Em nosso temperamento e
em nossa composição mental e emocional, assim como em nossa história pessoal,
somos todos diferentes. Este fato, unido à variedade discricionária de Deus
(verdadeiramente, Ele ama a variação), significa que as experiências de
conversão, vistas psicologicamente como fases do pensamento e do sentimento,
diferem grandemente de pessoa para pessoa. Porém a transformação do coração
descrita acima é essencialmente a mesma em todos os casos.
O evangelho, ensina
Paulo, convoca a que "vos renoveis
no espírito do vosso sentido, e vos revistais do novo homem, que, segundo Deus,
é criado em verdadeira justiça e santidade" (Ef 4. 23,24). Deus opera
isto em nós quando nos achegamos a Cristo. Doravante, pois, vivemos nEle, com
Ele, através dEle, e para Ele.
"Para mim, o viver é Cristo" (Fp 1.21). "Cristo... é a nossa vida" (Cl 3.4).
Se você me perguntar se
a pessoa continua a mesma após a conversão, a resposta é sim e não. Sim, porque
há uma identidade pessoal que continua; não, porque a transformação do coração
redirecionou-lhe radicalmente a vida. C. L. Lewis conta que Eustáquio, o jovem
visitante de Nárnia, a quem Aslan "desdragonou" (libertou da
aparência de dragão) mudou tanto, que dificilmente se reconheceria o mesmo
menino. O mesmo se diz dos novos convertidos a Cristo, por causa da enorme
mudança de motivação que agora os distingue. (Você pode ler a história de
Eustácio em A Viagem do Peregrino da Alvorada.)
E claro que nem todas
as pessoas regeneradas podem lhe dizer quando e como foram convertidas. Mas
quando uma pessoa mostra um coração voltado a Deus, hostilidade ao pecado, e
lealdade reverente a Jesus como Mediador e Senhor, você sabe o que lhe
aconteceu. Ela acha-se agora, verdadeiramente, na condição de convertida.
Aqueles que foram
mudados são chamados a palmilhar a trilha da nova transformação. Como fazem
isto? Vivendo naturalmente o que agora é o desejo motriz de seus corações;
dizendo diariamente um "não" resoluto à fascinação do pecado; e
cultivando a companhia de Jesus - a sua amizade, pois Ele chamou os discípulos
de amigos (Jo 15.15). Ser amigo do Filho e do Pai através do Espírito é a
melhor descrição que conheço para o viver santo.
Mais especificamente, o
viver em fé e esperança promove a trans-formação. A fé afasta-nos de todas as
formas de auto-suficiência, autoconfiança, e ensimesmamento. A fé é os olhos
que vêem, os ouvidos que ouvem, as mãos que abraçam, e os pés que movem - tudo
em direção a Cristo para a comunhão unificadora. A fé confia nas promessas
divinas das Escrituras, na sabedoria de Deus quanto aos acontecimentos, e no
Filho de Deus como Salvador e Pastor, sempre e em toda parte. A fé produz esperança,
a certeza de que o Deus da graça está nos conduzindo ao lar da glória, e que
"a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de
glória mui excelente" (2 Co 4.17).
A esperança sustém a
confiança e lança fora toda classe de apatia e desespero. O viver em fé e
esperança traz-nos uma perspectiva cada vez mais alinhada a de Cristo, quando
viveu na terra. O viver em arrependimento e obediência promove a transformação.
O arrependimento é a honestidade humilde que, com tristeza e vergonha, vira às
costas a algo que admite ser errado, para, daí em diante, fazer o que sabe ser
o certo. Obediência é o empenho consciente em viver de acordo com a vontade de
Deus a nós revelada, sem fazer exceções a nosso favor. Quando perguntaram a certo
puritano por que ele era tão rigoroso em sua religião (atualmente os puritanos
são chamados de "rigoristas"), a sua réplica foi inesquecível:
"O, amigo, eu sirvo a um Deus rigoroso". Nós também; lembremo-nos
disto. Hoje, o arrependimento e a obediência já não abundam em nossas igrejas.
A auto-satisfação e a bonomia tomaram-lhes o lugar. Mas o desejo do coração
renovado de agradar a Deus impelirá os cristãos a praticá-los novamente, a
vigiar e a orar mais seriamente contra as influências de qualquer espécie, que
possam levá-los à negligência.
O viver em
arrependimento e obediência torna-nos cada vez mais decididos e vivazes para
resistir às tentações, como fazia Cristo quando caminhava neste mundo ( Lc
4.1-13; 22.28; Hb 4.15; 5.7,8).






