Perseverança,
paciência e submissão que se fazem indispensáveis no exercício da oração.
Se de ânimo disposto
para com esta obediência, nos deixamos ser regidos pelas leis da divina
providência, aprenderemos facilmente a perseverar em oração e, suspensos os
desejos, a pacientemente esperar no Senhor, certos de que, embora de modo algum
se ponha ele à mostra, todavia nos está sempre presente, e a seu tempo haverá
de declarar que seus ouvidos nunca foram surdos às nossas orações, as quais,
aos olhos dos homens, pareciam ignoradas.
Mui presente
consolação, porém, nos haverá esta de ser, para que não desfaleçamos e em
desespero não caiamos, se a qualquer tempo Deus não nos responder às primeiras
orações, como costumam os que, enquanto se deixam impulsionar apenas por seu
ardor, invocam a Deus de tal modo que, a não ser que ele atenda aos primeiros arroubos
e traga ajuda imediata, prontamente o imaginam ofendido e irado com eles e,
descartada toda esperança de alcançar o que suplicam, desistem de invocá-lo.
Senão que, antes, nossa esperança distendendo com bem temperada eqüidade de
ânimo, avancemos para com essa perseverança que tão grandemente se nos
recomenda nas Escrituras.
Ora, nos Salmos é
possível, freqüentemente, ver que Davi e os demais fiéis, quando, quase
cansados de orar, parecem haver golpeado o ar, uma vez que suas palavras são
derramadas diante de um Deus surdo, contudo, não desistem de orar, porquanto
não dão à Palavra de Deus a autoridade que lhe é atribuída, a não ser que a fé
esteja acima de todas as contingências.
Além disso, isto também
nos servirá de excelente remédio para guardar-nos de tentar a Deus e de
fatigá-lo com nossa impiedade, provocando-o contra nós, como é o costume de
muitos, os quais somente sob determinada condição pactuam com Deus; e como se
ele fosse escravo de seus desejos, o mantêm limitado às leis de sua estipulação,
às quais, a menos que prontamente obedeça, indignam-se, reclamam, protestam,
murmuram, revoltam-se.
Portanto, Deus lhes
concede muitas vezes em seu furor o que em sua misericórdia e favor nega a
outros. Prova disso são os filhos de Israel, aos quais melhor fora não tivessem
sido ouvidos pelo Senhor que juntamente com as carnes tragarem-lhe a indignação
[Nm 11.18-33].






