Assim, como a memória
do iníquo promoverá eternamente o tormento dele, ao examinar os prazeres que
desfrutava, o pecado cometido, a graça recusada, Cristo negligenciado e o tempo
perdido, também a memória dos santos proporcionará para sempre sua alegria.
Mas a alegria plena,
íntima e doce é aquela das emoções, do amor e da alegria; e ela é íntima, pois
o amor é a essência da alma, e o amor a essência de Deus. "Deus é amor.
Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele" (1Jo
4.16). Agora a pobre alma clama, ó, que eu possa amar mais a Cristo! Mas--ai de
mim!--não consigo; sim, mas você não pode fazer nada a não ser escolher amar ao
Senhor; eu quase disse, abstenha-se disso se puder. Bem, sua salvação não é
aperfeiçoada, nem suas misericórdias compradas; contudo, desista; mas quando a
lápide for lançada, você, aos berros, implorará: "Graça, graça!".
Agora, sua santificação é imperfeita, e seu perdão e justificação não são tão
completos como o serão em nosso descanso eterno; agora você não conhece aquilo
que lhe traz alegria e, portanto, ama o que é menor; mas quando você sabe que
muito lhe foi perdoado e muito lhe foi concedido, você amará ainda mais.
Cristãos, o seu amor
não se agita quando se lembram de todas as experiências e as manifestações do
amor do Senhor, quando olham em retrospectiva para a vida de misericórdias? A
gentileza não os faz derreter, e a luz da divina bondade não aquece o coração
enregelado de vocês? O que ele fará naquele momento em que você viverá imerso
em amor e tiver tudo nele, que é tudo? Ó deleites do amor, desse amor; a
alegria que o coração encontra nele; a satisfação que ele nos traz junto com
ele! Certamente, o amor é trabalho e retribuição!
E se isso fosse tudo,
que grande favor Deus nos prestaria ao permitir que o amemos; que ele se digne
a ser abraçado por braços que já abraçaram o pecado e a ganância antes de
abraçá-lo. Ele retribui amor por amor; não mil vezes mais, pois, por mais
perfeitos que sejamos, não podemos alcançar a medida de seu amor. Cristão, você
transbordará de amor; mesmo que ame o tanto que lhe for possível, deverá ser
dez mil vezes mais amado. Você acha que não conseguiria amá-lo em demasia?
Como! Amar mais que o Amor? Os braços do Filho de Deus não estavam sobre a
cruz, e seu lado não foi perfurado com a lança, e esse coração e esses braços
não estarão abertos para você na glória? Ele não começou a amá-lo antes que
pudesse amá-lo e não continuará a amá-lo agora? Ele não amou você, um inimigo;
você, um pecador; você que, até mesmo, despreza a si mesmo, e o comprou como
seu quando você o repudiou? E ele não amará imensamente você, um filho; você,
um santo perfeito; você, que retribui amor com amor? Você está habituado a
questionar seu amor? Duvide deste amor agora, se puder. Aos seus olhos, ser
amado por Deus é algo pequeno? Cristão, creia nisso e pense sobre isso. Você
será eternamente abraçado nos braços desse amor, que sempre foi eterno e durará
por toda a eternidade; este amor que trouxe o Filho de Deus do céu para a
terra, da terra para a cruz, da cruz para a sepultura, da sepultura para a
glória; este amor que ficou cansado e faminto, e que foi tentado, escarnecido,
açoitado, esbofeteado, humilhado, crucificado e furado com uma lança; esse amor
que jejuou, orou, ensinou, curou, chorou, suou, sangrou, morreu --, esse amor o
abraçará eternamente. Quando o amor perfeito e criado e o amor mais perfeito e
incriado se encontrarem, ó abençoado encontro! Cristo é a pedra preciosa
poderosa, atraente e eficaz que atrai para si todos que são semelhantes a ele.
Você agora não tem mais de lidar com criaturas inconstantes, mas apenas com ele
"em que não há mudança, nem sombra de variação" (Tg 1.17; ARC), o
Deus imutável. O que devemos dizer a essas coisas? O amor infinito certamente é
um mistério para a capacidade finita. Não é de admirar que os anjos desejem
espreitar esse mistério; e a responsabilidade dos santos aqui é procurar
descobrir a altura, a largura e a profundidade desse amor, embora ele
ultrapasse qualquer entendimento. E o descanso dos santos é esse deleitar-se em
Deus por meio do amor.
O sentimento de alegria
não tem a menor participação nesse deleitar-se. É a isso que todo o descanso
nos leva e a isso que se resume; exatamente a complacência que os abençoados
sentem ao ver, ao conhecer e ao amar a Deus e também ao ser o amado do Senhor.
Essa é a "pedra branca com um novo nome nela inscrito, conhecido apenas
por aquele que o recebe" (Ap 2.17); e se há alguma alegria que o
estrangeiro desconhece, então, certamente, e acima de tudo, é essa. Todos os
caminhos da misericórdia de Cristo levam às alegrias dos santos e ali findam.
Ele chorou, entristeceu-se e sofreu para que eles pudessem se regozijar; ele
enviou o Espírito Santo para ser o Consolador deles; ele multiplica suas
promessas, revela a felicidade futura deles para que a alegria deles possa ser
plena; as misericórdias do Senhor para com eles sobejam; ele os faz repousar em
verdes pastagens e os conduz a águas tranqüilas; sim, o Senhor abre as fontes
de água viva para que a alegria deles seja plena; para que não mais tenham sede
e para que a vida eterna brote neles. Sim, ele permitiu que sofressem para que
pudessem regozijar-se; e os purificou para que pudesse lhes dar o descanso; e
os fez beber de um ribeiro à beira do caminho para que pudessem erguer a
cabeça.
Ó quão grande alegria
será essa; em que a alma foi perfeitamente preparada para a alegria, e a
alegria preparada por Cristo para a alma, e o regozijo será eternamente nosso
trabalho e nossa responsabilidade! Sua pobre alma que ora por alegria, que
espera pela alegria, que reclama em razão da falta de alegria, que anseia pela
alegria - oras, naquele momento, você terá a alegria plena, tanta que não poderá
abraçá-la, e muito mais que foi capaz de imaginar, e seu coração de desejar. E,
nesse meio tempo, ande cuidadosamente, esteja sempre atento e, depois, deixe
que Deus meça seu tempo e sua medida de alegria. É possível que o Senhor os
guarde até que você não tenha mais necessidade deles: é melhor perder o
conforto que a segurança.
E não apenas a sua
alegria; é alegria mútua, como também amor mútuo. Houve tal alegria no céu
quando você se converteu, e não haverá nenhuma em sua glorificação? Os anjos
não lhe darão as boas-vindas e o saudarão por sua chegada segura? Sim, essa é a
alegria de Jesus Cristo; pois agora, quando alcançarmos nossa alegria, ele tem
o fim da obra que realizou, ao sofrer e morrer; quando ele for
"glorificado em seus santos e admirado em todos os que creram" (2Ts
1.10). Somos sua semente e o fruto do trabalho de sua alma e, quando ele nos
vir, ficará satisfeito. Essa é a colheita de Cristo, quando ele ceifará a
colheita de seu trabalho; e quando ele vir que não foi em vão, isso não o fará
se arrepender de seus sofrimentos, pois ele se alegrará com sua herança resgatada,
e seu povo se alegrará nele.
Sim, o Pai também
acrescenta alegria a nossa alegria. Da mesma forma que entristecemos seu
Espírito e o cansamos com nossas iniqüidades, ele também se alegra com nosso
bem. Ó como ele aqui observa prontamente o retorno do filho pródigo, mesmo a
grande distância; como ele corre para encontrá-lo; e a doce compaixão com que o
abraça ternamente e o beija; e veste-o com a melhor veste, e coloca um anel em
seu dedo e calçados em seus pés, e escolhe um novilho gordo para que possam
comer carne e celebrar! Esse realmente é um encontro afortunado; mas não é nada
em comparação com os abraços e a alegria do último e grandioso encontro.
Sim, e ainda mais. Deus
ama e se alegra mutuamente, e ele também faz desse nosso descanso o seu descanso.
Ele não instituiu o sábado como descanso dos seis dias de trabalho quando viu
que tudo que fizera ficou bom, e muito bom? E que eterno sabatismo teremos
naquele momento em que toda a obra de redenção, de santificação, de preservação
e de glorificação estiver completa, e sua obra estiver mais perfeita que nunca,
e realmente ficar muito boa! Assim, afirma-se que o Senhor se regozija e se
deleita com seu povo. Ó, cristãos, escrevam estas palavras em letras de ouro:
"O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se
deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com
júbilo" (Sf 3.17; ARA).






