Todavia, o firme
fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que são
seus; e: Qualquer que profere o nome do Senhor, então que se aparte da
injustiça. (2 Tm 2.19)
Todavia,
o firme fundamento de Deus permanece.
Sabemos sobejamente bem
quantos escândalos têm procedido da apostasia daqueles que uma vez professaram
a mesma fé que nós. E isso é especialmente verdade no caso de homens que são
muito populares e de extraordinária reputação. Se alguém dentre o vulgo apóstata,
não nos sentimos muito sensibilizados. Mas aqueles a quem os homens têm em alta
estima, os quais se tornam colunas na Igreja, não podem fracassar sem envolver
outros em sua ruína, principalmente se sua fé não contar com outro apoio. Essa
é a preocupação de Paulo aqui, e ele diz que essa não é razão para as pessoas
piedosas perderem o ânimo, ainda quando assistem o fracasso daqueles que
acreditavam ser firmes na fé.
Com o fim de
confortá-los, ele realça que a leviandade ou a perfídia dos homens não pode
impedir a Deus de preservar sua Igreja até ao fim. Primeiro, ele nos traz à
memória a eleição divina, à qual ele chama figuradamente de fundamento,
significando com isso sua firmeza e constância perene. Tudo isso visa a provar
a certeza de nossa salvação, contanto que façamos parte dos eleitos de Deus. E
como se dissesse: "Os eleitos de Deus não dependem de eventos mutáveis,
senão que repousam num sólido e inamovível fundamento, já que sua salvação está
nas mãos de Deus. Assim como 'Toda planta que meu Pai celestial não plantou,
será arrancada' [Mt 15.13], também uma raiz que foi fixada por sua mão não pode
ser arrancada pelos ventos ou tempestades."
Portanto, lembremo-nos,
antes de tudo, que, a despeito de toda a fraqueza da carne, os eleitos, não
obstante, não correm esse risco, porque não estão firmados em sua própria
capacidade, mas estão fundados em Deus. E se os alicerces que os homens lançam
são firmes, quanto mais aquele que é lançado por Deus mesmo! Estou cônscio de
que alguns tomam isso como uma referência à doutrina: "Que ninguém julgue
a verdade da doutrina pela infidelidade daqueles que a professam"; mas é
fácil de se inferir do contexto que Paulo está falando da Igreja de Deus e dos
eleitos.
Tendo este selo. A
palavra signaculum tem provocado muito mal-entendido, porquanto há quem a tome
no sentido de marca ou impressão; eu, contudo, usei a palavra sigillum, um
selo, que é menos ambígua. Pois, evidentemente, o significado de Paulo é que a
salvação do eleito está sob a proteção secreta de Deus, como um sinete [selo],
pois a Escritura declara que eles estão "inscritos no livro da vida"
[SI 69.28; Fp 4.3].
O Senhor conhece os que
são seus.. Tanto a palavra selo quanto a cláusula seguinte nos lembram que não
devemos julgar segundo nossa opinião pessoal se o número dos eleitos é grande
ou pequeno. Porque o que Deus selou ele deseja que seja mantido como um livro
fechado para nós; também, se pertence a Deus saber quem são seus, não deve
causar estranheza que às vezes um grande número deles se mantenha ignoto a nós,
ou se ainda chegarmos a equivocar-nos na tentativa de fazer uma seleção. E
preciso que atentemos bem para a razão do apóstolo em falar de um selo; é para
que, ao nos depararmos com tais casos, nos lembremos do que João disse:
"Saíram de nós, mas não eram dos nossos" [1 Jo 2.19]. Disto procedem
duas vantagens: que a nossa própria fé não será abalada, e, se as coisas
sucedem de forma inesperada, não desfaleceremos, como às vezes sucede. Em
segundo lugar, estando certos de que, apesar de tudo, a Igreja estará a salvo,
suportaremos mais pacientemente que os réprobos tomem o seu próprio destino
para o qual foram destinados, pois o número com o qual Deus se apraz permanece
intacto. Portanto, sempre que suceder alguma mudança súbita, contrariando nossa
expectativa e esperança, lembremo-nos uma vez mais de que "o Senhor
conhece os que são seus".
Então que se aparte da
injustiça. Ele havia encarado o escândalo provocado pela apostasia, dizendo que
o mesmo não devia causar excessivo susto entre os crentes; e agora continua
usando tais hipócritas como exemplo para ensinar-nos a não escarnecermos de
Deus por uma profissão simulada do Cristianismo. E como se ele dissesse:
"Visto que Deus pune os hipócritas por exporem sua perversidade dessa
forma, aprendamos a temê-lo com consciência sincera, para que o mesmo não nos
suceda." E assim, qualquer um que invoque o nome de Deus, ou seja, que
professe pertencer ao povo de Deus e queira ser reconhecido como um membro seu,
que se mantenha longe de toda e qualquer impiedade. Pois aqui, invocar o nome
de Cristo significa gloriar-se em seu título e em pertencer ao seu rebanho,
assim como em Isaías 4.1 invocar o nome de um homem sobre uma mulher significa
que a mulher deve ser reconhecida como sua legítima esposa, e em Gênesis 48.16
invocar o nome de Jacó sobre toda a sua posteridade significa que o nome da
família está sendo preservado em sucessão ininterrupta, visto que ela [a
posteridade] descende dele.






