Primeiro, a principal
razão é que é da vontade de Deus que seja assim. Quem deve dispor das
criaturas, senão aquele que as criou? Quem dever organizar os tempos e as
transformações delas, senão o Senhor absoluto? Quem é o único que também tem
sabedoria para decidir o que é melhor para a pessoa e poder para garantir que
seu desejo seja realizado? Você também pode muito bem perguntar: "Por que
não podemos ter a primavera e a colheita sem o inverno?", como também
indagar: "Por que não temos esse descanso aqui na terra?".
Contudo, você também
pode muito bem ver uma boa razão para isso. Primeiro, Deus deveria subverter a
ordem estabelecida na natureza, se fosse para ele nos dar esse descanso aqui na
terra. Todas as coisas devem chegar a sua perfeição passo a passo. O homem mais
forte de todos precisa primeiro ser uma criança; o erudito mais notável precisa
primeiro cursar a escola primária e aprender o “ABC”; o artífice mais talentoso
foi no início um aprendiz inexperiente; o carvalho mais alto foi primeiro uma
pequena bolota. Esse é o curso contínuo da natureza. Esta vida é nossa
infância; quem sabe deveríamos ser aperfeiçoados no ventre, ou nascer
totalmente desenvolvidos? Deus deve subverter o curso da natureza para nós?
E seria um absurdo
ético, se nosso descanso e contentamento plenos fossem aqui. Isso seria uma
ofensa para Deus e para nós mesmos. Primeiro para Deus, tanto nesta vida quanto
na vida por vir. Nesta vida, isso seria uma ofensa para Deus, tanto em relação
ao que faz por nós aqui quanto em relação ao que ele receberia, por assim
dizer, de nós. Se nosso descanso fosse aqui, então a maioria das providências
de Deus seriam inúteis; seu notável plano, frustrado; e suas obras cheias de
graça e suas misericórdias, desnecessárias para nós. Se o homem tivesse mantido
seu primeiro descanso no Paraíso, Deus não teria oportunidade para manifestar
seu enorme amor pelo mundo entregando seu Filho. E como Deus não teria a
oportunidade para exercitar toda sua graça, mas apenas algumas delas, então ele
não teria nosso agradecimento por tudo que faz por nós. Não sentimos como se nossas orações
estivessem prontas a congelar? E como o servimos displicentemente? E como
esquecemos ou passamos por cima de uma responsabilidade, quando temos saúde e
prosperidade, embora ainda estejamos muito distantes de todo contentamento e
descanso? Se tivéssemos o que teremos, como ele ouviria muito pouco a nossa
voz! Deus se agrada da alma humilde e contrita, da alma que treme ao ouvir a
sua Palavra; mas haveria pouco disso em nós, se satisfizéssemos plenamente
nossos desejos aqui. Achamos que podemos
louvar a Deus melhor se não precisássemos de nada; mas a experiência nos diz o
contrário. Além disso, como a variedade
é um elemento da beleza da criação, ela também o é da providência; e se fosse
para Deus exercitar aqui apenas um tipo de previdência, e conceder apenas um
tipo de graça, e receber nosso agradecimento apenas por uma delas, isso seria
uma diminuição da beleza da providência.
E seria uma grande
ofensa para nós mesmos, como também para Deus, se tivéssemos nosso pleno
contentamento e descanso aqui na terra; tanto agora quanto para todo o sempre.
Quando Deus perde a oportunidade para exercitar suas misericórdias, o homem
também perde a alegria de desfrutar delas. E quando Deus perde os louvores que
lhe são devidos, o homem certamente perde as consolações do Senhor. Como
poderíamos conhecer o coração amoroso do Pai, e como ele nos encontraria cheio
de alegria e nos abraçaria, se não nos fosse negado, como aconteceu com o filho
pródigo, as migalhas do prazer e dos benefícios terrenos? Jamais sentiríamos a
mão suave de Cristo curando nossas feridas e enxugando nossas lágrimas, se não
tivéssemos caído nas mãos de bandidos, e se não tivéssemos lágrimas para ser
enxugadas. Se não estivéssemos cansados, e sobrecarregados, e sedentos, e não
fossemos pobres, e humildes, e contritos, jamais teríamos estes doces textos em
nossa Bíblia: "Venham a mim, todos os que estão cansados e
sobrecarregados" (Mt 11.28); "Quem tiver sede, venha; e quem quiser,
beba de graça da água da vida" (Ap 22.17); "Bem-aventurados os pobres
em espírito" (Mt 5.3); "Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive
para sempre, e cujo nome é santo: 'Habito num lugar alto e santo, mas habito
também com o contrito e humilde de espírito'" (Is 57.15). Em outras
palavras, perderíamos todas as misericórdias redentoras, nossas recuperações, nossos livramentos e as
misericórdias de ação de graças, se não tivéssemos nossas misérias e nossos
sofrimentos para proporcionar tudo isso. E isso seria uma perda para nós, tanto
no futuro quanto no presente. Para um soldado, ou para um viajante, é um grande
deleite olhar em retrospectiva suas aventuras e seus livramentos, depois de que
eles já fazem parte do passado; e para um santo no céu, olhar em retrospectiva
para a condição em que estava na terra
deve fazer com que suas alegrias sejam racionalmente mais alegres.
Quando os abençoados estão no fim, eles olham em retrospectiva para o caminho;
quando a luta é finda, e o perigo já acabou, e a tristeza se foi, ainda assim a
alegria com a lembrança disso tudo não se esgotou, nem os louvores de seu
Redentor se findaram. Mas se não tivermos nada além da alegria e do descanso na
terra, que espaço haveria, depois disso, para o regozijo e os louvores?
Agora, nós somos seres
incapacitados para a alegria e o descanso; e isso tanto no que diz respeito ao
corpo como à alma. Uma alma que é tão fraca em toda a graça, tão propensa ao
pecado, tão entretecida como princípios e desejos contraditórios tem, nesse caso, alegria e descanso plenos? O
que é o descanso, senão a perfeição de nossas bênçãos em hábito e ações, o amor
a Deus de forma perfeita, o conhecimento do Senhor e o regozijo nele? Como pode
descansar a alma que tem tão pouco desse conhecimento, e desse amor, e dessa
alegria? O que é o descanso, senão a libertação do pecado, e das imperfeições,
e dos inimigos? E pode descansar a alma que é importunada, e incessantemente,
por tudo isso?
E nosso corpo, bem como
nossa alma, são incapacitados para esse descanso. Agora, ele não é aquele corpo
radiante e luminoso que será um dia, quando o corruptível se revestir de
incorruptibilidade, e o mortal, de imortalidade. Ele é nossa prisão e nosso
fardo; e é tão assolado por enfermidades e defeitos que somos obrigados a gastar
a maior parte do tempo em seu restabelecimento e no suprimento de suas
necessidades. Certamente, esse corpo
deve ser refinado a uma perfeição apropriada para aquele lugar, antes que seja
capaz de desfrutar do descanso.
Como não somos
capacitados a ter esse descanso na terra, então queremos aqueles objetos que
podem nos propiciar alegria e descanso; pois os que agora desfrutamos não são
suficientes, e o que é suficiente não está ao alcance de nossas mãos.
Desfrutamos do mundo e de sua faina, e que fruto ele pode nos dar? O que há em
tudo que temos aqui que possa nos dar descanso? Os que têm mais de tudo que o
mundo pode oferecer carregam o maior fardo, e desfrutam de menos descanso que
os outros. Tolos inexperientes prometem
a si mesmos ter, no presente, o céu na terra; mas quando eles estão prontos
para desfrutá-lo, ele foge deles; e quando já perderam o fôlego de tanto correr
atrás dessa sombra, ele não está mais perto deles que quando iniciaram a
corrida. Aquele que tem alguma
consideração com as obras do Senhor pode facilmente ver que o fim mesmo delas é
derrubar nossos ídolos, cansar-nos neste mundo e forçar-nos a buscar nosso
descanso nele. Afinal, não é onde prometemos a nós mesmos mais contentamento
que ele mais nos contraria?
E como o que desfrutamos
aqui não é suficiente para nosso descanso, então Deus, que é suficiente, é
pouco desfrutado aqui. Não foi aqui que ele preparou a sala para a presença de
sua glória; ele fechou a cortina que nos separa dele; como criaturas, estamos
distantes dele; como meros mortais, mais distante ainda; como pecadores, o mais
distante possível. Ouvimos aqui e ali uma palavra de conforto dele, e, para
guardar nosso coração e manter acessa nossa esperança, recebemos suas
demonstrações de amor; mas--Deus meu!--isso não é nossa alegria plena. Enquanto
estivermos neste corpo, estaremos distantes do Senhor; distantes, até mesmo,
enquanto ele estiver presente. A alma que escolheu Deus como sua porção e o
escolheu para sua única alegria e descanso pode encontrar descanso nessa
distância tão enorme?
E, por fim, como somos
incapazes em nossa natureza, também o somos quanto à moral. Há um merecimento
que deve vir antes de nosso descanso. Ele tem a natureza de uma recompensa; não
uma recompensa de dívida, mas de graça. E, assim, não temos um merecimento de
dívida, nem mérito propriamente dito, mas o merecimento da graça e da
preparação. Sim, é uma obra da justiça de Deus dar a coroa àqueles que
conquistaram esse descanso, não por meio de sua justiça legal, mas da justiça
do evangelho, pois Cristo nos trouxe a ela, e Deus a prometeu e, portanto, ele
a declarará a eles como direito destes. Para os que combateram o bom combate,
terminaram a corrida e guardaram a fé há uma coroa de justiça separada para
eles, a qual o Senhor, o justo Juiz, dar-lhe-á naquele dia. E estamos
preparados para receber a coroa antes de termos vencido? Ou o prêmio antes de
terminar a corrida? Ou receber nosso pagamento antes de trabalhar na vinha? Ou
de ser governante de dez cidades antes de multiplicar nossos talentos? Ou de
entrar na alegria do Senhor antes de cumprir bem nossa missão como servos bons
e fiéis? Ou herdar o reino antes de dar testemunho ao mundo de nosso amor por
Cristo? Que os homens depreciem as obras o quanto quiser e pelo tempo que
desejar, mas você descobrirá que essas são as condições para que ganhemos a
coroa; assim, Deus não alterará o curso da justiça para lhe dar descanso antes
de você trabalhar; tampouco você receberá a coroa de glória até que tenha
vencido.
Portanto, há razões
suficientes para que nosso descanso deva esperar até a vida por vir. Assim,
leitor cristão, preste atenção: como você ousa projetar um descanso aqui na
terra e cuidar para que possa desfrutá-lo? Ou murmurar para Deus por causa de
seus problemas, e labuta, e necessidades aqui na carne? Sob o peso de seu
cansaço, você está disposto a ir para Deus, seu descanso, e terminar seu
combate, e sua corrida, e suas obras? Se não, ó, reclame mais com seu coração e
deixe-o ainda mais cansado, até que o descanso passe a ser mais desejável.
Richard Baxter (1615 - 1691 )






