Em Lucas 4.24 Jesus
diz: "De fato vos afirmo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria
terra". Em vez de usar a expressão "de fato", algumas traduções
mantêm o grego "Amém", significando "Eu solenemente lhes asseguro".
E a expressão bíblica para "Estou lhes dizendo a verdade. Nenhum profeta é
bem recebido em sua própria cidade: nenhum profeta é dektos, aceito, em sua
própria cidade". Os especialistas em geral vêm de outras cidades, não é?
Isso é mais uma prova de que a familiaridade gera desprezo.
Jesus fazia uma
concessão. Dizia-lhes com muitas palavras: "Compreendo que é difícil para
vocês superar o fato de que eu sou de casa, cresci aqui, sou o filho de José e
o menino da Maria, e vocês me viram nesta sinagoga durante toda a minha vida.
Eu compreendo isso". Penso que existe misericórdia nas palavras de
compreensão de Jesus ao reconhecer que nenhum profeta é bem recebido em sua
terra. Ele repetiu a mesma frase um ano e meio depois quando voltou àquela
sinagoga, como está registrado em Mateus 13.57 e em Marcos 6.4. Isso está
registrado também em João 4.44.
Jesus fez essa
concessão à luz do fato de que assim é o comportamento humano. Mas, então, ele
fez uma transição brilhante e profunda. Mencionou dois profetas, primeiro Elias
em Lucas 4.25 e depois Eliseu no versículo 27, os quais o povo de Israel havia
odiado, rejeitado e recusado. Todos aqueles ouvintes de Jesus sabiam a respeito
de Elias, o grande profeta de Israel. Durante seu ministério, aproximadamente
em 850 a.C, havia muitas viúvas. Além disso, o culto a Baal estava por todos os
lugares, porque o rei Acabe havia se casado com uma devota de Baal, Jezabel.
Acabe começou a adorar Baal sob a influência de sua esposa, e logo todo o
Israel seguiu seu exemplo. Acabe era tão mau, que, segundo lReis 16.33:
"...cometeu mais abominações para irritar ao SENHOR, Deus de Israel, do
que todos os reis de Israel que foram antes dele".
O capítulo 17 de IReis
inicia com o profeta Elias invocando o julgamento de Deus sobre Acabe e seus
súditos. O profeta orou ao verdadeiro Deus pedindo uma seca para provar que
Baal, o deus da chuva e da fertilidade era um deus incapaz, falso e impotente.
Deus respondeu com uma seca que durou três anos e meio. Em Lucas 4.25,26, Jesus
relembrou aos seus ouvintes o fato de que Deus enviou Elias, no auge da seca, a
uma viúva pobre da cidade de Sarepta propondo a ela, em nome do Senhor, que, se
ela compartilhasse com ele seu último alimento, o Senhor supriria todas as suas
necessidades até que a chuva retornasse. Ela foi obediente ao verdadeiro Deus a
despeito do fato de ter apenas o suficiente para uma última e insuficiente
refeição para si e para seu filho. Ela deu a Elias o alimento solicitado.
Foi uma decisão de vida
ou morte para ela. Sem nenhum outro sustento, a viúva e seu filho esperavam
morrer de inanição depois de consumirem o último bocado que havia na casa.
Compartilhar o pouco que tinham com aquele estranho os levaria a um fim
desesperado mais cedo ainda. Entretanto, porque ela foi obediente, Deus lhe
mostrou sua misericórdia, e daquele momento, até o fim da seca, ele
miraculosamente reabasteceu diariamente sua panela de farinha e sua botija de
óleo.
Essa história enfureceu
os judeus porque a viúva de Sarepta era uma gentia numa cultura que adorava a
Baal, e, entretanto, Deus preteriu muitas viúvas necessitadas de Israel e
enviou Elias apenas a mulher que nunca fizera qualquer esforço para cumprir as
leis religiosas pelas quais os judeus eram tão obcecados. O que importava era
sua fé individual no verdadeiro Deus e não sua linhagem tribal ou religiosa.
Como isso podia ser possível? Como poderia Deus abençoar essa gentia
desprezível enquanto aparentemente ignorava os judeus praticantes da lei?
Ultrajante!
Embora as pessoas na
sinagoga ficassem cada vez mais irritadas, Jesus continuou mostrando a verdade.
No versículo 27 ele prosseguiu com a história de Eliseu, que sucedeu Elias
durante o período de 850 a 790 a.C, quando havia muitos leprosos em Israel. A
lepra era uma espécie de termo de classificação que envolvia grande variedade
de doenças antigas que afetavam a pele, descritas em Levítico 13, incluindo
tudo, desde um problema superficial até os mais sérios. Pode ter incluído
também aquilo que hoje chamamos de lepra, a doença assustadora também conhecida
como hanseníase.
Eram doenças
deformadoras, e algumas espalhavam-se de modo assustadoramente rápido. Suas
vítimas eram consideradas como pessoas imundas; eram afastadas de todo
relacionamento, atividade social e contato familiar, eram isoladas porque os
outros temiam o contágio (embora hoje, com os tratamentos modernos, o risco de
contágio da hanseníase é considerado ínfimo). Israel tinha muitos, muitos
desses párias fisicamente postos em quarentena em razão de suas horríveis
doenças. Era o tempo de Eliseu, e eles não gostavam de Eliseu, assim como não
gostavam de Elias. Ele não era mais honrado em seu país do que fora Elias. O
povo ainda adorava Baal, e virava as costas ao Deus vivo e verdadeiro, e, ao
mesmo tempo, havia leprosos por todos os lados. Lucas 4.27 diz que Deus não
purificou nenhum dos leprosos, exceto Naamã, o sírio.
Como os judeus odiaram
essa história! Naamã era o comandante do exército de um país conhecido como
Arã. Ele comandava os terroristas que estavam sempre pilhando Israel. Eles
cruzavam a fronteira, faziam um ataque de surpresa, matavam os judeus e levavam
homens e mulheres de volta para a Síria como escravos. Naama era um líder inimigo
violento, como os modernos militantes palestinos que atacam os judeus. Além do
mais, era um gentio e um leproso! Era tão desprezível quanto se pode ser.
Num de seus ataques de
surpresa, descrito em 2Reis 5, ele capturou uma menina e a levou para servir
como escrava de sua mulher. Surpreendentemente a menina tinha uma atitude
compassiva: ela soube de sua lepra e lhe disse que ele precisava ir a Israel e
procurar pelo homem de Deus chamado Eliseu, porque Deus poderia curá-lo por
meio de seu profeta. Naamã começou a crer no poder do Deus de Israel e,
finalmente, depois de uma série de acontecimentos, ele se encontrou com Eliseu.
Eliseu mandou dizer que
o Deus de Israel curaria Naama se ele se lavasse sete vezes no rio. A sugestão
deixou Naamã furioso. Ele tinha uma personalidade orgulhosa que se considerava
como um homem muito importante, de grande honra, um líder militar de estatura,
dignidade e nobreza. De modo algum ele se humilharia mergulhando sete vezes.
Ele até reclamou contra a sugestão de entrar no rio sujo de Eliseu quando tinha
um rio limpo e bonito em seu próprio país.
Naamã saiu da casa de
Eliseu e seu servo lhe disse: "Bem, é melhor um rio sujo, mas um homem
purificado, não é?" Ele começou a refletir melhor.
E compreendeu seu
desespero, compreendeu que não havia nenhum alívio, nenhuma cura, nenhuma
purificação, exceto por meio do Deus de Israel. Naamã refletia: "Será que
este homem de Deus é realmente um homem de Deus? Será que Deus é
verdadeiramente Deus? Será Eliseu na realidade seu profeta? Como saberei a não
ser que me submeta àquilo que ele pediu? Em meu desespero, minha carência e
minha doença, tenho de fazer o que o homem me mandou fazer. Então saberei se
ele é o homem de Deus e se o Deus de Israel é o verdadeiro Libertador".
Assim, ele foi e
mergulhou sete vezes no rio sujo de Eliseu. E, adivinhem! Ele foi purificado de
toda a sua lepra!
Se estivéssemos
sentados na sinagoga naquele momento diríamos: "Isto não vai indo bem.
Então somos piores que uma viúva gentia da cidade de Jezabel? Somos piores do
que um terrorista sírio, gentio e leproso? Isso é intolerável.






