Porque ninguém pode
lançar outro fundamento (1Co 3. 11,12). Esta sentença consiste de duas partes,
a saber:
(1) que Cristo é o
único fundamento da Igreja; e
(2) que os coríntios
haviam sido apropriadamente fundados sobre Cristo através da pregação de Paulo.
Por isso, era
necessário que fossem reconduzidos somente a Cristo, pois seus ouvidos se
cocavam freneticamente por novidades. Era uma questão de grande importância que
Paulo fosse conhecido como o principal e (se assim posso afirmar) fundamental
arquiteto, de cujo ensino os coríntios não poderiam afastar-se, sob a pena de
renunciar ao próprio Cristo. Resumindo: a Igreja deve estar total e
definitivamente fundada exclusivamente sobre Cristo; e Paulo desempenhava seu
papel, a este respeito, entre os coríntios tão fielmente que seu ministério não
deixava nada a desejar.
Segue-se que, quem quer
que viesse após ele não poderia servir ao Senhor conscienciosamente, ou ser
ouvido como ministro de Cristo de algum outro modo além de esforçar-se em
tornar o seu ensino como o dele, e manter o fundamento que ele lançara.
Daqui podemos chegar a
certa conclusão sobre aqueles que, quando seguem os genuínos ministros, não se
preocupam em adaptar-se ao seu doutrinamento e seguir de perto um bom princípio
a fim de fazer perfeitamente claro que não se ocupavam com novidades. Podemos
concluir, pois, que eles [coríntios] não estavam trabalhando fielmente para
edificar a Igreja, senão que eram seus demolidores. Pois o que é mais
destrutivo do que confundir os crentes bem fundamentados na sã doutrina com um
novo gênero de doutrinamento, de modo que não sabem com certeza onde estão ou
para onde vão? Por outro lado, a doutrina fundamental, que não pode ser
subvertida, é aquela que aprendemos de Cristo. Porquanto Cristo é o único
fundamento da Igreja. Mas são muitos os que usam o nome de Cristo como cegos, e
reviram de ponta cabeça a verdade universal de Deus.
Portanto, observemos
como a Igreja é adequadamente edificada sobre Cristo, a saber, se
exclusivamente ele é posto como justiça, redenção, santificação, sabedoria,
satisfação, purificação, em síntese, como vida e glória; ou, se se preferir de
forma mais breve, se ele é pregado de tal forma que seu ofício e virtude são
entendidos da forma como são apresentados no final do primeiro capítulo. Ora,
se Cristo não é adequadamente conhecido e lhe é simplesmente atribuído o nome
de Redentor, enquanto que, ao mesmo tempo, a justiça, a santificação e a
salvação são buscadas em outras fontes, ele é lançado para fora do fundamento e
pedras falsas são postas em seu lugar. Temos um exemplo disto no procedimento
dos papistas, ou seja, ao despirem Cristo de quase todos os seus ornamentos, e
não lhe deixam quase nada senão um simples nome. Tais pessoas, pois, não estão
de forma alguma sendo fundamentadas em Cristo. Ora, visto que Cristo é o
fundamento da Igreja em razão de ser ele a única fonte de salvação e vida
eterna, em razão de que é nele que conhecemos Deus o Pai e em razão de se achar
nele a fonte de todas as nossas bênçãos - então, se não é reconhecido como tal,
ele, imediatamente, cessa de ser o fundamento.
Pode-se, porém,
perguntar se Cristo é somente uma parte, ou é ele o originador da doutrina da
salvação, porquanto o fundamento é apenas uma parte do edifício. Porque, se tal
é o caso, os crentes fariam de Cristo só o ponto de partida, sendo levados à
complementação sem qualquer conexão com ele, e de fato Paulo parece sugerir
isto. Minha resposta é que este não é o significado do que ele diz, de outra
sorte ele estaria se contradizendo ao dizer em Colossenses 2,3 que "todos
os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos nele". Portanto,
a pessoa que tem "aprendido Cristo" (Ef 4.20) já se acha plenificada
de todo o ensino celestial. Porém, visto que o ministério de Paulo se
preocupava mais em estabelecer os coríntios do que em erguer em seu meio a
parte mais alta do corpo do edifício, ele apenas mostra aqui o que já fizera, a
saber, que ele pregara Cristo, pura e simplesmente. Por esta razão, pensando no
que fizera, Paulo chama Cristo de o fundamento, mas não significa que ele
exclui Cristo do resto do edifício. Em outras palavras, ele não põe algum outro
tipo de ensino em contraste com o conhecimento de Cristo; ele está, antes,
realçando a relação existente entre ele [Cristo] e os outros ministros.
Mas se alguém edifica
sobre este fundamento. Ele persiste no uso da metáfora. Não era suficiente -
que o fundamento houvesse sido assentado, se toda a superestrutura não lhe
correspondesse. Pois, visto que seria absurdo construir com material inferior
sobre um fundamento de ouro, então é algo perverso sepultar Cristo sob outras
doutrinas sobrepostas por homens. Portanto, Paulo quer dizer por "ouro,
prata e jóias", o ensino que não só se harmoniza com Cristo, mas é também
uma superestrutura em harmonia com esse fundamento. Além do mais, não
imaginemos que esta doutrina é extraída de outras fontes e não de Cristo, senão
que devemos, antes, entender que temos de continuar a ensinar Cristo, até que o
edifício esteja completo. Contudo, temos de prestar atenção na ordem de fazer
as coisas, de modo que pode-se iniciar com a doutrina geral e o mais essencial
dos principais pontos, como o fundamento. Em seguida vem reprovação, exortações
e tudo quanto é necessário para a perseverança, o encorajamento e o progresso.
Visto que há pleno
acordo sobre o que Paulo quis dizer até aqui, segue-se, por outro lado, que o
ensino que é descrito aqui como "madeira, restolho e feno" não se
adequa ao fundamento; o ensino, isto é, o que é engendrado pela mente humana e
nos é empurrado como se fosse [os próprios] oráculos de Deus. Pois Deus quer
que sua Igreja seja edificada com base na genuína pregação de sua Palavra, não
com base em ficções humanas; e isto é o que se pode descrever como tudo o que
não faz nada na maneira de construir. Nesta categoria estão questões
especulativas que geralmente fornecem mais para ostentação - ou algum louco
desejo - do que para a salvação de homens.
Paulo faz notório que
no fim a qualidade da obra de cada um se fará manifesta; mesmo que ela seja
ocultada pelo tempo presente. É como se dissesse: "Pode ser que os maus
obreiros vivam enganando, de modo que o mundo não consiga de forma alguma
provar quão fielmente ou quão honestamente cada um tenha feito seu trabalho.
Mas o que agora se acha, por assim dizer, submerso em trevas, deverá ser
destruído diante da face de Deus, e será considerado como algo indigno.






