Em 2Pedro 3.18, o crescimento na graça é apresentado não como uma
opção, mas como uma necessidade; não como uma sugestão, mas como uma ordem.
Pedro usa o verbo no imperativo: "Crescei na graça e no conhecimento de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo". Esta é a última ordem do apóstolo,
escrita no último versículo de sua última carta, em um momento em que ele sabia
que sua morte era iminente (2Pe 1.14). Assim, as suas últimas palavras carregam
um peso e significado especiais. E como se Pedro estivesse nos dizendo:
"Se vocês esquecerem tudo o que eu lhes disse, lembrem-se disto, pois é a
coisa mais importante de tudo que lhes tenho dito". E assim, de fato, foi
o que aconteceu, porque o pensamento que Pedro estava expressando ali era, na
verdade, maior e mais rico do que já vimos.
De Ryle, que neste
ponto estava seguindo os puritanos, temos até aqui emprestado a frase
"crescimento na graça" para indicar "crescimento nas
graças" (virtudes, facetas do caráter cristão). Embora isto seja
certamente parte do entendimento de Pedro, há muito mais a ser dito a esse
respeito.
Crescer na graça e no
conhecimento de Cristo significa:
• firmar o entendimento que uma pessoa
possui de toda a doutrina da graça que vimos nos capítulos 2o e 3o;
• aprofundar o relacionamento de fé de uma
pessoa com Cristo, e por meio dele, com o Pai e o Espírito, pelo envolvimento
da santa Trindade, consciente e diretamente, em sua vida; e
• tornar-se mais
parecido com Cristo à medida que o Espírito nos assemelha Aquele a quem
contemplamos, levando-nos a orar para que sejamos como ele, ajamos de forma a
imitá-lo e manifestemos nossa transformação progressiva em direção à sua imagem
moral.
Obedecer esta ordem em
uma base constante (que é o que Pedro tem em mente; "crescei" no
imperativo para indicar um crescimento contínuo) é uma questão de ser um
cristão consciente, e de tentar ser, em todo o tempo, mais cristão, em cada
área da vida. Portanto, o crescimento na graça é a verdadeira obra da nossa
vida, uma imensa e infindável tarefa. Uma vez que é uma questão de ordem, o que
temos a fazer é nos submeter à ela, e trabalhar para cumpri-la da melhor forma
possível. Isto é o verdadeiro discipulado. É assim que mostramos ser cristãos.
O crescimento na graça é, assim, uma prova de fogo para todos nós.
Muitos cristãos, no
entanto, parecem não crescer na graça, nem se preocupar em crescer. Ao que
parece, eles se contentam com a sua estagnação ou até recuo espiritual. Isto é
trágico. Por quê? Existem várias razões possíveis. Talvez eles nunca tenham lido
as palavras de Pedro, nem tenham ouvido que Deus requer que cresçam na graça.
As pessoas não têm consciência de coisas das quais são ignorantes. Ou talvez
eles estejam.com um pé atrás por medo de que um compromisso sério para crescer
na graça traga uma perturbação e mudança maior em sua vida - e isto
provavelmente aconteceria. W. H. Auden testificou sobre o efeito paralisante
desse temor em sua indiferente frase: "Preferimos a ruína à
transformação".
Ou talvez eles estejam
seguindo a sugestão dos cristãos à sua volta, que também não se preocupam em
crescer na graça. Talvez tenham concluído que não precisam se preocupar com
isso, sem levar em conta o que a Bíblia diz. Ou talvez tenham perdido o seu
primeiro amor por Cristo e pelas coisas divinas e têm, como disse Paulo a
Demas, "amado o presente século" (2Tm 4.10). Mas, qualquer que seja a
razão, seu descaso é desobediente, errado, irresponsável e indefensável. Todos
os cristãos têm a obrigação de crescer na graça e no conhecimento de Cristo.
Ao iniciar sua carta,
Pedro especificou, de um modo muito claro, os pontos do compromisso de crescer
na graça. "Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai
com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o
domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a
piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque
estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais
nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus
Cristo" (2Pe 1.5-8). Observe como D, E e P (doutrina, experiência e
prática) se encaixam aqui! Esta é uma fórmula que se aplica a tudo. Devo, portanto,
encarar o fato de que este é o modo de vida para o qual sou chamado, e que
entro em um estado impuro e doentio do coração no momento em que paro de
esforçar-me, portanto, por crescer. E o que é verdade a meu respeito, é verdade
a respeito de cada um de nós.






