Espíritos sedutores (1Tm 4.1-3). Paulo está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de um espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronunciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo 4.1].
Além do mais, Paulo
explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que
eqüivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas
diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de
somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências
dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto
divino é pervertido.
Pela hipocrisia, falam
mentiras. Se esta frase for considerada como uma referência aos demônios, então
falar mentiras será uma referência aos seres humanos que falam falsamente pela
inspiração do diabo. Mas é possível substituí-la por: "através da
hipocrisia dos homens que falam mentiras". Evocando um exemplo particular,
ele diz que falam mentiras hipocritamente, e são marcados com ferretes em sua
consciência. E devemos observar que essas duas coisas se relacionam
intimamente, e que a primeira flui da segunda. As más consciências que são
marcadas com o ferrete de seus maus feitos lançam mão da hipocrisia como um
refúgio seguro, a saber, engendram pretensões hipócritas com o fim de
embaralhar os olhos de Deus. Aliás, esse é o mesmo expediente usado por aqueles
que tentam agradar a Deus com ilusórias observâncias externas.
E assim, a palavra
hipocrisia deve ser entendida em relação ao presente contexto. Ela deve ser
considerada primeiramente em relação à doutrina, e significando que gênero de
doutrina é esse que substitui o culto espiritual de Deus por gesticulações
corporais, e assim adultera sua genuína pureza, e então inclui todos os métodos
inventados pelos homens para apaziguar a Deus ou obter seu favor. Seu
significado pode ser assim sumariado: em primeiro lugar, que todos os que
introduzem uma santidade forjada estão agindo em imitação ao diabo, porquanto
Deus jamais é adorado corretamente através de meros ritos externos. Os
verdadeiros adoradores "o adorarão em espírito e em verdade" [Jo
4.24]. E, em segundo lugar, que esse culto externo é uma medicina inútil por
meio da qual os hipócritas tentam mitigar suas dores, ou, melhor, um curativo
sob o qual as más consciências ocultam suas feridas sem qualquer valia, a não
ser para agravar ainda mais sua própria ruína.
Proibindo o matrimônio.
Havendo descrito a falsa doutrinação em termos gerais, ele agora toma nota de
dois exemplos específicos dela - a proibição do matrimônio e de certos
alimentos. Tal atitude tem sua origem na hipocrisia que abandona a genuína
santidade e então sai em busca de algo mais à guisa de dissimulação. Pois
aqueles que não se abstêm da soberba, do ódio, da avareza, da crueldade e de
coisas afins, tentam adquirir justiça por seus próprios esforços, abstendo-se
daquelas coisas que Deus deixou para o nosso livre uso. A única razão por que
as consciências são sobrecarregadas por tais leis é porque a perfeição está
sendo buscada à parte da lei de Deus. Isso é feito pelos hipócritas que,
procurando transgredir impunemente aquela justiça interior que alei requer,
tentando ocultar sua perversidade interior por meio de observâncias externas,
com as quais se encobrem como com véus.
Isso se constituía numa
clara profecia do perigo que não seria difícil de se observar, se os homens
atentassem para o Espírito Santo que fez registrar uma advertência tão
distinta. Não obstante, percebemos que as trevas de Satanás geralmente
prevaleciam, de tal sorte que a clara luz dessa perfeita e memorável predição
não deixou de cumprir-se. Não muito depois da morte dos apóstolos levantaram-se
os encratitas ~ que derivaram seu nome do termo grego, continência —, os
tacianistas*, os catarístas, Montanocom sua seita e finalmente os maniqueus,
que sentiam extrema aversão por carne como alimento e pelo matrimônio, e
condenavam a ambos como sendo profanos. Ainda que tenham sido repudiados pela
Igreja em razão de sua arrogância em pretenderem obrigar os demais a
sujeitarem-se a seus pontos de vista, não obstante tornou-se evidente que,
mesmo aqueles que os resistiram, cederam aos seus erros mais do que lhes era
conveniente. Esses de quem estou falando agora não tiveram intenção de impor
uma nova lei aos cristãos, contudo atribuíam mais importância a observâncias
supersticiosas, como abstinência do matrimônio e de carne como alimento. Tal é
a característica do mundo, sempre imaginando que Deus pode ser cultuado de uma
forma carnal, como se ele mesmo fosse carnal. A situação se tornava
gradualmente pior, até que um estado de tirania se fez prevalecente, ao ponto
de o matrimônio não mais ser lícito aos sacerdotes ou monges, ou que em todos ou
em certos dias não comerem carne. Por conseguinte, temos boas razões para hoje
crer que essa profecia se aplica aos papistas, visto que obrigam o celibato e a
abstinência de alimentos mais rigorosamente do que a obediência a qualquer dos
mandamentos de Deus. Acreditam que podem escapar da acusação de torcer as
palavras de Paulo, fazendo-as aplicar-se aos tacianistas, aos maniqueus ou a
grupos afins, como se os tacianistas não pudessem tê-la evitado da mesma forma,
voltando as censuras de Paulo contra os catafrinenses e contra Montano, o autor
dessa seita; ou como se os catafrinenses não pudessem facilmente fazê-la
retroceder contra os encratistas como culpados em seu lugar. Aqui, porém, Paulo
não está preocupado com pessoas, e, sim, com os pontos de vista que elas
defendiam; e mesmo que surgisse uma centena de seitas diferentes, todas elas
laborando sob a mesma hipocrisia em exigir a abstinência de alimentos, todas
estariam incorrendo na mesma condenação.
Portanto, debalde se
faz que os papistas evoquem os antigos hereges como sendo eles os únicos alvos
da condenação paulina. E mister que vejamos bem se porventura não são
igualmente culpados. Alegam que são distintos dos encratistas e maniqueus,
porquanto não proíbem de forma absoluta o matrimônio e alimentos, senão que
obrigam a abstinência de carne somente em certos dias, e exigem um voto de
celibato somente aos monges, sacerdotes e freiras. Mas essa é uma desculpa
completamente frívola, porquanto fazem a santidade consistir dessas coisas e
estabelecem um culto a Deus falso e espúrio, bem como escravizam as
consciências humanas com uma compulsão da qual devem estar totalmente livres.
No quinto livro de
Eusébio há um fragmento dos escritos de Apolônio no qual, entre outras coisas,
repreende Montano por ser o primeiro a dissolver o matrimônio e a estabelecer
regras para o jejum. Ele não diz que Montano proibisse universalmente o
matrimônio ou certos alimentos. É suficiente impor às consciências humanas uma
obrigação de se fazer essas coisas e cultuar a Deus através de sua observância.
Proibir coisas que são de livre uso, seja em termos universais, seja em casos
especiais, é sempre uma tirania diabólica. Mas isso se tornará ainda mais óbvio
à medida que certos tipos de alimentos aparecerem na próxima cláusula.
Os quais Deus criou. É
mister que notemos bem a razão apresentada por que devemos viver contentes com
a liberdade que Deus nos concedeu no uso dos alimentos. E porque Deus os criou
para esse fim. Eles proporcionam o maior contentamento a todos os piedosos, por
saberem que todos os tipos de alimentos que comem lhes são postos nas mãos pelo
Senhor, para que desfrutem deles de modo puro e legítimo. Como é possível que
os homens excluam o que Deus graciosamente concedeu? Podem, porventura, criar
alimentos? Ou podem, porventura, invalidar a criação de Deus? Lembremo-nos
sempre de que Aquele que criou é também o mesmo que nos faz desfrutar de sua
criação, e é debalde que os homens tentem proibir o que Deus criou para o nosso
uso.
Deus criou o alimento
para ser recebido, ou seja, para o nosso usufruto. Ele, porém, acrescenta: com
ações de graças, pois o único pagamento com que podemos retribuir a Deus por
sua liberalidade para conosco é dando testemunho de nossa gratidão. E assim,
ele expõe a uma maior execração os perversos legalistas que, mediante novas e
precipitadas sanções, obstruíam o sacrifício de louvor que Deus especialmente
requer que lhe ofereçamos. Além do mais, não é possível haver ações de graças
sem sobriedade e moderação, e não é possível haver genuíno reconhecimento da
benevolência divina por parte de alguém que impiamente a insulta.






