Romanos 3.18 termina
com a acusação formal contra a humanidade decaída de que "não há temor de
Deus diante de seus olhos". Talvez esse seja o efeito mais devastador do
pecado original. Nós, que temos sido criados na imagem de Deus e que fomos
feitos para adorar e reverenciar nosso Criador, já perdemos a capacidade de
reverência santa diante dele. Nada é mais alheio a nosso estado decaído do que
adoração autêntica. Isso não quer dizer que paramos de cultuar completamente.
Antes significa que nos tornamos idólatras, transferindo o culto de Deus a algo
na ordem criada. Paulo diz:
A ira de Deus se revela
do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela
injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque
Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu
eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem,
desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram
criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo
conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças;
antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o
coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a
glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem
como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à
imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu
corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e
servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!
Romanos 1.18-25
Essa seção de Romanos
descreve a prática universal de idolatria. O pano de fundo para a acusação é
que Deus se revela claramente na natureza, com o resultado que todo ser humano
sabe que há um Deus. Mas a resposta universal a essa revelação é suprimi-la e
trocar essa verdade manifesta por uma mentira. Nós trocamos a glória de Deus
pela glória de coisas pertencentes à criatura. A própria essência da idolatria
é erigir um altar a um substituto para Deus. O temor de Deus ao qual Paulo se
refere não é o medo ou pavor servil que se tem de um inimigo, mas o respeito
que enche o coração com reverência e inclina a alma à adoração. Pecadores não
adoram Deus por natureza própria. Nós somos, por natureza, filhos da ira, pois
levamos em nossos corações uma inimizade fundamental para com Deus.
Estar no estado de
pecado original é estar no estado que a Escritura chama de "na
carne". Isto não se refere primariamente a coisas físicas, mas a uma
condição de corrupção moral. Na carne não somos capazes de agradar a Deus. De
fato, falta-nos o desejo de agradá-lo. Somos desafeiçoados e alienados de Deus.
Caso perguntássemos a
descrentes se eles odeiam a Deus, provavelmente negariam isso categoricamente.
Contudo a Bíblia torna claro que habita nos corações e nas almas de homens
não-regenerados um profundo ódio de Deus. Amor por Deus não é natural para nós.
Mesmo no estado redimido nossas almas se esfriam e temos sentimentos de
indiferença para com ele. Quando oramos, nossas mentes vagueiam e cedemos a
devaneios. Em meio ao culto em conjunto, ficamos entediados e nos encontramos
dando olhadas disfarçadas em nossos relógios. Como é diferente isso de nosso
comportamento quando estamos na companhia daqueles a quem muito amamos.
Nossa falta de amor
natural por Deus é confirmada por nossa falta natural de desejo dele. Quando
jovem me foi exigido decorar O Breve Catecismo de Westminster. Para mim foi uma
tarefa pesada. A primeira pergunta do catecismo é "Qual é o fim principal
do homem?" A resposta diz: "O fim principal do homem é glorificar a
Deus e gozá-lo para sempre". Para mim isso não fazia muito sentido. Eu
entendia que há alguma ligação entre glorificar a Deus e obedecer a Deus. O que
deixei de captar foi o elo entre tudo isso e "apreciar" a Deus. Se o
fim principal ou propósito de minha vida era apreciar Deus, então estava
deixando escapar o objetivo todo de minha existência. Eu coloquei de lado isso
como sendo linguagem religiosa anti¬quada que não tinha nenhuma relevância à
minha vida diária. Certamente não estava inclinado a procurar minha alegria em
Deus.
Mais tarde entendi meus
sentimentos quando lia a resposta de Lutero à pergunta: "Você ama a
Deus?" Lutero respondeu (antes de sua conversão), "Amar a Deus? Às
vezes eu o odeio!" É raro entre os homens que alguém admita isso. Até
mesmo a resposta franca de Lutero não chegou a ser totalmente sincera. Tivesse
ele falado toda a verdade, teria dito que ele odiava a Deus o tempo todo.






