A agenda de nossa
cultura sempre tenta normatizar o que há de mais escuro e terrível no coração
caído do ser humano. Mas a tentativa é fazer isso de uma maneira que pareça
belo, que pareça “amor”. Muitas vezes essa mensagem é passado de uma maneira
tão sutil, tão “bonita” que você está tendo teu pensamento, visão da vida...
reprogramado sem perceber. Esse é o objetivo.
Por exemplo, ano
passado foi lançado o filme chamado “Como eu era antes de você” – a mensagem do
filme – de uma maneira lúdica, bela... é que a eutanásia é algo que pode ser
amoroso, uma opção digna e que deve receber apoio se você ama a pessoa que está sofrendo, etc...
Na vida real há muitas pessoas diante do mesmo dilema de "Como eu era antes de você!" O sofrimento, dor e morte conhecem mil maneiras de chegar inesperadamente em nossa vida. No fim de 2014, todos ficamos conhecendo a história de Brittany Maynard – A sua história é de cortar nossos corações de muitas formas.
Pouco depois de seu
casamento, Brittany, de 29 anos de idade, descobriu que tinha um câncer
terminal no cérebro. Os médicos foram honestos e diretos ao dar a ela o
prognóstico de que ela teria cerca de seis meses de vida, e que seus últimos
dias envolveriam grande sofrimento.
No Oregon a lei permite
que uma pessoa diagnosticada com doença terminal possa escolher o que é chamado
“morte com dignidade” – O que não acontecia na Califórnia – então Brittany e o
marido se mudaram para o Oregon para que ela pudesse tirar sua própria vida
legalmente.
Com a visão de vida da
cultura atual, a maioria da imprensa e também do público, passou a elogiar a
sua atitude como uma “escolha corajosa e nobre” ao se decidir pela eutanásia.
Não é simplesmente suicídio, mas uma escolha de “morrer com dignidade” – é o
que todos diziam.
A não ser que as
condições de Brittany melhorassem temporariamente, ela decidiu que sua morte
seria no sábado, 1 de novembro de 2014, o que acabou ocorrendo. Maynard
escreveu em seu último post no Facebook: “Adeus a todos os meus queridos amigos
e família que eu amo. Hoje é o dia que eu escolhi para passar com dignidade em
face da minha doença terminal”
Isso me faz lembrar de
outra história. Em 26 de setembro de 2014, Ethan Hallmark de 13 anos de idade, morando em Midlothian, Texas – sucumbiu a uma
forma agressiva de câncer conhecido como neuroblastoma.
De alguma forma, no
meio de seu próprio sofrimento e morte eminente, Ethan encontrou alegria e
esperança na vida. A mãe de Ethan, Rachel, escreveu em um post recente que seu
filho “sabia que o sofrimento era tanto uma parte da vida como a saúde e felicidade
que a acompanha era”.
“O sofrimento existe em todo este mundo, e em formas muito piores do que o câncer” – escreveu Rachel – “tomar um comprimido para ter uma morte precoce não é a solução se você está enfrentando o câncer, a pobreza, a guerra, o abuso, ou quaisquer outras formas de sofrimento que parece interminável. Ethan conseguiu enxergar e aceitar que a vida nem sempre é fácil, e que às vezes temos que enfrentar gigantes que nós preferíamos não ter que enfrentar”.
Em um artigo na CNN.com, Brittany Mainard escreveu: “Minha pergunta é: Quem pensa que tem o direito de me dizer que eu não mereço esta escolha? Que eu tenho que sofrer por semanas ou meses uma grande dor física e emocional?”
Em um artigo na People, Brittany diz que agora é mais fácil suportar a dor agora que ela sabe que está no controle.
A perspectiva de Ethan Hallmark de 13 anos era totalmente diferente da de Brittany. Ele diz: “É óbvio que eu quero vencer esta doença, mas eu não ficarei tão triste assim se eu não puder. É claro que eu não quero morrer com 13 anos de idade. Quem quer? Mas não é realmente meu plano que está agindo aqui... mesmo que meu câncer tenha trazido um monte de coisas ruins, ele tem trazido um monte de coisas boas também. Eu conheci amigos que eu nunca teria conhecido de outra forma. Eu cresci e amadureci nesses 13 anos perto de Deus, que minha família me ensinou a conhecer e amar.”
É engraçado – se é que
eu posso usar esta palavra num post como esse – que apesar da história de Ethan e sua perspectiva sobre o
sofrimento e a morte (acontecendo ao mesmo tempo ) não captou de forma alguma
a atenção dos meios de comunicação e mídias tradicionais como a decisão de
Brittany que atingiu a mídia mundial – a vida de Ethan e sua morte transformou
uma comunidade no Texas e muitos muito além dele.
Em maio de 2014, “I Am
Second” – ao ver a coragem e fé de Ethan em face do seu grande sofrimento e
dificuldade, começou a documentar sua história para ser lançado num
documentário chamado “Many are the Wonders – The Second Story de Ethan Halmark.”
– Você pode ver um trailer aqui, ou todo o documentário aqui.
Brittany e Ethan representam as duas formas, as duas únicas maneiras, que todos nós teremos que abordar o sofrimento e a morte – em nossas vidas e na das pessoas que amamos. Podemos querer e desejar o controle sobre isso. Podemos desejar encurtar nosso sofrimento desejando tomar e tentando tomar a nossa morte em nossas próprias mãos, ou podemos confiar a nossa vida, sofrimento e morte nas mãos de um Deus fiel e Criador.
Todos nós temos que
enfrentar a inevitabilidade do sofrimento e morte. Há um sentido final em que a morte é um
chamado, uma vocação de Deus, que nos convoca, um por vez, a enfrentar. Deus
chama cada pessoa a morte. Ele é soberano sobre toda a vida, incluindo a
experiência final da vida. E quando Deus nos fala da morte, Ele jamais enfatiza
o “onde” ou o “quando” vamos morrer, mas o “como”.
A Bíblia diz que o salário do pecado é a morte. Nós somos pecadores... e apesar de no início, Satanás ter incitado o pecado e nós sermos o agente do pecado e através dele a morte ter entrado em nosso mundo – Romanos 5.12 – foi Deus, como Juiz, que trouxe a sentença de morte sobre a raça humana.
A morte não fazia parte do paraíso, como Deus o criou. E a morte não fará parte da Nova Terra, como Deus trará na ressurreição. Nesse sentido, a morte se opõe a bondade suprema que Deus planejou para esta criação. Ela é um inimigo. Mas o diabo é totalmente destituído de seu poder de condenação (pelo pecado) por causa da morte do Filho de Deus. Seu Filho “assumiu a natureza humana, para que, por Sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo” – Hb 2.14
O horror da morte é a resposta designada por Deus para o horror do pecado. A morte, por desígnio de Deus, é o espelho físico do horror espiritual, e do horror infinito do pecado e da indignação moral da rebelião humana contra Deus.
Assim, Deus nos diz que em resposta ao pecado, “a criação ficou sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança...” - Rm 8:20. Só Deus poderia fazer isso. Nem Adão, nem Satanás agiu com vista a esperança de algo por vir. Esta foi a obra de Deus. Deus designou a morte para a raça humana. O fez com vista a derrota e remoção final da morte de forma que Sua glória seja exposta de maneira infinita em Seu Filho. Mas foi Ele quem determinou isso.
Sendo a expressão do
Juízo de Deus, a morte tem seu aspecto terrível, mas para aqueles que estão em
Cristo, suas presas foram removidas.
A morte foi tragada
pela vitória.
Ó morte, onde está tua
vitória?
Ó morte, onde está o
teu aguilhão? - 1 Co 15: 54-55
A resposta maravilhosa
do Evangelho é: "O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a
lei. Mas, graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor
Jesus Cristo " - 1 Co 15: 56-57. Em outras palavras, Cristo
suportou a maldição da lei de Deus por nós - Gl 3:13. Portanto, ela não
pode nos condenar por nossos pecados - Cl 2: 14-15. Eles estão
cobertos. O aguilhão - as presas - foram removidas.
Portanto, em Cristo,
vamos morrer fisicamente, mas não espiritualmente. Nossas almas vão para casa - 2 Co 5: 8; elas vão estar "com Cristo" - Fil 1:23.
Então, na sua vinda à terra, os nossos corpos serão ressuscitados e
glorificados 1 Tes 4: 15-16 ).
Então, quando a Escritura fala da morte, o foco está
sobre o estado espiritual da pessoa no momento de sua morte. Aqui o “como” da
morte é reduzido a apenas duas opções (
Não em tentar tomar o controle da morte em nossas mãos ) – Mas, nós vamos
morrer na fé, ou morreremos em nossos pecados. O que nos coloca diante do
Evangelho que nos oferece a única esperança que podemos ter quando nossos olhos
se fecham na morte.
Essa é a única
dignidade que o homem pode ter na indignidade da morte – a dignidade que aquele
que tem nossas vidas em Suas mãos pode nos conceder por graça em Seu Filho
amado. Na sua primeira vinda, Cristo pagou a infinita penalidade que o pecado
merece - Col 2.14 – E finalmente em sua segunda vinda, todos os efeitos
terríveis do pecado serão finalmente removidos: “O último inimigo a ser
destruído é a morte!” - 1 Co 15.26 – Ela não existirá mais.
Mas até chegarmos a
este momento, a maneira de dispor da morte e da vida pertence somente a Deus.
Ele nos trouxe a vida e Ele nos tira dela. Ele tem direitos exclusivos sobre a
vida e a morte: “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de
mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da
minha mão.” - Dt 32:39 – A única resposta reverente e digna diante da
morte – é a que Jó deu diante da morte de seus dez filhos – em meio a dor
inimaginável ele diz: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o
Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.” - Jó 1:21 –
Isso é escolher a dignidade!
A vida não pertence a
nós, não a criamos e não terminamos com ela. Temos direção e ajuda clara sobre
isso. A quem ela pertence? Nossa vida, nosso corpo... “Ou não sabeis que o
vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de
Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço;
glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais
pertencem a Deus.” - 1 Co 6:19-20 – Em todas as situações Deus deve ser
glorificado em nosso corpo. O texto está
falando sobre pureza sexual... mas a aplicação é que nosso corpo em tudo deve
glorificar a Deus, pois para isto ele foi criado... não somos nossos. Nossa
vida e morte pertencem a Cristo. Primeiro como o Criador – ( todos os homens ) –
e nos redimidos como Redentor. Nossos corpos existem para Sua vontade e
expressão de sua glória.
O homem só pode desfrutar
a paz, consolo e crescimento na dor, como Ethan de apenas 13 anos desfrutou e
desfrutará para sempre, se entender que “nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor.
Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser
Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos.” - Rm 14:7-9
Nossa vida e nossa
morte pertencem a Deus. Ele dá e Ele tira. E se estamos em Cristo, como Ethan,
Ele diz: Você é meu porque eu te criei, e você é meu porque te comprei com meu
sangue. Ninguém pode viver ou morrer em seus próprios termos.
O fato de o sofrimento
quase inevitavelmente aumentar com a aproximação da morte é muitas vezes visto
com uma perspectiva aterrorizante. Mas Paulo nos fala de como esse sofrimento
pode não só ser suportável, mas significativo: “...mas, ainda que o nosso homem
exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a
nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui
excelente; Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem;
porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” - 2 Co
4:16-18
O ponto aqui é que os
nossos sofrimentos ( mesmo os finais ) não são sem sentido. Eles estão “preparando para nós
um peso eterno de glória" - 2 Co 4:17. "Preparando" -
trabalhando, efetuando... Eles não são torturas sem sentido. Ethan descobriu esta realidade, e ao
descobri-la, experimentou a única morte com dignidade possível. Jamais esqueça
a verdade que faz TUDO valer a pena: “...as aflições deste tempo presente não
são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” - Rm 8:18
Assim, não importa como
seja, nossa morte irá glorificar a Deus. Jesus disse para Pedro essa verdade que
é estendida por graça a todos nós: “E disse isto, significando com que morte
havia ele de glorificar a Deus.” - João 21:19 – Logo saberemos com que morte
glorificaremos a Deus... e em Cristo teremos todo consolo e graça necessário.
Isso é morrer com dignidade.








