Em parte, fostes feitos
espetáculo, tanto por vitupérios (Hb 10.33-35). Assim vemos que aqueles a quem
o escritor se dirige são aqueles cuja fé fora testada por tribulações não
triviais, e todavia não cessa de exortá-los a maiores esforços.
Que ninguém se engane
com ilusória gabolice, crendo que já alcançou o alvo, ou que não tem nenhuma
necessidade de incentivos por parte de outrem. Ele diz que haviam se tornado
espetáculo tanto por vitupérios como por tribulações, como se houvessem sido exibidos
em espetáculo público. Daqui concluímos que as perseguições que suportaram eram
especificamente notáveis. É preciso que se note cuidadosamente a última
cláusula, onde o escritor diz que foram companheiros de outros crentes em suas
perseguições. Porque, visto que a causa pela qual todos os crentes lutam é a
causa de Cristo, e a qual é comum a todos eles, sempre que um deles sofre,
todos os demais também pessoalmente sofrem com ele, e isso deve ser praticado
universalmente, salvo se desejamos separar-nos do próprio Cristo.
Aceitastes com
alegria... Não há dúvida de que, como eram pessoas sujeitas aos sentimentos
humanos, a perda de seus bens certamente lhes trouxera sofrimento; sua
tristeza, porém, foi de tal natureza que não os privou da alegria de que fala o
apóstolo. A pobreza está inclusa entre as desvantagens da vida, e a privação de
seus bens, considerada em si mesma, lhes trouxe angústias; mas quando olhavam
um pouco mais alto, encontravam motivo de alegria, a qual suavizava qualquer
dor que porventura sentissem. E conveniente que nossos sentimentos sejam,
assim, conduzidos deste mundo pela antecipação do galardão celestial. Não digo
outra coisa senão o que todos os crentes têm experimentado. Incontestavelmente,
aceitamos com boa vontade tudo aquilo sobre o quê estamos persuadidos
contribuirá para nossa salvação, e os filhos de Deus, indubitavelmente, possuem
este sentimento sobre os conflitos que suportam para a glória de Cristo. De
modo que as emoções de nossa carne nunca são tão fortes ao ponto de
mergulhá-los em sofrimento, que também não sejam dominados pela alegria
espiritual, ao elevar ao céu suas mentes.
Esse é o significado do
que se segue: sabendo (diz ele) que vós mesmos tendes uma possessão melhor e
permanente. Aceitavam com alegria o espólio de seus bens, não porque era-lhes
agradável verem-se saqueados, mas porque suas mentes buscavam o galardão
prometido, o que os fazia esquecer facilmente o sofrimento ocasionado pelo seu
constante senso de desgraça. Aliás, sempre que a percepção dos bens celestiais
é forte, o mundo, com todas as suas seduções, não é tão atrativo de propiciar
que a pobreza e a vergonha mergulhem completamente nossas mentes em profundo
sofrimento. Se desejamos, pois, suportar tudo por amor a Cristo, com paciência
e equanimidade, habituemo-nos a freqüente meditação sobre aquela felicidade, em
comparação à qual todos os bens deste mundo não passam de refugo. Não devemos
passar por alto as palavras sabendo que vós mesmos tendes. A não ser que alguém
seja convencido de que a herança que Deus promete a seus filhos também lhe
pertence, todo o seu conhecimento será sem vida.
Não lanceis fora, pois, a vossa
ousadia... O autor mostra que o que
especialmente nos injeta força para a perseverança é o apego à nossa fé;
porque, quando deixamos esse fato escapar-nos, também nos privamos do galardão
prometido. Disso se faz evidente que esse galardão é a base do santo e piedoso
viver. Ao usar o termo galardão [= recompensa], o autor não está a prejudicar
em nada a promessa da salvação com base na graça. Os crentes têm consciência de
que seu labor no Senhor não é em vão, de tal maneira que sua confiança é posta
unicamente na misericórdia divina. Nesta conexão, tem-se dito amiúde que a
idéia de galardão não é incompatível com a imputação gratuita da justiça.






