Terei misericórdia de
quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter
compaixão.Assim,
pois, não depende de quem quer nem do que corre, mas
de Deus que usa de misericórdia. (Rm 9.15,16).
Paulo deduz
desta afirmação a incontrovertível conclusão de que a nossa eleição deve ser
atribuída, não à nossa diligência, nem ao nosso zelo, nem tampouco aos nossos
esforços, senão inteiramente ao conselho divino.
Que ninguém conclua que
os eleitos o são em virtude de serem eles merecedores, ou porque de alguma
forma conquistaram para si o favor divino, ou ainda porque possuíam alguma
semente de dignidade pela qual Deus pôde ser movido a agir. A idéia simples,
que devemos levar em conta, é esta: o fato de sermos contados entre os eleitos
independe tanto de nossa vontade quanto de nossos esforços - pois o apóstolo
substituiu correr por esforço ou diligência. Ao contrário, deve ser atribuído
totalmente à benevolência divina, a qual, por si mesma, recebe graciosamente
aqueles que nada empreendem, nem se esforçam, nem mesmo tentam. E estulto o
argumento daqueles que concluem desta passagem que possuímos a capacidade de
envidar esforços por alcançar nossa própria eleição, mas que esta capacidade
não efetua nada por si mesma, senão que recebe o auxílio da misericórdia
divina.
O apóstolo não está
tentando mostrar a capacidade que porventura temos, e, sim, está excluindo
todos os nossos empenhos. Dizer que queremos ou corremos para alcançar a
eleição é pura cavilação, visto que Paulo nega que o homem que quer e corre
seja capaz de concretizar a eleição. O que ele tem em mente é simplesmente que
nem o querer nem o correr podem efetuar algo.
Entretanto, aqueles
que, em contrapartida, prosseguem em sua ociosidade e inatividade, sob a
alegação de deixar à graça divina a liberdade de ação, também devem ser
condenados. Ainda que nossos próprios esforços não realizem nada, todavia o
esforço que é inspirado por Deus não fica sem efeito. Portanto, não dizemos
isto com o intuito de fazer que nossa capeiosidade e indolência extingam o
Espírito de Deus, quando ele acende em nós algumas centelhas, mas para que
possamos entender que o que temos procede dele, e para atribuir-lhe a
existência de todas as coisas, e sinceramente desenvolver nossa salvação com
temor e tremor [Fp 2.12].
Pelágio tentou
evadir-se desta cláusula do apóstolo, substituindo-a por outro sofisma
completamente indigno. Ele defendeu a tese de que nossa eleição não depende
somente de quem quer ou de quem corre, visto que a misericórdia divina nos
assiste. Agostinho, contudo, o refutou eficiente e astuciosamente, dizendo:
Quando se nega que a vontade humana é a causa da eleição, por ser ela apenas
uma parte e não a única causa, também podemos, em contrapartida, afirmar que a
eleição não depende da misericórdia divina, e, sim, de quem quer ou de quem
corre. Onde há mútua cooperação, também deve haver louvor recíproco. Mas esta
última proposição perece incontrovertível por sua própria obscuridade.
Determinemos, pois, atribuir à misericórdia a salvação daqueles a quem Deus
propôs salvar, de uma maneira tal que nada sobre para a indústria humana.
Na opinião de alguns
intérpretes, estas palavras foram expressas na pessoa do ímpio. Contudo, tal
coisa não leva nada de plausível. Seria consistente torcer textos da Escritura,
nos quais a justiça divina é proclamada, com o propósito de censurá-lo com
tirania? Além disso, seria provável que Paulo houvesse permitido que a
Escritura fosse tratada com grosseiro desdém, quando poderia pronta e
facilmente ter refutado seus oponentes? Mas estes são meios de escape dos quais
se apoderam aqueles que medem este incomparável mistério divino por seus
próprios critérios, tacanhos e confusos. Para os seus delicados e sensíveis
ouvidos, esta doutrina era por demais dissonante para ser considerada digna do
apóstolo. E ter-lhes-ia sido mais proveitoso se sujeitassem sua obstinação à
obediência do Espírito, a fim de não virem a ser tão lamentavelmente
contaminados por suas próprias e grosseiras mentiras.






