína bem-aventurança consiste na piedade, e essa
suficiência é tão boa quanto um razoável aumento de lucro.
Porque nada trouxemos para o mundo. Ele
acrescenta esta cláusula a fim de definir o limite do que nos é suficiente.
Nossa cobiça é um abismo insaciável, a menos que seja ela restringida; e a melhor
forma de mantê-la sob controle é não desejarmos nada além do necessário imposto
pela presente vida; pois a razão pela qual não aceitamos esse limite está no
fato de nossa ansiedade abarcar mil e uma existências, as quais debalde
sonhamos só para nós. Nada é mais comum e nada mais geralmente aceito do que
essa afirmação de Paulo; mas tão pronto tenhamos concordado com ela - vemos
isso acontecendo todos os dias -, cada um de nós prevê que suas necessidades
absorverão vastas fortunas, como se possuíssemos um estômago bastante grande
para comportar metade da terra. Eis o que diz o Salmo 49.13: "Ainda que
pareça loucura que os pais esperem habitar aqui para sempre, todavia sua
posteridade aprova o seu caminho." Para assegurarmos que a suficiência [divina]
nos satisfaça, aprendamos a controlar nossos desejos de modo a não querermos
mais do que é necessário para a manutenção de nossa vida.
Ao qualificar de
alimento e cobertura, ele exclui o luxo e a superabundância. Pois a natureza
vive contente com um pouco, e tudo quanto extrapola o uso natural é supérfluo.
Não que algum uso um pouco mais liberal de possessões seja condenado como um mal em si
mesmo, mas a ansiedade em torno delas é sempre pecaminosa.






