Porque
sou o menor (1Co 15. 9,10). Não é certo se seus inimigos
falavam isso aos outros com o intuito de enfraquecer sua confiança nele, ou se
ele procedeu assim numa confissão inteiramente extraída de sua livre vontade.
Quanto a mim, não tenho dúvida de que ele jamais teve a menor hesitação de
estar preparado e mesmo feliz em se subestimar a fim de magnificar a graça
divina, embora eu suspeite que neste versículo ele pretendesse refutar falsas
acusações assacadas contra ele. Em Corinto, havia pessoas que se ocupavam de
minar sua autoridade, falando maliciosamente contra ele. Podemos deduzir tal
fato das muitas passagens precedentes, e também de uma comparação que ele
introduz um pouco mais adiante, o que jamais faria se não fora forçado a assim
fazer pela fraqueza de algumas pessoas. Ele poderia ter posto assim:
"Insultai-me tanto quanto vos agrade, eu não me importarei de ser
rebaixado abaixo do próprio pó; não me importarei de ser tido na conta de nada,
para que a benevolência divina para comigo esteja em muito maior evidência.
Portanto, que eu seja considerado como o menor dos apóstolos; na verdade, tenho
consciência de nem mesmo merecer essa posição [e título]. Pois, que méritos
tive eu que seria capaz de alcançá-lo? Quando costumava perseguir a Igreja de
Deus, o que merecia, pois? Porém, não há necessidade alguma de determinardes
minha dignidade, porque o Senhor não dá a menor importância ao tipo de homem
que fui, mas, pela operação de sua graça, ele fez de mim outro homem."
O que importa é o
seguinte: Paulo não recusa ser o menor
de todos, na verdade quase uma nulidade, contanto que, ao ser assim
considerado, não constituísse um obstáculo ao seu ministério, em qualquer
sentido, e nem prejudicasse um mínimo sequer o seu ensino. Ele se sente
plenamente satisfeito consigo mesmo ao ser considerado indigno de qualquer
honra, contanto que pudesse encomendar seu apostolado em razão da graça que lhe
fora concedida. E Deus certamente não o honra com dons mui excelentes para que
sua graça seja sepultada no olvido, mas sua intenção era tornar o apostolado de
Paulo o mais notável e o mais confiável possível.
E
sua graça... não foi em vão. Aqueles que se põem
deliberadamente em oposição à graça de Deus, temendo que venhamos fazê-lo
totalmente responsável por tudo o que de bom fazemos, torcem estas palavras
para que se ajustem ao seu ponto de vista, como se Paulo estivesse
vangloriando-se de que, por seus próprios esforços, cuidasse de impedir a Deus
de lhe conferir sua graça para nenhum propósito. Conseqüentemente, chegaram à
conclusão de que a graça é certamente oferecida por Deus, mas o uso correto
dela é algo que o homem tem em seu próprio poder, e a responsabilidade de
obtê-la, mantendo-a latente, é sua. Nego, porém, que estas palavras de Paulo
dêem qualquer apoio a esse ponto de vista equivocado, porque neste versículo
ele não está reivindicando nada para si mesmo, como se tivesse feito,
independentemente de Deus, algo louvável. Então, o que ele quer dizer? A fim de
não dar a impressão de fazer fútil ostentação, com todo o vocabulário, porém
carente de realidade, ele declara que está afirmando aquilo que está à vista
para quem quiser ver. Finalmente, concedido que estas palavras mostram que
Paulo não fazia mau uso da graça de Deus, e não a tornou inútil por sua própria
negligência, todavia sou de opinião que não temos qualquer justificativa, por
essa conta, para dividir entre ele e Deus o louvor que deve ser atribuído
exclusivamente a Deus, à vista do fato de que Deus nos outorga não só a capacidade
de agir bem, mas também a vontade de agir bem e o resultado de nossos esforços.
Trabalhei
muito mais. Alguns acreditam que esta expressão se
direciona aos fanfarrões que, ao denegrirem a pessoa de Paulo, estavam
promovendo a si próprios e a seus futuros interesses pessoais; porque, segundo
este ponto de vista, não seria digno de Paulo querer entrar em competição com
os apóstolos. Mas quando ele se compara aos apóstolos, ele o faz motivado por
pessoas ímpias que tinham o hábito de confrontá-lo com eles a fim de rebaixarem
sua reputação, segundo vemos na epístola aos Gálatas (1.11). Assim, é bem
provável que ele esteja falando dos apóstolos, quando avalia seus próprios
esforços acima dos esforços deles. E certamente é verdade que ele se sobressaía
nas demais áreas, não só em suportar muitas dificuldades, em passar por muitas
provas e experiências, em abster-se de muitas coisas para cujo uso ele tinha
toda a liberdade, mas porque o Senhor estava coroando seus esforços com uma
maior medida de sucesso. Pois considero 'labor' como que significando os
resultados que deviam ser vistos em seu trabalho.
Não
eu, mas a graça de Deus que era comigo. Ao omitir o relativo
[que], a Vulgata deu aos que não conhecem o grego uma oportunidade de cometer
equívoco. Porquanto ela traz: "Não eu, mas a graça de Deus comigo", o
que leva à conclusão que só a metade do crédito é atribuída a Deus, enquanto
que a outra metade é atribuída ao homem. Portanto, o seu raciocínio é que Paulo
não agia por conta própria, porquanto nada poderia fazer sem a graça
cooperante, enquanto que, ao mesmo tempo, seu próprio livre-arbítrio e seus
próprios esforços tinham sua própria participação na ação. Porém, suas palavras
vibram uma nota completamente diferente, pois, havendo dito que algo lhe era
aplicável, ele corrige isto e o transfere inteiramente para Deus; inteiramente,
insisto, e não apenas uma parte; pois afirma que, seja o que for que pareça ter
sido feito por ele, na verdade era totalmente obra da graça. Este é deveras um
versículo notável, não só em reduzir a pó o orgulho humano, mas também em fazer
evidente como a graça divina age em nós. Porque, como se tivesse cometido um
equívoco em fazer dele mesmo a fonte de algo bom, Paulo corrige o que havia
dito, e declara que a graça de Deus é a causa eficiente de tudo. Não devemos
imaginar que Paulo está meramente simulando humildade, aqui. Ele está falando
de seu coração, como costuma fazer, e porque sabe que esta é a plena verdade.
Devemos, pois, aprender que o único bem que temos é aquele que o Senhor nos
concedeu graciosamente; que o único bem que praticamos é aquele que ele produz
em nós; que nada fazemos por nós mesmos, senão que agimos somente quando somos
influenciados; em outras palavras, quando estamos sob a direção e influência do
Espírito Santo.






