Todas as aflições que incidem sobre a vida do
homem são frutos amargos do pecado original. O pecado de Adão sujeitou a
criação à vaidade (Rm 8.20). Nenhum prazer terreno preenche o coração vaidoso
das criaturas. Ou preenche? Assim como a respiração do marinheiro não preenche as
velas de um navio: "Na plenitude de sua abastança, ver-se-á
angustiado" (Jó 20.22). Há algo faltando e continuamente faltando. O
coração é sempre hidrópico, sedento, nunca satisfeito.
Salomão colocou todas
as criaturas num cadinho, e quando lhe extraiu o espírito e a quintessência,
não havia nada, a não ser espuma, tudo era vaidade (Ec 1.2). Mais ainda, é uma
vaidade irritante, não somente um vazio, mas um amargor. Nossa vida é trabalho
e suor, entramos no mundo com choro e dele saímos com gemido (SI 90.10).
Muitos já disseram que
não viveriam novamente suas vidas, pois elas tiveram em si mais água que vinho.
Mais água de lágrimas do que vinho de alegria. Agostinho disse assim: "Uma
vida longa nada mais é que um longo tormento". E Jó disse: "Mas o
homem nasce para o enfado" (Jó 5.7). Ninguém nasce herdeiro da terra, mas
herdeiro das aflições. Assim como não se separa o chumbo de um peso de balança,
assim é com as aflições do homem.
Nesta vida, as
perturbações não acabam, apenas mudam. A aflição são os vermes que crescem na
matéria pútrida do pecado. De onde vêm todos os nossos temores, senão do
pecado? "O medo produz tormento" (Uo 4.18). O medo é o calafrio da
alma, faz que ela trema. Alguns temem a privação; outros, os perigos; alguns
temem a perda de relacionamentos; se nos regozijamos, é com temor.
De onde vêm todas as
nossas esperanças frustradas, senão do pecado? Para onde olhamos em busca de
conforto, encontramos uma cruz; quando esperamos por mel, experimentamos
absinto. Por que a terra está tão cheia de violência e por que o perverso
oprime "aquele que é mais justo do que ele?" (He 1.13). De onde vêm
tanto engano nos negócios, tanta falsidade nos relacionamentos? De onde vêm a
desobediência das crianças e a idéia de que a vara da autoridade dos pais é
como uma espada a lhes traspassar os corações? De onde vem a infidelidade dos
servos para com seus senhores?
O apóstolo fala de
alguns que acolheram anjos em suas casas (Hb 13.2), porém, quão frequentemente,
em lugar de acolherem anjos, são acolhidos demônios. De onde vêm as
insubordinações e as divisões dentro de um reino? "Naqueles tempos, não
havia paz nem para os que saíam nem para os que entravam" (2Cr 15.5). Tudo
isso não passa do cerne rançoso do fruto que nossos primeiros pais comeram, o
fruto do pecado original.
Além disso, todas as
deformidades e as doenças do corpo, as febres, as convulsões, o catarro, tudo
procede do pecado: fome e uma nova safra de febres oprimiram a terra. Nunca
houve uma pedra nos rins que não tivesse sido, primeiro, uma pedra no coração.
Sim, a morte do corpo é o fruto e o resultado do pecado original. "Entrou
o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte" (Rm 5.12).
Adão era
condicionalmente imortal, se não tivesse pecado. O pecado cavou a cova de Adão.
A morte é terrível para a espécie. Luís, rei da França, proibiu a qualquer um
que entrasse em sua corte de mencionar a palavra morte. Os socinianos dizem que
a morte vem somente das enfermidades da constituição. Porém, o apóstolo diz: o
pecado introduziu a morte no mundo e, pelo pecado, veio a morte. Certamente, se
Adão não tivesse comido da árvore do conhecimento, não teria morrido. "No
dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2.17), isso implica que,
se Adão não tivesse comido, não teria morrido. Então, veja a desgraça que se
seguiu ao pecado original. O pecado dissolve a harmonia e a boa temperatura do
corpo, além de quebrá-lo em pedaços.






