Quem nos separará do
amor de Cristo? (Rm 8.35a) "Aqui nós estamos escalando uma enorme
escadaria", e esta última questão é o degrau mais alto. Ao atingi-lo, o
próprio Paulo faz agora aquilo que nós vínhamos tentando fazer com relação a
suas outras perguntas. Primeiro ele indaga o que irá separar-nos do amor de
Cristo e depois olha em volta, em busca de uma resposta. A seguir apresenta uma
lista, uma espécie de amostragem, de adversidades e adversários que poderiam
ser considerados como algo capaz de interpor-se entre nós e o amor de Cristo.
Ele menciona sete possibilidades (35b): começa com tribulação (thlipsis),
angústia (stenochoria) e perseguição (diõgmos), que juntos parecem denotar as
pressões e aflições resultantes de um mundo ímpio e hostil. Depois cita fome,
ou nudez, ou seja, a falta de comida ou vestimenta adequada. Já que Jesus, no
Sermão do Monte, prometeu estas coisas aos filhos do Pai celeste, não
poderíamos concluir que a ausência delas significa que ele na verdade não se importa
conosco?
Paulo conclui sua lista
com perigo, ou espada, provavelmente uma referência ao risco de vida, por um
lado, e à experiência da morte, por outro, seja "espada" "o
golpe final da espada do bandido ou do soldado inimigo ou do executor". A
disposição para o martírio é certamente o teste definitivo da fé e da
fidelidade cristã. Para reforçar isso, o apóstolo cita um salmo que descreve a
perseguição de Israel pelas nações. O sofrimento deles não era em virtude de
haverem esquecido Javé ou se voltado para um deus estranho. Pelo contrário,
estavam sofrendo por amor a Javé, justamente por terem sido fiéis a ele:
Mas, por amor de ti,
somos entregues à morte continuamente, somos considerados como ovelhas para o
matadouro.
Mas então, o que dizer
destas sete aflições, para não falar de tantas outras? Afinal, a lista poderia
ser muitíssimo mais comprida! E claro que são sofrimentos reais —
desagradáveis, aviltantes, dolorosos, difíceis de suportar e um desafio à fé. E
Paulo sabia do que estava falando, pois ele mesmo havia experimentado todos
eles, e piores ainda. É provável que os cristãos romanos também estivessem
vivendo provações similares. Com efeito, alguns deles haveriam de passar por
isso poucos anos depois, ao serem queimados como tochas vivas para o sádico
entretenimento do imperador Nero. Aqueles que, dentre nós, nunca tiveram de
experimentar sofrimentos físicos por causa de Cristo talvez devessem ler os
versículos 35-39 deste capítulo de Romanos junto com os versículos 35-39 de
Hebreus 11; ali se encontra uma lista de pessoas anônimas que foram torturadas,
ridicularizadas, açoitadas, acorrentadas, apedrejadas e até serradas ao meio
por causa de sua fé. Diante de tal heroísmo, nenhuma demonstração de
volubilidade ou complacência é capaz de subsistir.
Mas será que o
sofrimento, a miséria e a perda podem separar de Cristo o seu povo? Não! Pelo
contrário, longe de afastar-nos dele, em todas estas coisas (mesmo enquanto as
estamos suportando) Paulo ousa afirmar que somos mais que vencedores
(hypernikõmen). Pois nós não apenas as suportamos com firmeza e coragem como
também triunfamos sobre elas, e assim "estamos
ganhando uma vitória gloriosíssima" (BAGD) por meio daquele que nos amou
(37). Esta segunda referência ao amor de Cristo é muito importante, e o
tempo aoristo demonstra que é uma alusão à cruz. Pelo que parece, Paulo está
dizendo que, já que Cristo provou seu amor por nós com os seus sofrimentos,
também os nossos sofrimentos não podem de maneira alguma separar-nos do seu
amor. No contexto, que iniciou com uma referência ao fato de nós participarmos
dos sofrimentos de Cristo
(17), eles
"deveriam ser uma prova da nossa união com o Crucificado, não um motivo para
duvidarmos de seu amor".
Chegamos ao clímax do
argumento de Paulo. Ele começou com sabemos (28); agora termina com um tom mais
pessoal, ao dizer que estou convencido. O uso deliberado que ele faz da expressão
verhalpepeismai, que significa "fui convencido e permaneço
convencido", denota a sua convicção firme, consciente e irremovível. Antes
ele perguntou se haveria alguma coisa capaz de separar-nos do amor de Cristo
(35-36); agora ressalta que nada nem ninguém jamais o fará (37-39). Então
seleciona dez itens que, segundo alguns, teriam o poder suficiente para estabelecer
uma barreira entre nós e Cristo; ele os menciona de dois a dois, deixando
apenas os dois últimos isolados um do outro.
A expressão nem morte
nem vida é, presumivelmente, uma alusão à crise da morte e às calamidades da
vida. Já nem anjos nem demônios é mais discutível. Demônios é uma tradução de archai,
que em outras passagens é uma referência clara às "forças espirituais do
mal". Era de se esperar, portanto, que o oposto, anjos, fosse uma
referência ao bem. Mas como é possível imaginar que anjos não caídos ameacem o
povo de Deus? Consequentemente, é provável que esta parelha seja mais
indefinida, significando simplesmente uma inclusão de todos os agentes cósmicos
e sobre-humanos, sejam bons ou maus. Já que Cristo triunfou sobre todos eles e,
por isso, estão "sujeitos a ele", é certo que eles não podem nos
fazer mal algum.
Os dois próximos pares,
expressos em linguagem moderna, têm a ver com "tempo" (nem o presente
nem o futuro) e "espaço" (nem altura nem profundidade), se bem que
entre estas duas parelhas haja uma referência a quaisquer poderes; quem sabe
"as forças do universo". Algumas destas palavras, no entanto, eram
termos técnicos usados para denominar "as forças astrológicas por meio das
quais (conforme acreditavam muitos do mundo helênico) o destino da humanidade
era controlado". Por outro lado, pode ser que a linguagem de Paulo fosse
mais retórica do que técnica, pois ele afirma, à semelhança do Salmo 139.8, que
"nem a altura mais sublime, nem a profundidade mais profunda", nem os
céus, nem a terra, nem o inferno, nada pode separar-nos do amor de Cristo.
Concluindo, ele diz que nem qualquer outra coisa na criação, como se quisesse
certificar-se de que a sua lista é suficientemente abrangente e que nada foi
deixado de fora. Tudo o que existe na criação está sob o controle de Deus
Criador e do Senhor Jesus Cristo. É por isso que nada será capaz de nos separar
do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor (39b).






