Em um sentido é porque
nossas vontades estão livres que estamos num estado de incapacidade moral. A
matéria espinhosa da livre opção está ligada à maneira como nossa vontade
funciona. Em seu debate com Pelágio, Agostinho insistiu que o homem decaído
retém uma vontade livre (liberium
arbitrium). Ele insistiu, no entanto, que pelo pecado original o homem perde
a liberdade (libertas) que desfrutava
antes da queda. Na superfície parece que Agostinho está fazendo brincadeiras de
palavras. Como uma pessoa pode ter uma vontade livre e não ter liberdade? Isso
deve ser uma distinção sem uma diferença. A distinção, no entanto, é tanto real
como importante. O homem ainda tem a capacidade de fazer escolhas e, neste
sentido, ele está livre. Mas lhe falta a capacidade de exercer o que a
Escritora chama de "liberdade régia", a liberdade para obediência
espiritual.
Calvino assumiu uma
posição parecida com a de Agostinho: "Esta liberdade é compatível com
sermos depravados, servos do pecado, incapazes de fazer nada senão pecar. Neste
aspecto, então, o homem é dito ter livre-arbítrio, não porque tenha uma escolha
livre de bem e mal, mas porque age voluntariamente, e não por compulsão. Isto é
perfeitamente verdade: mas por que um assunto tão pequeno foi dignificado com
tão orgulhoso título? Uma liberdade admirável! Que o homem não é forçado a ser
servo do pecado, enquanto que é, no entanto, ethelodoulos (um escravo voluntário), sua vontade sendo atada com
as amarras do pecado".
Embora Calvino
afirmasse que somos capazes de escolher o que que¬remos, ele via o termo livre
escolha um tanto grandioso para o assunto. "Por que deveria tão pequeno
assunto", ele perguntou, "ter sido dignificado com tão ufano
título?" O título é mesmo enraizado em orgulho humano. Gostamos de pensar
que temos mais poder moral do que temos. Pensamos que nossa vontade não é nem
um pouco afetada por pecado original. Este é o ponto cardeal do humanismo. A
óptica humanista e pagã de livre-arbítrio é que a vontade age a partir de uma
postura de indiferença. Por indiferença queremos dizer que a vontade não está
inclinada nem ao bem nem ao mal, mas existe em um estado de neutralidade moral.
A mente do homem decaído não tem nenhum preconcebido, nenhuma predisposição ao
mal. Essa visão de livre-arbítrio está num percurso de colisão com a visão
bíblica de pecado.
Jonathan Edwards
definiu a vontade como "a mente escolhendo". Edwards não negou que há
uma distinção significativa entre a mente e a vontade. São faculdades
distintas. Embora a mente e a vontade possam ser distinguidas entre si, elas
não podem ser separadas uma da outra. Ações morais envolvem escolhas racionais.
Uma escolha sem a mente não é uma escolha moral. Plantas podem inclinar suas
raízes em direção à água por uma série de causas físicas. Mas nós não julgamos
esse movimento em termos de virtude ou vício. Essas ações são involuntárias.
Nós também participamos em ações involuntárias. Nós não decidimos quanto a ter
nossos corações bombeando o sangue pelo sistema circulatório. Esta é uma ação
involuntária. O cérebro pode estar envolvido nesse processo de um ponto
superior fisiológico, mas não de um ponto de vantagem de decisão consciente.
Quando Edwards falou da
vontade como sendo "a mente escolhendo", ele quis dizer que fazemos
escolhas de acordo com o que calculamos ser preferível em termos das opções
diante de nós. Edwards concluiu que sempre escolhemos de acordo com a inclinação
que é mais forte no momento. Este é um discernimento crucial em se desvendar a
mente. Significa que toda escolha que fazemos tem uma causa antecedente. Nossas
opções não são "espontâneas", surgindo do nada. Há uma razão para
cada escolha que fazemos. Num senso estreito cada escolha que fazemos é
determinada.
Dizer que nossas
escolhas são "determinadas" soa muito como determinismo.
Determinismo, entretanto, quer dizer que nossas escolhas são controladas por
forças externas. Isso resulta em alguma forma de coerção, que cancela a livre
escolha. O que Edwards tinha em mente é algo diferente. Nossas escolhas são
determinadas no sentido que elas têm uma causa. Essa causa é a inclinação de
nossa vontade. Isso é autodeterminação, que é a própria essência da livre
escolha. Se eu determino o que escolho, isso não é determinismo, mas sim uma
espécie de determinismo. Quando temos forte sentimento sobre fazer algo,
podemos exclamar: "Estou determinado a fazer isso". E isso se refere
a um desejo forte ou inclinação forte da vontade para mover em certa direção.
Quando Edwards diz que
sempre escolhemos de acordo com nossa inclinação mais forte no momento, ele quer
dizer não só que podemos escolher o que mais queremos no momento, mas que
precisamos escolhê-lo. De fato, é exatamente assim que fazemos escolhas. Tente
se lembrar de uma escolha que você já fez que não estava de acordo com sua inclinação
mais forte na hora. Às vezes ficamos confusos sobre isso porque somos assaltados
por uma ampla variedade de inclinações, e elas mudam de intensidade de um tempo
a outro. Por exemplo, depois que terminamos uma refeição pesada, é fácil
decidir entrar num regime. Com estômagos cheios decidimos reduzir o consumo
calórico. Depois de algumas horas, porém, ficamos com fome de novo e o desejo
por alimento se intensifica. Quando chegamos a ponto de querer comer torta mais
do que queremos perder peso, talvez queiramos escolher a torta mais que o
regime. Todas as coisas sendo iguais, talvez queiramos perder o excesso de
peso. Temos um desejo real de ser esbeltos. Mas esse desejo ou inclinação surge
contra nosso desejo por prazeres culinários. O problema é que todas as coisas
não continuam iguais.
Outro exemplo pode ser
visto num esquete de Jack Benny, na TV. Benny foi confrontado por um ladrão,
que lhe disse: "Seu dinheiro ou sua vida".
Benny ficou parado,
mudo, com uma expressão contemplativa no rosto.
Ficando impaciente, o
ladrão disse: "Bem, qual é, seu dinheiro ou sua vida?"
"Eu estou
pensando", Benny respondeu. "Estou pensando."
Esse caso enfatiza que
nem sempre as coisas são iguais quando faze¬mos escolhas. O ladrão reduz as
opções da vítima a duas: dinheiro ou vida. Todas as coisas sendo iguais, a
vítima não tem nenhum desejo de doar seu dinheiro ao ladrão. Uma vez feita a
ameaça de morte, no entanto, os níveis de desejo mudam. A vítima tem um desejo
maior de continuar a viver do que de guardar sua carteira, então entrega seu
dinheiro. É claro que há um elemento de coerção nesse cenário, mas a coerção
não é absoluta. E extrema, mas não final. A escolha ainda está lá, de pagar ou
morrer. Uma pessoa pode ter sentimentos tão fortes contra o roubo que prefira
morrer. Ela pode gritar: "Dê-me liberdade ou dê-me a morte", mas sabe
que mesmo que morra como mártir à sua causa, o ladrão ainda vai levar seu
dinheiro.
O ponto dessa
ilustração é que escolhemos de acordo com nossa inclinação mais forte naquele
momento. Devemos entender isso à medida que
procuramos crescer em
nossa obediência a Deus. Toda vez que peco, faço isso porque no momento prefiro
o pecado à obediência. Posso ter um desejo real em meu coração de ser
obediente, mas esse desejo entra em conflito com meus desejos pecaminosos. Esse
é o dilema expresso pelo apóstolo Paulo:
Porque nem mesmo
compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que
detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste
caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu
sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o
bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro,
mas o mal que não quero, esse faço.






