Em primeiro lugar, o
que é fé? Vamos aclarar a questão. A idéia popular a respeito é que se trata de
um certo otimismo obstinado: a esperança tenazmente assegurada, face à
adversidade, de que o universo é fundamentalmente amigável e de que as coisas
podem melhorar. Diz a Sra. A. à Sra. B.: "Você precisa ter fé". Mas,
tudo quanto ela quer dizer é: "Coragem, não desanime se as coisas vão
mal". Isso, porém, é apenas a forma da fé, sem seu conteúdo vital. Uma
atitude confiante que seja divorciada de um objeto que corresponda a essa
confiança não é a fé no sentido bíblico.
Em contraste, a noção
histórica da Igreja Católica Romana acerca da fé tem sido de mera confiança e
docilidade. Para Roma, a fé é apenas a crença naquilo que a Igreja Romana
ensina. De fato, Roma distingue entre fé "explícita" (a crença em
algo que foi compreendido) e fé "implícita" (o assentimento
incompreensível de qualquer coisa, seja o que for que a Igreja Romana
assevere). A Igreja Romana diz que somente esse último tipo de fé, que na realidade
é apenas um voto de confiança no ensino da igreja e que pode manifestar-se lado
a lado com a total ignorância da doutrina cristã, é requerido dos leigos para a
sua salvação! E evidente que a fé, na concepção da Igreja Romana, quando muito,
é apenas o conteúdo da fé, sem sua forma apropriada; pois conhecimento, pouco
ou muito, divorciado de qualquer correspondente exercício de confiança, não é a
fé, no total sentido bíblico. O exercício da confiança é precisamente o que se
faz ausente na análise da Igreja Romana. Segundo Roma, fé consiste em confiar
nos ensinos da igreja. Mas, de acordo com a Bíblia, fé significa confiar em
Cristo como Salvador, e isso é algo totalmente diferente.
Na Bíblia, ter fé ou
crer (no grego, o substantivo é pistis; o verbo é pisteuõ) envolve tanto
confiança como entrega da vida. De várias maneiras o objeto da fé é descrito
como sendo Deus (Rm 4.24; 1 Pe 1.21), Cristo (Rm 3.22, 26), as promessas de
Deus (Rm 4.20), o caráter de Jesus como Messias e Salvador (1 Jo 5.1), a
realidade da ressurreição (Rm 10.9), o evangelho (Mc 1.15) e o testemunho dos
apóstolos (2 Ts 1.10).
A natureza da fé,
porém, é invariável. É uma apreensão responsiva de Deus e de sua verdade
salvadora; é um reconhecimento da resposta dada por Deus à necessidade humana,
que doutro modo jamais seria atendida; é a compreensão de que o evangelho é a
mensagem pessoal de Deus, bem como o convite pessoal de Cristo ao seu ouvinte;
é o mover-se confiante da alma em direção ao Deus vivo e ao seu Filho.
Isso se torna claro através
da mais comum das construções gramaticais no Novo Testamento grego — o verbo
pisteuo com a preposição eis, ou, ocasionalmente, com a preposição epi, com o
objeto direto no acusativo — cujo significado é "confiar para dentro
de" ou "confiar sobre". Esta construção jamais aparece no grego
clássico e raramente na Septuaginta. Trata-se de uma nova expressão idiomática,
desenvolvida no Novo Testamento, para expressar a idéia de um movimento de
confiança que se dirige ao objeto da confiança e que descansa no mesmo.
Esse é o conceito
bíblico e cristão de fé. Os reformadores frisaram esse conceito, afirmando que
a fé não é apenas fides (crença), mas também fiducia (confiança). Nas palavras
do bispo Ryle:
A fé que salva é a mão
da alma. O pecador é como um homem que está se afogando, prestes a afundar de
vez. Ele vê o Senhor Jesus Cristo oferecendo-lhe ajuda. Ele a aceita e é salvo.
Isso é fé (Hb 6.18).
A fé que salva é o olho
da alma. O pecador é como um israelita picado por uma serpente venenosa no
deserto e que está à morte. O Senhor Jesus lhe é oferecido como a serpente de
bronze, levantado para sua cura. O pecador olha para Ele e é curado. Isso é fé
(Jo3.14, 15).
A fé que salva é a boca
da alma. O pecador está definhando por falta de comida e sofrendo de uma doença
dolorosa. O Senhor Jesus lhe é apresentado como o pão da vida e o remédio
universal. Ele O recebe e fica bem de saúde e forte. Isso é fé (Jo. 6.35).
A fé que salva é o pé
da alma. O pecador é perseguido por um inimigo mortal e teme ser vencido. O
Senhor Jesus lhe é apre¬sentado como uma torre forte, um refúgio e um
esconderijo. O pecador corre para Ele e fica em segurança. Isso é fé (Pv
18.10)". {Old Paths — Caminhos Antigos — pp. 228 e 229).
Por todo o Novo
Testamento, de fato, esse é o conceito normal de fé. As únicas exceções são as
seguintes:
1. Algumas vezes, "fé" exprime o
conjunto das verdades em que cremos (Jd 3 e 1 Tm 4.1, 6, etc).
2. Algumas vezes, "fé" significa um
mais estrito exercício de confiança, que opera milagres (Mt 17.20, 21; 1 Co
13.2). Mesmo nos dias do Novo Testamento, porém, a fé salvadora nem sempre era acompanhada
pela "fé que opera milagres" (cf. 1 Co 12.9) e vice-versa (cf. Mt
7.22, 23).
3. Em Tiago 2.14-26, "fé" e
"crer" denotam mero assentimento intelectual à verdade, sem a
correspondente resposta de uma vida de obediência confiante. Mas, parece que
Tiago estava simplesmente imitando o uso da palavra "fé" daqueles a
quem procurava corrigir (cf. v. 14), e não precisamos supor que ele normalmente
a usasse em um sentido tão limitado (por exemplo, a sua alusão à fé, no verso
5, cla¬amente envolve um sentido muito mais amplo).






