As criaturas podem
frustrar a vontade decretatória de Deus? Quanto a isso, a Escritura é
totalmente clara e unânime. Em termos simples, o poder de Deus sempre executa
os seus propósitos. Deus não pretende fazer acontecer tudo o que ele valoriza,
mas nunca falha no que pretende fazer. E verdade que as criaturas podem se opor
a ele, mas elas não prevalecerão.
Devemos lembrar que
Deus decreta não somente o fim da História, mas também os acontecimentos em
cada momento da História. Pelos seus próprios motivos, ele escolheu retardar o
cumprimento de suas intenções para o fim do mundo e decidiu cumprir essas
intenções mediante uma sequência de acontecimentos históricos complicados.
Nessa sequência, os seus propósitos aparentam, por vezes, sofrer derrota e, em
outras vezes, atingir os seus objetivos. Contudo, cada derrota aparente, na
verdade, torna a sua vitória final mais gloriosa. A cruz de Jesus é claramente
o exemplo maior desse princípio. Portanto, Deus planeja não somente o seu
triunfo final, como também a sua aparente derrota na História. Ele planejou que
a História fosse exatamente como ela é. Sendo assim, todos os seus decretos, tanto
na História como na consumação da História, hão de ocorrer.
Assim sendo,
repetidamente a Escritura afirma que os propósitos de Deus prevalecerão. E eles
prevalecem não somente no final da História e também não somente no seu esquema
mais extenso, como também prevalecem ao longo da História em todas as situações
específicas. Nada é muito difícil para Deus (Jr 32.27); nada parece ser
maravilhoso demais para ele (Zc 8.6); para ele nada é impossível (Gn 18.14; Mt
19.26; Lc 1.37). Portanto, os seus desígnios sempre prevalecerão. Contra a Assíria,
ele diz:
Como pensei, assim
sucederá, e, como determinei, assim se efetuará.
Quebrantarei a
Assíria...
Este é o desígnio que
se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre
todas as nações.
Porque o SENHOR dos
Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará?
A sua mão está
estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?
(Is 14.24-27; cf. Jó
42.2; Jr 23.20)
Quando Deus expressa o
seu desejo eterno por meio de palavras, ditas pelos seus profetas, essas
profecias ocorrerão sem falta (Dt 18.21,22; Is 31.2)7 Deus, de vez em quando,
coloca sua palavra como seu agente ativo, que inevitavelmente cumprirá sua
determinação:
[Como a chuva molha a
terra] assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia,
mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei. (Is 55.11;
cf. Zc 1.6)
Assim, o mestre sábio
nos ensina:
Não há sabedoria, nem
inteligência, nem mesmo conselho contra o SENHOR. (Pv 21.30; cf. 16.9; 19.21)
As Escrituras falam
muitas vezes dos propósitos de Deus em termos de "o que o agrada" ou
"sua boa vontade". A vontade de Deus certamente se realizará:
Digo: o meu conselho
permanecerá de pé, farei toda a minha vontade. (Is 46.10)
Todos os moradores da
terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o
exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem
lhe dizer: Que fazes? (Dn 4.35)
Por aquele tempo,
exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque
ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos.
Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. (Mt 11.25,26)
Em amor nos predestinou
para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o
beneplácito de sua vontade. (Ef 1.4,5; cf. v. 9)
Para ilustrar a
eficácia do propósito de Deus na nossa vida, as Escrituras usam a imagem do
oleiro e do barro (Is 29.16; 45.9; 64.8; Jr 18.1-10; Rm 9.19-24). Deus lida com
as pessoas com a mesma facilidade com que o oleiro molda o barro, fazendo um
vaso para um propósito e outro vaso para outro propósito. Seu propósito
prevalecerá e o barro não tem direito algum de reclamar do oleiro quanto a isso.
Sanders concorda que, nessas passagens, o barro não tem direito algum de
reclamar do oleiro, mas ele acredita que o oleiro rejeita algumas peças de
barro não por causa do seu propósito soberano, mas porque "essa peça de
barro rejeitou o projeto divino". Então, ele diz que "a metáfora do
oleiro com o barro deve ser compreendida com base no relacionamento de
reciprocidade que Deus estabeleceu de modo soberano. Isso não deve ser
compreendido como um ensinamento do controle divino sobre todas as
coisas". Contudo, o poder total do oleiro sobre o barro está implícito na
própria metáfora e explícito em Romanos 9.19-21, em que há a iniciativa do
oleiro "para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para
desonra". Em Romanos 9, é muito claro, tanto no nível de metáfora, quanto
no nível da História - o relacionamento entre judeus e cristãos -, que o
próprio Deus é a última fonte da distinção.
A eficácia geral do
propósito de Deus forma o pano de fundo da doutrina reformada que conhecemos
como "graça irresistível". Como mencionamos anteriormente, os
pecadores resistem aos propósitos de Deus; este é, sem dúvida. um tema
significativo na Escritura (Is 65.12; Mt 23.37-39; Lc 7.30; At 7.51; Ef 4.30;
lTs 5.19; Hb 4.2; 12.25). Porém, o ponto principal dessa doutrina é que a
resistência deles não subsiste contra o Senhor. Quando Deus determina levar
alguém à fé em Cristo, ele não falhará, mesmo que, por razões próprias, ele
escolha lutar com essa pessoa por um longo período de tempo antes de alcançar o
seu propósito.
Portanto, as Escrituras
ensinam de modo consistente que quando Deus elege, chama e regenera alguém em
Cristo, pelo Espírito, essa obra alcança os seus propósitos salvíficos. Quando
Deus dá a seu povo um coração novo, é certo que eles "andarão nos meus
estatutos, e guardarão os meus juízos" (Ez 11.20; cf. 36.26,27). Quando
Deus dá vida nova (Jo 5.21), não podemos devolvê-la. Jesus disse: "Todo
aquele que o Pai me dá, esse virá a mim" (Jo 6.37). Se Deus pré-conhece
(i.é., favorece) alguém, ele certamente o predestinará a ser conforme a
semelhança de Cristo, a ser chamado, a ser justificado e a ser glorificado no
céu (Rm 8.29,30). Deus "tem ele misericórdia de quem quer e também
endurece a quem lhe apraz" (Rm 9.18, referindo-se a Êx 33.19). O salmista diz:
Bem-aventurado aquele a
quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficaremos
satisfeitos com a bondade de tua casa — o teu santo templo. (SI 65.4)
Paulo acrescenta:
"Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação
mediante nosso Senhor Jesus Cristo" (lTs 5.9).
Como a sua palavra,
portanto, a graça de Deus nunca retornará para ele vazia. Podemos resumir o
ensino bíblico sobre a eficácia do reinado de Deus nas seguintes passagens, que
falam por si mesmas: O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu
coração, por todas as gerações. (SI 33.11)
No céu está o nosso
Deus e tudo faz como lhe agrada. (SI 115.3)
Tudo quanto aprouve ao
SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos. (SI
135.6)
Eu anunciei salvação,
realizei-a e a fiz ouvir; deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as
minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus. Ainda antes que houvesse dia, eu
era; e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu, quem o
impedirá? (Is 43.12,13; cf.Dt 32.39)
Estas coisas diz o
santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém
fechará, e que fecha, e ninguém abrirá. (Ap 3.7)






