Se o pecado é um
inimigo derrotado, como pode nos causar tantos problemas? Se o domínio do
pecado foi quebrado, por que, com frequência, parece nos dominar? Por que as
forças do humanismo secular, o novo hedonismo, a Nova Era, o ensino da
auto-estima e a má teologia têm causado tanto impacto entre os crentes? Por que
a consciência parece estar desaparecendo até mesmo no meio evangélico?
Todo cristão honesto
confirmará que a tendência para o pecado não é apagada quando nos tornamos
cristãos. Ainda temos prazer no pecado. Ainda lutamos contra hábitos
pecaminosos. Alguns desses hábitos estão tão profundamente arraigados que ainda
batalhamos contra eles após anos de luta espiritual. Ainda caímos em pecados
horríveis e vergonhosos. A verdade é que pecamos diariamente. Nossos pensamentos
não são aqueles que deveriam ser. Desperdiçamos nosso tempo em buscas frívolas
e mundanas. De tempos em tempos nosso coração fica frio quanto às coisas de
Deus. Por que tudo isso acontece se o domínio do pecado está quebrado?
Aqui veremos que a
Escritura nos insta a evitar qualquer tipo de apatia em relação ao tratamento
do pecado. Devemos mortificar o pecado e sua influência em toda a nossa vida.
A
ira de Deus contra Amaleque
Uma ilustração no
Antigo Testamento pode ajudar a esclarecer nossa relação com o pecado. Em 1
Samuel 15, lemos que Samuel ungiu a Saul e solenemente deu-lhe estas instruções
do Senhor: "Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a
tudo que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e
crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos" (v. 3).
O mandamento de Deus
era claro. Saul tinha que proceder cruelmente em relação aos amalequitas,
matando até mesmo as criancinhas de peito e animais. Toda a tribo tinha que ser
total e impiedosamente arrasada — nenhum refém poderia ser tomado.
O que faria um Deus de
amor infinito impor um julgamento tão severo? Os amalequitas eram uma antiga
raça nómade, descendentes de Esaú (Gn 36.12). Habitavam aparte sul de Canaã e
eram eternos inimigos dos Israelitas. Pertenciam à mesma tribo que cruelmente
atacou Israel em Refidim, logo
após o Êxodo, na famosa
batalha em que Arão e Hur tiveram que sustentar os braços de Moisés (Êx
17.8-13). Eles emboscaram Israel pela retaguarda e massacraram os soldados
dominados, que estavam extenuados (Dt 25.18). A mais poderosa e selvagem tribo
de toda a região atacou Israel covardemente. Naquele dia Deus livrou Israel
sobrenaturalmente, e os amalequitas fugiram procurando refúgio. No final dessa
batalha Deus jurou a Moisés: "Escreve isso para memória num livro e
repete-o a Josué; porque eu hei de riscar totalmente a memória de Amaleque de
debaixo do céu" (v. 14). Realmente ele considerava importante que Israel
destruísse Amaleque:
Lembra-te do que te fez
Amaleque no caminho, quando saías do Egito, como te veio ao encontro no caminho
e te atacou na retaguarda todos os desfalecidos que iam após ti, quando estavas
abatido e fatigado; e não temeu a Deus. Quando pois, o Senhor, teu Deus, te
houver dado sossego de todos os teus inimigos em redor, na terra que o Senhor,
teu Deus, te dá por herança, para a possuíres, apagarás a memória de Amaleque
de debaixo do céu; não te esqueças (Dt 25.17-19; ênfase acrescentada).
Os amalequitas eram
guerreiros temíveis. Sua presença intimidadora foi uma das razões pelas quais
os israelitas desobedeceram a Deus e um impecilho para que entrassem na terra
prometida em Cades Barnéia (Nm 13.29). A ira de Deus ardia contra os
amalequitas por causa da perversidade deles. Ele constrangeu até o corrupto
profeta Balaão a profetizar sua sentença: "Amaleque é o primeiro das
nações; porém o seu fim será a destruição" (Nm 24.20). Os amalequitas
costumavam atormentar Israel indo às suas terras depois de a plantação ter sido
semeada, e movimentando-se na terra cultivada com suas barracas e animais,
destruíam tudo pelo seu caminho (Jz 6.3-5). Eles odiavam a Deus, detestavam
Israel e pareciam ter prazer em atos perversos e destrutivos.
As instruções de Deus
para Saul, portanto, cumpriram o voto que ele havia jurado a Moisés. Saul tinha
que eliminar a tribo para sempre. Ele e seus exércitos eram os instrumentos
pelos quais a justiça de Deus seria levada a cabo. Seu santo julgamento para um
povo mau.
Mas a obediência de
Saul foi somente parcial. Ele ganhou a batalha ferindo de forma esmagadora os
amalequitas que fugiram deles "desde Havilá, até chegar a Sur, que está
defronte do Egito" (ISm 15.7). Como ordenado, ele matou todas as pessoas,
mas "tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas" (v. 8). "E Saul e
o povo pouparam Agague, e o melhor das ovelhas e dos bois, e os animais gordos,
e os cordeiros, e o melhor que havia e não os quiseram destruir totalmente;
porém toda coisa vil e desprezível destruíram" (v. 9). Em outras palavras,
motivados pela cobiça eles pegaram as melhores coisas dos amalequitas,
coletando os despojos da vitória, e desobedecendo propositadamente às
instruções do Senhor.
Por que Saul poupou
Agague? Talvez porque ele quisesse usar o rei humilhado dos amalequitas como um
troféu para mostrar seu próprio poder. Aparentemente, naquele momento Saul
estava somente motivado pelo orgulho; ele até construiu um monumento para si no
monte Carmelo (v. 12). Quaisquer que fossem seus motivos, ele desobedeceu a um
claro mandamento de Deus e permitiu que Agague vivesse.
Esse pecado era tão
sério que Deus imediatamente depôs do trono Saul e seus descendentes para
sempre. Samuel lhe disse: "Visto que rejei-taste a palavra do Senhor, ele
também te rejeitou a ti, para que não sejas rei" (v. 23).
Então Samuel disse:
"Traze-me aqui a Agague, rei dos amalequitas" (v. 32).
Evidentemente Agague,
pensando que sua vida havia sido poupada e se sentindo muito seguro, "veio
a ele confiante". "Certamente já se foi a amargura da morte",
disse ele.
Mas Samuel não estava
para brincadeira. Disse a Agague: "Assim como a tua espada desfilhou
mulheres, assim desfílhada ficará a tua mãe entre as mulheres. E Samuel
despedaçou Agague perante o Senhor em Gilgal" (v. 33).
Nossa mente,
instintivamente, recua diante do que parece ser um ato impiedoso. Mas foi Deus
quem mandou que isso fosse feito. Era um ato de julgamento divino para mostrar
a ira santa de um Deus indignado contra o pecado devasso. Ao contrário de seu
compatriota e rei, Samuel estava determinado a cumprir inteiramente a ordem do
Senhor. A batalha que tinha por objetivo exterminar os amalequitas para sempre
terminou sem que esse objetivo fosse alcançado. A Bíblia registra que depois de
alguns anos, a tribo revigorada atacou repentinamente o território sul e levou
cativas as mulheres e crianças — incluindo a família de Davi (1 Sm 30.1 -5).
Quando Davi encontrou
os amalequitas saqueadores, "Eis que estavam espalhados sobre toda região,
comendo, bebendo e fazendo festa por todo aquele grande despojo que tomaram da
terra dos filisteus e da terra de Judá" (v. 16). Ele os feriu desde o
crepúsculo vespertino até a tarde do dia seguinte, matando a todos, exceto
quatrocentos moços que fugiram montados em camelos (v. 17).
Os amalequitas são uma
ilustração adequada do pecado que permanece na vida do crente. Aquele pecado —
já totalmente derrotado — deve ser tratado com crueldade e despedaçado, ou
então ele irá reviver e continuar a saquear e espoliar nosso coração, e tirar o
vigor da nossa força espiritual. Não podemos ser misericordiosos com Agague, ou
então ele retornará para tentar nos devorar. De fato, o pecado que permanece em
nós frequentemente se torna mais ferozmente resoluto depois de ter sido destronado
pelo Evangelho.
A Bíblia nos ordena
mortificar o pecado. "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena;
prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é a
idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da
desobediência]" (Cl 3.5,6). Não podemos obedecer parcialmente ou ser
indiferentes quando procuramos eliminar o pecado da nossa vida.
Não é possível parar enquanto
a tarefa estiver incompleta. Os pecados, do mesmo modo que os amalequitas,
encontram sempre um jeito de escapar da matança, gerando, revivendo,
reagrupando-se e lançando novos e inesperados ataques em nossas áreas mais
vulneráveis.





