Observar um texto
bíblico clássico que traça o perfil do arrependimento que vem de dentro nos
será útil aqui. No Salmo 51, de acordo com a tradição, Davi publicamente
poetiza a penitência que expressou a Deus depois de ter-se convencido do seu
pecado na questão de Bate-Seba e Urias. Ele quebrou o décimo mandamento ao
desejar a mulher do seu próximo; o oitavo, ao roubá-la; o sétimo, ao adulterar
com ela; o nono, indiretamente, ao tentar enganar Urias para que cuidasse da
criança que estava por nascer como se fosse sua; e o sexto, diretamente,
matando Urias à longa distância. Então, como observamos anteriormente, Davi
passou um ano indiferente ao que havia feito até que o profeta Nata, falando em
nome de Deus, mostrou-lhe o descontentamento divino pela situação (2Sm 11-12).
Mas, no Salmo 51, encontramos um Davi consciente, e que agora expressa total
arrependimento em seis etapas distintas:
1. Os versículos 1 e 2 são uma súplica por
misericórdia e perdão. Revelam uma verdadeira compreensão da aliança divina.
Davi apela ao "inesgotável amor" ("benignidade" e
"bondade" em outras traduções) de Deus, ou seja, à fidelidade da
aliança divina com quem ele mesmo se comprometeu. A aliança pela qual Deus e os
seres humanos se comprometem em pertencer um ao outro para sempre é a base de
toda a religião baseada na Bíblia.
Quando os servos de
Deus tropeçam e caem, a fidelidade de Deus à aliança para com a qual seus
servos foram infiéis é sua única esperança. O relacionamento nesta aliança é,
enfaticamente, um dom da graça de Deus.
E ele quem inicia e
sustenta essa aliança, suportando todas as loucuras e vícios de seus parceiros
que a constituem. Pois os santos de Deus foram, são e continuarão sendo
criaturas loucas e pecadoras, que só podem che-gar à sua presença por meio do
constante perdão de seus constantes pecados. No entanto, o arrependimento é o
único caminho que leva ao perdão.
2. Os versículos 3 a 6 são um reconhecimento
da culpa e a punição que merecemos por nossos pecados. Mostram a compreensão do
pecado como a perversidade inata do nosso coração que encontra sua expressão
nos pecados, atos específicos de maldade e erro aos olhos de Deus. As profundas
verdades encontradas aqui são: primeiro, não somos pecadores porque pecamos,
mas, pelo contrário, pecamos porque somos pecadores (v. 5,6); segundo, todos os
nossos pecados, nossas crueldades e nossas idolatrias são pecados contra Deus
(v. 4).
3. Os versículos 7 a 9 são um pranto vindo
do coração para a purificação do pecado e anulação da culpa. Mostram a
compreensão da salvação como uma obra de Deus que restaura a alegria da
comunhão com ele mesmo por meio da convicção de perdão dos pecados. Os
"ossos" de Davi (sua própria consciência, quem ele sabe que é) são
"esmagados" (incapazes de funcionar propriamente) como conseqüência
de sua consciência acusadora. Ele pede que seus "ossos" literalmente
"dancem" ("exultem", como encontramos em diversas
traduções)por causa desta garantia (v. 8) - uma metáfora vivida para a revitalização
da vida interior de uma pessoa que a compreensão de seu pecado produz.
4. Os versículos 10 a 12 são uma petição
para a vivificação e renovação em Deus. Mostram uma compreensão da vida
espiritual como, em essência, a resposta firme e positiva do espírito do Homem
para Deus - uma resposta que é produzida e mantida pelo ministério regenerativo
do próprio Espírito de Deus que habita em nós. E a maneira que Deus usa para
remover nosso demérito, nossa corrupção e nossos desvios. Ele não nos salva em
nossos pecados, mas dos nossos pecados. Aquele a quem ele justifica, também
santifica. Onde não existe vestígio algum de um coração puro (um coração que
abomina o pecado e que reflete a pureza de Deus) ou de um espírito
"voluntário" (uma disposição para honrar e obedecer a Deus, e
resistir as tentações do pecado), podemos duvidar se a pessoa está realmente em
um estado de graça de qualquer modo. Certamente, buscar uma renovação em
justiça e afastar-se do pecado é, daqui em diante, a essência do arrependimento.
Sem isto, a pessoa não manifestará contrição, e não é, de modo nenhum,
penitente.
5. Os versículos 13 a 17 são uma promessa de
proclamar a misericórdia perdoadora de Deus por meio do testemunho e da
adoração. Mostram uma compreensão de ministério para Deus e para o nosso
próximo: para o santo Deus, por meio do louvor que expressa gratidão; e para os
pecadores, pela declaração da graça que salva. Observemos que os santos são
salvos para servir - celebrar e compartilhar o que Deus lhes tem dado. Uma
dedicação renovada para fazê-lo, além de todas as outras boas obras, é uma
prova da realidade do arrependimento.
6. Os versículos 18 e 19 são uma oração que
pede a bênção da igreja, a Jerusalém de Deus, o povo na terra que leva o seu
nome. Os versículos mostram uma compreensão do que mais agrada a Deus -
pecadores salvos, penitentes que agora estão perdoados e prosperam
espiritualmente, que são movidos pela gratidão e alegria a oferecer
"sacrifícios de justiça" (v. 19). (A idéia aqui é de oferecer
presentes a Deus com amor, embora talvez os sacrifícios de novilhos, sobre os
quais Davi fala, não sugiram isto para o leitor moderno). A intercessão de Davi
por todo o povo de Deus não indica, na verdade, uma mudança do tema da
penitência que ele estava expressando anteriormente. A intercessão brota
naturalmente das experiências do amor perdoador de Deus que o arrependimento
desencadeia. Uma pessoa que sabe que é amada mostrará amor pelos outros, e esse
amor irá levá-la a orar por eles.
Davi honrou a pureza de
Deus pelo modo como se arrependeu de seus vergonhosos atos. Ao se humilhar, ele
reconheceu o desafio que havia lançado, procurou libertação do poder e da culpa
de seus pecados e ofereceu-se novamente para realizar a obra de Deus e
progredir em seu louvor. Este foi um ato de verdadeiro arrependimento, e, como
tal, serve como modelo para nós.
Os cristãos, em seus
sonhos e desejos, ainda que não mostrem isto em suas atitudes exteriores,
também têm suas falhas no que se refere à cobiça, lascívia, avareza, malícia e
engano. Os cristãos, como outros, são tentados a ser indulgentes consigo
mesmos, abusar e explorar o seu próximo, usar sua autoridade como um direito no
campo dos relacionamentos e, de vez em quando, desejar a morte de outros. Se
Deus, em sua providência, nos impede ou não de realizar esses
"sonhos" não é a questão. O ponto é que existem os desejos
desordenados e quando o nosso coração se envolve com eles, ele está no caminho
errado. Este é o motivo pelo qual precisamos nos arrepender.
Algumas formas do assim
chamado ensino da santidade nos encorajam a ser insensíveis ou despreocupados com
os pensamentos e motivos impuros que estão ocultos dentro de nós, mas um
indício da santidade verdadeira é uma consciência crescente desses pensamentos
e motivos, um aborrecimento crescente em relação a eles e um profundo
arrependimento por eles quando nos vemos fomentando-os no nosso coração. Vimos
este santo aborrecimento na vida de John Bradford, e Deus quer vê-lo em nós
todos, pois sua pureza não pode ser honrada de outra forma.






