O que a soberania de
Deus tem a ver com o assunto deste livro? Tudo. A razão específica pela qual
muitas igrejas contemporâneas abraçam a metodologia pragmática é por que lhes
falta qualquer noção da soberania de Deus na salvação dos eleitos. Perderam a confiança
no poder de Deus em usar a pregação do evangelho a fim de alcançar incrédulos
endurecidos de coração. É por isso que abordam o evangelismo como uma questão
de marketing e moldam a sua metodologia de acordo com este.
Há mais de trinta anos,
J. I. Packer escreveu:
Se esquecermos que, ao
ser pregado o evangelho, é prerrogativa de Deus conceder resultados,
começaremos a pensar que é nossa responsabilidade assegurá-los. E, se
esquecermos que somente Deus pode conceder a fé, começaremos a pensar que, em última
análise, o fazer convertidos depende não de Deus, mas de nós, e que o fator
decisivo é a maneira pela qual evangelizamos. Essa linha de raciocínio, seguida
com constância, acabará nos afastando do caminho.
Vamos analisar esta
questão. Se julgássemos ser nossa tarefa, e não de Cristo, produzir convertidos
— evangelizar, não apenas fielmente, mas de forma bem-sucedida — nossa forma de
abordar o evangelismo se tornaria pragmática e calculista. Concluiríamos que
nosso equipamento básico, para a evangelização pessoal e pública, deveria ter
uma característica dupla. Precisaríamos não apenas de uma boa compreensão do
significado e da aplicação do evangelho, mas também de uma técnica irresistível
para induzir os resultados. Portanto, deveríamos considerar como
responsabilidade nossa tentar desenvolver tal técnica. E deveríamos avaliar
todo o evangelismo, nosso e dos outros, pelo critério não apenas da mensagem
pregada, mas também dos resultados visíveis. Se nossos próprios esforços não
estivessem produzindo frutos, precisaríamos concluir que nossa técnica ainda
necessitaria de aprimoramento. E, se estivesse produzindo frutos, concluiríamos
que isso justificaria a técnica que estivéssemos usando. Deveríamos considerar
o evangelismo como uma atividade envolvendo uma batalha de vontades, entre nós
e aqueles a quem estamos pregando, uma batalha onde a vitória dependeria de
lançarmos uma carga de artilharia pesada com efeitos calculados.
Packer estava nos
alertando exatamente contra o tipo de pensamento que deu origem à igreja
"amigável" e sua filosofia pragmática norteada por marketing.
Na verdade, a forma
pragmática de abordar o ministério não é uma coisa nova. Tem raízes profundas
na história da igreja norte-americana. A maior contribuição para isso não foi
feita por Harry Emerson Fosdick, Norman Vincent Peale, Robert Schuller ou
qualquer outro defensor contemporâneo do pragmatismo. Eles e outros seguiram a
influência de outro homem, Charles G. Finney, um evangelista da primeira metade
do século XIX.
Charles Finney errou ao
rejeitar o ponto de vista ortodoxo da eleição divina, como sendo "um exercício
de soberania arbitrária". Rejeitou a doutrina da conversão como uma obra
inteiramente de Deus. Em vez disso, ensinou que a fé é fundamentalmente uma
decisão humana e que a salvação é assegurada pela ação do próprio pecador em
voltar-se para Deus.
Embora o fundamental
erro teológico de Finney tenha sido a rejeição da soberania de Deus, isso
conduziu, inevitavelmente, a outros erros em seus ensinos. Ele concluiu que as
pessoas são pecadoras por escolha, não por natureza. Finney acreditava que o
propósito do evangelismo era convencer as pessoas a escolherem
diferenciadamente — ou, como muitos dizem hoje, "fazerem uma decisão por
Cristo". Portanto, a escolha do pecador, não a de Deus, tornou-se o fator
determinante na conversão. O meio de sair das trevas para a luz era, na opinião
de Finney, nada mais do que um simples ato da vontade humana. A tarefa do
pregador consistia em assegurar uma decisão de fé, usando quaisquer meios que
se mostrassem úteis. Finney introduziu "novos procedimentos"
(metodologia não-convencional) em seu ministério, frequentemente utilizando
técnicas cujo único propósito era comover e despertar o interesse do apático
frequentador de igreja. Ele estava disposto a implementar praticamente
quaisquer meios que extraíssem de seus auditórios a resposta desejada.
Desta forma, a maneira
de Charles Finney abordar o ministério prenunciou e lançou os alicerces para o
pragmatismo moderno. Seus ensinos e métodos têm sido responsáveis pelas grandes
mudanças ocorridas no evangelismo norte-americano deste último século e meio.
Finney poderia ser chamado de "o pai do pragmatismo evangélico". O
ministério moderno, norteado por marketing, é apenas uma culminação do movimento
que Finney iniciou . Seria de se esperar que os que rejeitam a doutrina bíblica
da soberania de Deus fossem seguidores de Finney, porém não esperaríamos que
pudessem segui-lo os que afirmam sustentar tal doutrina. O pragmatismo destes torna-se
uma negação de sua teologia, uma espécie de esquizofrenia espiritual.






