Os cristãos muitas
vezes comentam o quanto ficaram "chocados" por terem observado este
ou aquele comportamento. Nós nunca deveríamos hesitar em denunciar algo quando
está errado. Mas como podemos ficar "chocados" ou surpresos com os
pecados dos outros, se nós mesmos somos igualmente corruptos aos olhos de Deus?
Se realmente entendemos o quanto todos nós somos pecaminosos aos olhos de Deus,
então estaremos em condições de compreender que estamos no mesmo nível que o
resto das pessoas. Do ponto de vista da nossa natureza pecaminosa, estamos
todos reduzidos às mesmas proporções.
Paulo fez desta questão
da pecaminosidade humana algo pessoal, incluindo-se na discussão. Ele não
estava dizendo "Serão os judeus melhores que os gentios?" Ele estava
dizendo "Será que somos melhores, do que eles?" (3.9). Ele se
identifica a si mesmo com os seus companheiros judeus. "Seria eu, seríamos
nós melhores do que eles?" pergunta ele. E a resposta é: "Não. Nós,
inclusive eu, não somos melhores do que eles".
A citação que Paulo faz
do Antigo Testamento certamente teria arrasado os seus leitores judeus - e, por
extensão, também os leitores cristãos de hoje. Como alguém pode sentir que está
em numa posição confortável diante do Deus santo, só pelo fato de ter uma
Bíblia, se a Bíblia mesmo diz que ninguém é justo? Todo aquele que tentar se
autojustificar acabará levando só pedradas depois do versículo 12. Ninguém está
a salvo só porque se escondeu debaixo das asas protetoras do Judaísmo - ninguém
está a salvo só por estar debaixo das mesmas asas do Cristianismo. Ninguém é
justo, "nem um sequer".
Será que isto significa
que estamos todos além da esperança? Se todos somos assim tão moralmente
corruptos aos olhos de Deus, será que resta alguma esperança para nós?
Lembre-se de que neste ponto, em sua carta aos Romanos, Paulo ainda está
pregando "a primeira metade do evangelho"; ele continua tentando
.mostrar que todas as pessoas necessitam de salvação. Não se esqueça do
pressuposto disso tudo: "não me envergonho do evangelho, porque é o poder
de Deus para a salvação" (1.16).
"Mas por que eu
preciso de salvação?"
"Porque você está
sob a ira de Deus."
"E por que eu
estou sob ira de Deus?"
Paulo está respondendo
a esta questão na primeira metade do seu comentário ao evangelho (1.18—3.20), e
ele prossegue em 3.13, traçando um quadro assustador da raça humana.
A garganta deles é
sepulcro aberto; com a língua urdem engano, veneno de víbora está nos seus
lábios, a boca eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés
velozes para derramar sangue, nos seus caminhos há destruição e miséria;
desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.
(3.13-18)
Que terrível quadro
Paulo está apresentando da raça humana dos seus próprios dias. E poderíamos supor
que a humanidade de hoje esteja de alguma maneira melhor? Será que a humanidade
"progrediu" em termos de moralidade - como tantos querem nos fazer
acreditar? A Palavra de Deus certamente diria "Não, nem um sequer!"
Podemos até estar progredindo em certo sentido, mas não quanto à nossa postura
moral diante de Deus. Não devemos ousar tratar o assustador quadro de Paulo
como se fosse uma abstração qualquer. É assim que nós, hu¬manos, somos, e é
assim que um Deus santo nos vê.
Ora, sabemos que tudo o
que a lei diz aos que vivem na lei o diz, para que se cale toda boca, e todo o
mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante
dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado. (3.19-20)
Paulo está agora
partindo para a conclusão do seu discurso con¬tra os judeus; mas, da mesma
forma como ele tem feito desde o versículo 9, ele vai progressivamente
estendendo sua análise para incluir toda a humanidade. Uma vez que nem um
sequer, não importa se judeu ou gentio, está guardando a lei de forma perfeita,
a única conclusão possível é que toda a humanidade apresenta-se culpada diante
de Deus e sujeita ao um devido julgamento. "Visto que... por obras da
lei..." Paulo está se referindo não apenas à Lei de Moisés, mas a boas
obras de qualquer tipo: "visto que ninguém será justificado diante dele
por [boas] obras da lei". O sentido do grego original é ainda mais forte.-
"Nenhuma carne jamais será... nenhuma carne poderá jamais ser
justificada". Todos aqueles que não têm a Bíblia serão julgados de acordo
com o padrão perfeito de Deus, com base no juízo que cada um faz dos outros,
como vimos em 2.1.
Ninguém jamais poderá
dizer "segui completamente o padrão, de acordo com o qual eu julguei os
outros". E, em seguida, vem o judeu e diz "está certo, acontece que
nós temos a Bíblia". E Deus responde: "É verdade, mas também é
verdade que você não a seguiu". Portanto, a conclusão a que chegamos é que
a nossa situação é simplesmente caótica. "Visto que ninguém jamais será
justificado diante dele [de Deus] por obras da lei, em razão de que pela lei vem
o pleno conhecimento do pecado".
Chegamos assim ao final
da apresentação de Paulo da "primeira metade do evangelho". Ele levou
a maior parte do primeiro capítulo, todo o segundo capítulo e grande parte do
terceiro capítulo para nos mostrar que precisamos da salvação. O que ele ainda
não nos contou foi como ser salvo. A palavra salvação ocorreu somente uma vez,
em um dos versículos-chave: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é
o poder de Deus para a salvação" (1.16). Quer seja no mundo grego e romano
humanista, quer no humanismo do século 20, por toda parte ouvimos a mesma
queixa-. "Por que eu preciso de salvação?" As pessoas podem até ter
todo o tipo de opiniões sobre se Deus existe ou como ele é se ele realmente
existir, mas quando elas ouvem falar que Deus diz que devem ser salvas, elas
geralmente têm objeções.
É interessante notar
que as pessoas não rejeitam o Existencialismo . da mesma forma como rejeitam o
Cristianismo. O existencialista diz que todas as pessoas estão perdidas. O
existencialista diz que todas as pessoas estão condenadas. O existencialista
diz que não há esperança alguma. Cínicos e niilistas de todos os tipos dizem
que não há esperança na vida, a vida é complicada, a vida é impossível, o homem
é um zero à esquerda. E é aí que o Cristianismo difere radical-mente do
Existencialismo e eis porque as pessoas têm uma reação assim tão forte contra o
Cristianismo, mas não contra o Existencialismo.
O Existencialismo diz
que o homem é um zero à esquerda e que está irremediavelmente perdido. Já o
Cristianismo diz que o homem está perdido sim, não pelo que ele é, mas devido à
forma pela qual ele resolveu agir, por livre e espontânea vontade. Se um homem
é condenado pelo que ele é, você não poderia dizer que ele está errado - ele é
apenas patético. Mas o Cristianismo diz que o homem não é patético. Na verdade,
o homem é uma maravilhosa criação de Deus. Acontece que ele também é um ser
rebelado contra Deus e merece a ira de Deus. O homem não ê um ser patético, o
homem é um ser rebelde.






