A impressão de que
Deus, portanto, invadiu a própria escuridão e perdição de uma pessoa para
naturalmente salvá-la leva a uma pergunta que foi acerbamente proposta em uma
canção moderna: "Mas, por que eu, Jesus?". O Novo Testamento propõe e
responde esta pergunta, apontando para um propósito eterno do amor divino e
soberano por pecadores, um propósito cuja origem reside na decisão livre do
próprio Deus. Ele se manifesta pela graça preveniente que traz todos à fé e
salvação, e garante sua glória no final. Os autores do Novo Testamento não
falam por que Deus escolheu me salvar. Apenas me pedem para render graças pelo
que ele fez.
Aqui está Paulo
celebrando o propósito amoroso de Deus enquanto convida os cristãos de Efeso a
se juntarem a ele na doxologia:
"Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça (...) em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória". (Ef 1.3-8,13,14)
Para incentivar os
cristãos que enfrentam o sofrimento e se sentem fracos, este é o modo como
Paulo formula o mesmo propósito eterno:
"Sabemos que todas
as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também
os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja
o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também
chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a
esses também glorificou". (Rm 8.28-30)
O próprio Senhor Jesus
tinha este mesmo propósito quando disse:
"Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia (...) Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (...) Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim". (Jo 6.37-40,44,45)
O plano de Deus para
salvar o pecador por meio de sua graça soberana é às vezes visto como um tema
para debates calorosos. Acredita-se que o fato de Deus ter esse plano de
salvação é uma ameaça para aqueles que ainda não crêem, por implicar em dizer
que se essas pessoas se voltarem para Deus, podem descobrir que ele não terá
misericórdia delas por não fazerem parte de seus eleitos. Contudo, esse temor
não procede, porque ninguém se volta para Deus - "ninguém pode vir a
mim", disse Jesus - sem obter a graça soberana que implementa o
misericordioso plano divino.
Na realidade, todos são
convidados a entrar no Reino de Deus, com a garantia de que se buscarem a
capacitação do Espírito Santo para arrependerem-se e crerem, eles irão achá-lo.
A graça preveniente - o Espírito Santo já em ação estimula qualquer resposta
positiva que o convite desperta. Como vimos, os cristãos com certeza sabem que,
sem a graça preveniente, eles não seriam cristãos, e que a graça preveniente
alcançou sua vida por causa do plano de Deus para salvá-los. Assim, não causa
surpresa o fato de que, no Novo Testamento, o plano de Deus seja apresentado
não como um assunto para debate e dúvidas, mas para a doxologia - direcionando
aqueles que agora crêem para o caminho da humildade, exultação e esperança, e
concedendo-lhes determinação e alegria enquanto sua mente confia nessa verdade.
O artigo 17 dos 39 artigos anglicanos expressa este fato de uma maneira muito
clara:
...as considerações divinas da predestinação, e nossa eleição em Cristo, são cheias de um doce, agradável e inexplicável conforto para as pessoas piedosas que, com isso, sentem a obra do Espírito de Cristo mortificando as obras da carne e seus membros carnais e voltando sua mente para as coisas do alto; como também estabelece e confirma a fé dessas pessoas na salvação eterna, a ser desfrutada por meio de Cristo, bem como inflama seu amor por Deus...






