-
Ensina essas coisas e exorta (1 Tm 6.2). O que o apóstolo tem
em mente é que essas coisas devem ser ensinadas com persistente ênfase, e quer
que a exortação acompanhe o ensino. E como se houvesse dito que esse gênero de
ensino deve ser reiterado diariamente, e que os indivíduos necessitam não só de
instrução, mas também de estímulo e intimação por meio de exortações
freqüentes.
Se
alguém ensina uma doutrina diferente (v. 3). A palavra no
grego é um verbo composto e pode ser traduzido: "ensinar outras
coisas". Mas não há dúvida sobre o seu significado; o apóstolo está
condenando todos os que não aceitam esse tipo de ensino, mesmo que não se
oponham aberta e irrestritamente à sã doutrina. É possível não professar um
erro ímpio e público, e no entanto corromper a doutrina da piedade através de
sofismas ostentosos. Porque, quando não há progresso ou edificação procedente
de algum ensino, o afastamento da instituição de Cristo já está concretizado.
Mas ainda que Paulo não esteja falando dos confessos originadores de doutrinas
ímpias, e, sim, acerca de mestres fúteis e destituídos de religião, que do
egoísmo ou avareza deformam a simples e genuína doutrina da piedade, não
obstante percebemos quão aguda e veementemente ele os ataca. E não é de
estranhar, pois é quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela
pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio de
conteúdo. Torna-se, porém, ainda mais evidente, à luz do que segue, a quem
precisamente ele está responsabilizando aqui. Pois a próxima cláusula - e não
consente com as sãs palavras - é tencionada como uma descrição de homens desse
tipo, desviados por tola curiosidade, comumente desprezam tudo o que é benéfico
e sólido e se entregam a excentricidades extravagantes, à semelhança de cavalos
obstinados. E o que é isso senão a rejeição das sãs palavras de Cristo? São
chamadas sãs em virtude de seu efeito de conferir-nos solidez, ou porque são
qualificadas para promover a solidez.
E com a doutrina da
piedade tem o mesmo sentido. Pois ela só será consistente com a piedade se nos
estabelecer no temor e no culto divino, se edificar nossa fé, se nos exercitar
na paciência e na humildade e em todos os deveres do amor. Portanto, aquele que
não tenta ensinar com o intuito de beneficiar, não pode ensinar corretamente;
por mais que faça boa apresentação, a doutrinação não será sã, a menos que
cuide para que seja proveitosa a seus ouvintes. Paulo acusa a esses
infrutíferos mestres, primeiro de insensatez e de fútil orgulho. Em segundo
lugar, visto que o melhor castigo para os interesseiros é condenar todas as
coisas nas quais, em sua ignorância, se deleitam, o apóstolo diz que eles nada
sabem, embora estejam inchados com argumentos inúmeros e sutis. Não têm nada
sólido senão só vácuo. Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte a todos os piedosos a
não se permitirem que se desviem por esse gênero de exibição fútil, mas que, ao
contrário, permaneçam firmes na simplicidade do evangelho.
Apaixonado
por questionamentos (v.4). Eis uma comparação indireta entre
a solidez da doutrina de Cristo e essa 'paixão'. Pois quando esses
questionadores sutis tiverem se cansado com seu enfadonho assunto, que
resultado terão eles de revelar a todos os seus esforços, a não ser que o seu
mal se agrave crescentemente? Não só se desgastam por nada, mas sua insensata
curiosidade provoca essa 'paixão'. E daqui segue-se que estão muito longe de
beneficiar razoavelmente com o seu ensino, como devem proceder os discípulos de
Cristo.
Paulo tem boas razões
para mencionar juntos, questiona-mentos e contendas de palavras, porque, pelo
primeiro termo, ele não quer dizer o tipo de questão que nasce de um moderado e
sóbrio desejo de aprender ou que contribui para aclarar explanações de pontos
úteis; mas, ao contrário, o tipo de questão que hoje é discutido nas escolas da
Sorbone, com o intuito de exibir habilidade intelectual. Ali, uma questão leva
a outra, porque não há fim para elas, quando todos se precipitam em sua
vaidade, procurando saber mais do que deveriam, e isso gera infindáveis
contendas. Assim como as densas nuvens, no tempo de calor, não se dissipam sem
trovoada, assim também essas escabrosas questões inevitavelmente prorrompem em
discussões sem fim.
Ele dá o nome de
[logomaquias— questões de palavras] às disputas contenciosas em torno de
palavras, quando devia ser em torno do que é real, as quais são, como comumente
se diz, sem conteúdo ou fundamento. Caso alguém investigue atentamente o tipo
de questões que ardentemente preocupam aos sofismas, descobrirá que dali nada
nasce que seja real, senão o que é forjado do nada. Em suma, o propósito de
Paulo era condenar todas as questões que nos envolvem em acirradas disputas
sobre assuntos dos quais nada resulta.
Dos quais procede
inveja. Ele mostra, à luz de seus resultados, como deveríamos evitar a
curiosidade ambiciosa; pois a ambição é a mãe da inveja. E sempre que a inveja
estiver no comando, ali também surgirá violência, confusões, contendas e os
demais males que Paulo enumera aqui.
O
apóstolo acrescenta que tais coisas procedem de homens de mente corrompida e
privados da verdade (v. 5). E cristalinamente óbvio que aqui
ele está censurando os sofistas que não se preocupavam com a edificação [da
Igreja] e convertiam a Palavra de Deus em trivialidade e numa fonte de
controvérsias engenhosas. Se o apóstolo apenas realçasse que, com isso, a
doutrina da salvação ficaria destituída de sua eficácia, tal coisa, por si só,
seria uma intolerável profanação; mas sua reprovação é muito mais pesada e
grave, pois ele mostra os males perniciosos e as pragas nocivas resultantes
disso. Desta passagem devemos aprender a detestar a sofistica como algo
inconcebivelmente nocivo à Igreja de Deus.
Supondo que a piedade é
fonte de lucro. O significado consiste em que a piedade é equivalente a lucro
ou é uma forma de produzir lucro, porque, para esses homens, todo o
cristianismo deve ser aquilatado pelos lucros que ele gera. E como se os
oráculos do Espírito Santo houvessem sido transmitidos não com outro propósito,
senão de servir à sua avareza; negociam com eles como.se fossem mercadoria à
venda. Paulo proíbe aos servos de Cristo qualquer gênero de transação com tais
homens. Ele não só proíbe a Timóteo de imitá-los, mas lhe diz que os evitasse
como se fossem peste maligna. Ainda que não se opusessem abertamente ao
evangelho, e o confessassem, não obstante a companhia deles era infecciosa.
Além disso, se a multidão nos visse com familiaridade com tais pessoas, haveria
o risco de que usassem nossa amizade para insinuar-nos em seu favor. Portanto,
devemos empenhar-nos ardentemente por levar as pessoas a entenderem que somos
completamente diferentes deles, e que nada temos em comum com eles.






