Introdução
ao Salmo 18
Todos nós sabemos por
quais dificuldades e por obstáculos quase intransponíveis Davi assumiu o reino.
Ainda ao tempo da morte de Saul ele era um fugitivo e, por assim dizer,
fora-da-lei, e exaustivamente passou sua vida em temor e em meio a infindas
ameaças e perigos de morte. Depois de Deus o ter, com sua própria mão, colocado
no trono real, ele foi imediatamente acossado por tumultos e insurreições por
parte de seus próprios súditos; e ante as facções hostis, sendo superiores a
ele em poder, às vezes chegava ao ponto de sentir-se completamente sucumbido.
Inimigos externos, em contrapartida, o tentaram severamente até à sua velhice.
A tais calamidades
jamais teria subrepujado não fora ele sempre socorrido pelo poder de Deus.
Havendo, pois, obtido muitas e notáveis vitórias, ele não canta, como os homens
sem religião costumam fazer, um cântico em sua própria honra, mas exalta e
magnifica a Deus como o Autor dessas vitórias, fazendo uso de um encadeamento
de termos notáveis e apropriados, e num estilo de inexcedível grandeza e
sublimidade. Este Salmo, pois, é o primeiro dentre aqueles em que Davi celebra,
em suaves melodias, a imensurável graça que Deus sempre demonstrou para com
ele, tanto ao introduzi-lo na posse do reino quanto a partir daí a sustentá-lo
em sua possessão. Ele também mostra que seu reinado era uma imagem e tipo do
reino de Cristo, com o fim de ensinar e assegurar aos fiéis que Cristo, a
despeito de todo o mundo e de toda a resistência que este sempre lhe faz, ele
seria, pelo tremendo e incompreensível poder do Pai, sempre vitorioso.
Ao
mestre de música, de Davi, servo de Jehovah, aquele que cantou a Jehovah as
palavras deste cântico no dia em que Jehovah o libertou da mão de seus inimigos
e da mão de Saul.
Temos que determinar
cuidadosamente o tempo específico em que este Salmo foi composto, como ele nos
mostra que Davi, quando seus negócios foram conduzidos ao estado de paz e
prosperidade, não se deixou intoxicar com extravagante regozijo como se dá com
os homens sem religião que, quando obtêm o livramento de suas calamidades,
descartam de suas mentes a lembrança dos benefícios divinos e se precipitam em
grosseiros e degradantes prazeres, ou erigem sua torre e obscurecem a glória de
Deus com sua soberba e vangloria desprovidas de conteúdo.
Davi, segundo o relato
da história sagrada [2 Sm 22], cantou este cântico ao Senhor quando já se
achava desgastado pela idade, e quando, ao ser libertado de todas as suas
tribulações, desfrutava de tranqüilidade. A inscrição aqui concorda com esse
relato e, à luz do que está declarado ali, concluímos que ela não foi imprópria
e incorretamente prefixada para este Salmo. Davi põe em relevo o tempo quando
ele era cantado, isto é, depois de Deus o ter libertado de todos os seus
inimigos, para nos mostrar que ele estava, então, em perfeita e pacífica posse
de seu reino, e que Deus o assistira não apenas uma vez, nem contra apenas um
gênero de inimigos; visto que seus conflitos eram de tempo em tempo renovados,
e o fim de uma guerra era o começo de outra; sim, muitos exércitos amiúde
insurgiam-se contra ele a um só tempo.
Desde a criação do
mundo, dificilmente encontraremos nele outro indivíduo a quem Deus haja
provado com tantas e com tão variadas aflições. Visto que Saul o havia
perseguido com mais crueldade e com maior ferocidade e determinação do que
todos os demais, seu nome, por essa conta, é aqui expressamente mencionado,
ainda que, na cláusula precedente, o salmista haja falado, em termos gerais, de
todos os seus inimigos. Saul não é expresso por último como se houvera sido um
de seus últimos inimigos, pois sua morte se dera cerca de trinta anos antes
desse tempo; e desde esse evento, Davi desbaratara muitos inimigos
estrangeiros, e também reprimira a rebelião de seu próprio filho Absalão. Mas,
persuadido de que era uma singular manifestação da graça de Deus em seu favor,
e eminentemente digno de ser lembrado o fato de que ele havia por tantos anos
escapado de incontáveis mortes, ou, melhor, que ao longo dos dias em que ele
vivera sob o reinado de Saul, Deus havia operado, por assim dizer, tantos
milagres em seu livramento, então ele com razão menciona e celebra em
particular seu livramento das mãos desse implacável inimigo.
Ao denominar-se de
servo de Deus, ele indubitavelmente pretendia testificar de sua vocação ao
ofício de rei, como se quisesse dizer: Não usurpei o reino temerariamente,
fazendo valer minha própria autoridade, mas simplesmente agi em obediência ao
oráculo celestial. Aliás, em meio às tantas tormentas que iria enfrentar, era
um apoio muitíssimo necessário estar bem certo em sua própria mente de nada ter
empreendido além do que Deus havia designado; ou, melhor, isso foi para ele um
céu pacífico e um refúgio seguro em meio a tantos tumultos e estranhas
calamidades.2 Não há nada mais miserável do que uma pessoa, em adversidade, que
entra em desespero por agir segundo o mero impulso de sua própria mente e não
em obediência à vocação divina.
Davi, pois, tinha
sobejas razões para desejar que se fizesse notório que não foi movido de
ambição que veio a tomar parte naqueles renhidos combates, os quais lhe foram
tão dolorosos e difíceis de suportar, e que não havia intentado nada ilícito,
nem usara de meios perversos, mas que sempre estivera em prontidão diante da
vontade de Deus, a qual lhe serviu de luz a guiá-lo em sua vereda. Este é o
ponto que nos é muitíssimo proveito sabermos, a fim de não esperarmos viver
totalmente isentos de dificuldade, ao seguirmos o chamado divino; ao contrário,
preparemo-nos para aquele doloroso e desagradável estado de luta em nossa
carne. Portanto, a designação, servo, nesta passagem, bem como em muitas
outras, se relaciona com seu ofício público; justamente como, quando os
profetas e apóstolos se denominam de servos de Deus, temos uma referência ao
seu caráter oficial. E como se tivesse dito: Não sou rei por minha própria
iniciativa, senão que fui escolhido por Deus para ocupar essa posição por
demais elevada. Ao mesmo tempo, devemos notar particularmente a humildade de
Davi, o qual, embora distinguido por tantas vitórias e sendo o conquistador de
tantas nações e possuidor de tão imensa dignidade e riquezas, não atribui a si
nenhuma outra honra senão a de Servo de Deus! Como se pretendesse demonstrar
que considerava mais dignificante ter realizado fielmente os deveres do ofício
com o qual Deus o investira do que possuir todas as honras e excelências do
mundo.






