O pragmatismo da "aborgagem amigável" rouba da igreja o seu papel profético.
Transforma-a em uma organização popular, que recruta seus membros através de
oferecer-lhes um ambiente de calor humano e amizade, no qual as pessoas comem,
bebem e são entretidas. A igreja acaba funcionando mais como um clube do que
como uma casa de adoração.
Isso não é exagero. Um
recente "best-seller" que advoga ideias pragmáticas de crescimento de
igreja incluiu esta sugestão:
Lembra-se como o bar da
esquina costumava ser o lugar onde os homens da vizinhança se reuniam para
assistir na TV os grandes eventos esportivos, tais como lutas e campeonatos
mundiais de box? Embora os tempos tenham mudado, o mesmo conceito pode ser
usado pela igreja para causar um grande impacto. A maioria delas possui um
grande auditório que poderia ser utilizado para reuniões especiais ao redor dos
grandes eventos da mídia — esportes, debates políticos, entretenimento especiais
e coisas semelhantes.
O cenário é construído
em torno de pressuposições que são claramente antibíblicas. A igreja não é um
clube à busca de novos sócios. Não é o barzinho do bairro onde a vizinhança se
reúne. Não é um grêmio estudantil à procura de calouros. Não é um centro
comunitário onde se realizam as festas. Não é um clube de campo para as massas.
Não é um comitê eleitoral onde os problemas da comunidade são discutidos. Não é
uma corte judicial para corrigir as injustiças sociais. Não é um fórum aberto,
ou uma convenção política, ou até mesmo uma cruzada evangelístíca.
A igreja é o corpo de
Cristo (1 Co 12.27), e as reuniões da igreja são para adoração e instrução. O
único alvo legítimo da igreja é "o aperfeiçoamento dos santos para o
desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo" (Ef 4.12)
— crescimento vital, não apenas expansão numérica.
A ideia de que as
reuniões de igreja deveriam ser usadas para encantar ou atrair os não-cristãos
é um conceito relativamente novo. Nas Escrituras, não há qualquer sugestão quanto
a isso; aliás, o apóstolo Paulo falou da presença de incrédulos na igreja como
um evento excepcional (1 Co 14.23). Hebreus 10.24,25 indica que os cultos da
igreja são para o benefício dos crentes e não dos incrédulos:
"Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às
boas obras. Não deixemos de congregar-nos".
Atos 2.42 mostra-nos o
padrão que a igreja primitiva seguia, quando se reunia: "E perseveravam na
doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações". Observe
que adorar a Deus e encorajar os irmãos eram as prioridades da igreja
primitiva. A igreja se reunia para adoração e edificação e se dispersava para
evangelizar o mundo.
Nosso Senhor
comissionou seus discípulos para evangelizarem da seguinte forma: "Ide,
portanto, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28.19). Cristo deixou
evidente que a igreja não deve esperar que o mundo venha ou que deve convidá-lo
a vir às suas reuniões; Ele mostrou com clareza que a igreja deve ir ao mundo.
É a responsabilidade de todo o crente. Temo que uma abordagem que enfatiza a
apresentação do evangelho de uma forma facilitada dentro da igreja, exime o
crente de sua obrigação pessoal de ser uma luz no mundo (Mt 5.16).
Novamente ressaltamos
que a proclamação da Palavra de Deus deve ser central na igreja (1 Co 1.23;
9.16; 2 Co 4.5; 1 Tm 6.2; 2 Tm 4.2). "Quer seja oportuno, quer não" é
tarefa dos ministros de Deus corrigir, repreender, exortar com toda a
longanimidade e doutrina (2 Tm 4.2). O pastor que coloca o entretenimento acima
da pregação bíblica e vigorosa abdica da responsabilidade primária de sua
função, ou seja, apegar-se "à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de
modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os
que o contradizem" (Tt 1.9).
A estratégia da igreja
nunca foi de apelar ao mundo utilizando os termos do mundo. Não se espera que
as igrejas estejam a competir pelo consumidor no mesmo nível que uma cerveja
famosa ou uma grande rede de televisão. Não há como estimularmos crescimento
genuíno via persuasão fascinante ou técnicas engenhosas. É o Senhor quem
acrescenta almas à igreja (At 2.47). Metodologias humanas não podem acelerar ou
suplantar o processo divino. Qualquer crescimento adicional que venha a
produzir não passará de uma pobre e infrutífera imitação.
Crescimento artificial
ou não-natural, no reino biológico, pode causar deformação — ou pior, câncer.
Crescimento sintético, no reino espiritual, é igualmente doentio.






