A visão teísta
relacional de Deus é uma visão que rouba o conforto e a confiança dos crentes.
A compreensão tradicional de Deus dá peso total àquelas declarações bíblicas
que o descrevem como "Senhor Deus Todo-Poderoso... Rei das nações!"
(Ap 15.3), aquele que "governa as nações" (SI 22.28), "domina a
fúria do mar" (SI 89.9) e "reinará para sempre" (Êx 15.18; cf.
SI 93.1; 96.10; 9.1; 99.1; 146.10). A declaração inspirada de Nabucodonosor
sobre o exercício meticuloso e irrestrito da providência de Deus não causa
qualquer embaraço ao teísmo ortodoxo:
Todos os moradores da
terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o
exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem
lhe dizer: Que fazes? (Dn. 4.35)
O teísmo relacional
rejeita o ensino sobre Deus e sua providência que esse versículo retrata,
porque ele não se "encaixa" na "história bíblica" como ele
a vê. Em vez de reconhecer Deus como o Governador sem rival do universo, os
teístas da vontade livre querem retratá-lo como o "Jogador cósmico".
Essa compreensão de Deus supostamente tece conforto e esperança nos crentes,
mas ela de fato destrói o próprio fundamento que a Bíblia estabelece para
confiarmos em Deus.
Sanders é totalmente
direto ao expressar seu desejo de substituir Deus como Rei por Deus como aquele
que "assume riscos". Deus assumiu um risco ao criar um mundo que ele
povoou com criaturas dotadas de desejos livres. Ele fez isso em um esforço de
realizar "o projeto divino", que "envolve a criação de outros significantes
que são ontologicamente distintos de si mesmo e sobre os quais ele derrama seu
cuidado amoroso na expectativa de que eles respondam em amor". Esse risco,
argumenta Sanders, tem uma "grande chance de sucesso e pouca possibilidade
de falha". De fato, "embora o pecado seja possível - por causa do
tipo de mundo - ele simplesmente não era plausível em vista do bom ambiente que
Deus estabeleceu e do amor que ele expressou".
Mas qualquer leitor
honesto da história ou da Escritura demonstra que o "projeto divino",
como Sanders o define, é um erro colossal. Jesus disse que somente uns
"poucos" entrarão pela porta estreita e trilharão o caminho estreito
do Deus amoroso (Mt 7.13,14), e análises missiológicas da história cristã
certamente confirmam essa proclamação. Se o pecado e a degradação do mundo são
resultado de uma ruptura altamente improvável da aventura criativa de
baixo-risco de Deus, como se pode esperar que alguém confie nele para
"projetos" futuros?
O teísmo relacional
reduz Deus a um jogador cósmico - e esse jogador nem é vitorioso. Ele criou
bilhões de portadores de sua imagem, apostando que eles escolheriam amá-lo e
confiar nele. Isso era uma "coisa quase certa" por causa de seu amor
e de sua provisão. Mas, em termos de uma completa análise quantitativa, sua
aposta foi um fracasso. Desde a criação até o presente, o Deus relacional tem
assumido riscos somente para experimentar repetidos fracassos. Tanto a Bíblia
quanto a história estão cheias de registros de pessoas e "projetos"
com os quais ele contou em vão.
Como esse deus pode ser
confiável? Se aquilo que ele queria fazer tem falhado tão repetida e
catastroficamente, por que devemos depender dele para cumprir suas promessas,
por mais bem-intencionado ele tenha sido ao fazê-las? Eu preferiria arriscar
todas as finanças de minha família em um bilhete de loteria a confiar minha
alma a um apostador com um cartel de vitórias tão pequeno.
Boyd não vê esse
problema e, de fato, argumenta que a posição do teísmo relacional o deixa mais
confiável do que a posição clássica. Em vez de ver Deus governando
meticulosamente todos os negócios da vida por seus santos e bons propósitos,
Boyd prefere pensar no exercício da providência de Deus como uma espécie de
RPG, no qual o autor cria um grande número de enredos que o leitor pode progressivamente
selecionar conforme o desenvolvimento da aventura no decorrer do livro. De
forma semelhante, "o Deus do possível é o autor de toda a espinha central
da história da criação e oferece alternativas possíveis às suas criaturas
humanas e angélicas", deixando, dessa forma, "vários lugares para que
os indivíduos exerçam sua vontade livre".
Um Deus que conhece
exaustivamente o futuro ou que o ordena não é digno de confiança, diz Boyd,
porque aquela coisa ruim que ele sabe que acontecerá a você dentro de dois dias
infalivelmente acontecerá, não importa o que você faça ou deixe de fazer. Ele
reclama:
Como a crença nesse
"Deus fiel" o ajudará? Por que você realmente está confiando em Deus?
Por simplesmente saber desde toda a eternidade que um terrível evento vai
acontecer a você daqui a dois dias? Que segurança há nisso? Como essa crença
pode ajudá-lo?
É muito melhor, pondera
Boyd, ter um deus que conhece esse evento não como algo inevitável, mas
simplesmente como uma de muitas possibilidades que podem sobre vir a você daqui
a dois dias. Nesse caso, Deus trabalha para encorajá-lo a criar um futuro que
evite essa possibilidade má - especialmente "se você for uma pessoa que
freqüentemente fala com Deus e o ouve" e "tem família e amigos que
oram por você com uma base consistente". Nesses casos, você pode confiar
em Deus "para evitar certas possibilidades futuras que ele vê que estão se
aproximando".
Logicamente, o que Boyd
falha em discutir é o motivo pelo qual alguém desejaria confiar nos cuidados de
um deus cujas melhores intenções são frustradas repetidamente no decorrer da
história. Além disso, um episódio extraído de sua própria experiência pastoral
protesta contra essa teoria. Ele conta a história de "Suzana", uma
jovem mulher que "cresceu em um maravilhoso lar cristão", que era uma
"discípula piedosa e fervorosa de Jesus Cristo" desde a sua mocidade
e há muito tempo tinha o desejo de ser missionária em Taiwan. Ela orava
diariamente para que seu futuro marido, que deveria compartilhar desse desejo
de fazer missão em Taiwan, "permanecesse fiel ao Senhor e conservasse puro
o coração". Ela encontrou e namorou um homem assim por mais de três anos,
enquanto estava na faculdade. Depois de meses de oração, encontros e conversas
com seus pais, pastor e amigos, todos concordaram que "seu casamento era
da vontade de Deus". A própria Suzana recebeu uma confirmação especial
disso enquanto orava certo dia.
Pouco tempo depois do
casamento, enquanto estava em uma escola de missionários, o marido de Suzana
começou a adotar um padrão de adultério e abuso, e recusava-se a ser ajudado ou
a arrepender-se. Quando ele pediu divórcio, ela estava grávida,
"irada", "emocionalmente destruída e espiritualmente
arrasada". Para ajudá-la a lidar com a devastação de sua provação, Boyd lhe
ofereceu "um caminho alternativo para compreender a situação". Ele
escreve: "Eu sugeri a ela que Deus estava tão arrependido pela confirmação
que tinha dado a ela quanto pela decisão de fazer Saul rei de Israel (ISm
15.11, 35; veja também Gn 6.5, 6)". Mas por que Deus não trabalhou em
Suzana para encorajá-la a criar um futuro que evitasse essa possibilidade?
Certamente ela se encaixa no perfil apresentado por Boyd do tipo de pessoa que
pode confiar no deus do teísmo relacional para fazer exatamente isso.
Como nós podemos
confiar em Deus para "inspirar" seus filhos a tomarem certas
decisões, quando ele mesmo é tão falível quanto nós porque não tem conhecimento
exaustivo do futuro? É difícil ver como o teísmo relacionai não reduz Deus ao
nível de um "homem do tempo" dos flashes de meteorologia dos jornais
- alguém que, por ser um especialista em sua área, tem acesso a informações que
não estão disponíveis a outras pessoas e que, por isso, está em melhor posição
que os demais para fazer suposições sobre o futuro. Permanece a questão: por
que nós deveríamos confiar nesse Deus?
Uma coisa é basear
nosso picnic nas previsões do tempo. Se uma chuva inesperada arruinar o seu
dia, você pode ficar desapontado e até mesmo frustrado com o meteorologista e
com suas previsões, mas você reconhece que ele está apenas fazendo suposições
sobre padrões meteorológicos. Você não espera que ele seja infalível. Contudo,
nós temos expectativas muito mais elevadas em relação a Deus. Se ele nos
inspira a ações das quais ele posteriormente se arrepende, então, em última
instância, ele não é confiável.
A visão clássica de
Deus nunca nos levará a essa conclusão. Se, ao contrário do que diz o teísmo
relacional, Deus conhece o fim desde o começo (Is 46.10) e pensa e age por
caminhos que são muito mais elevados que os nossos caminhos (Is 55.8,9), então
nós podemos confiar nele para fazer todas as coisas - inclusive as coisas
inexplicavelmente más - para o nosso bem (Rm 8.28). Remova o controle soberano
de Deus sobre a vida e seu completo conhecimento do futuro e o próprio
fundamento para confiar nele começa a ruir.





