Nada é mais admirável
do que a experiência que a experiência do Filho de Deus no Calvário. Na noite
em que foi traído ele foi ao Getsêmani para orar. Levou Pedro, Tiago e João
consigo para que orassem por ele e o confortassem, pois ele lhes dissera:
"A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai
comigo" (Mt 26.38).
Jesus, o Divino Filho,
estava cheio de tristeza, e sua tristeza era tão profunda que parecia a morte.
Isaías disse que ele era "homem de dores e que sabe o que é padecer. E
como um de quem os homens escondem o rosto" (Is 53.3). Ele buscou o
conforto de seus amigos. Entretanto, falharam com ele, tendo adormecido no
momento em que mais precisava, e depois abandonando-o quando foi preso. Ele foi
deixado sozinho para enfrentar a dor e o sofrimento. Isso não se parece com a
experiência do salmista?
Sua agonia foi tão
intensa e grave que seu "suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre
a terra" (Lc 22.44). O autor de Hebreus nos conta que "Ele, Jesus,
nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e
súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua
piedade" (5.7). Jesus ofereceu "forte clamor e lágrimas ", o que
não é incompatível com a fé em Deus. Em seu clamor e suas lágrimas Jesus foi
ouvido por aquele que era capaz de salvá-lo da morte, entretanto ele, ainda
assim, morreu. Ele pediu que se passasse o cálice, mas resignou-se a fazer a
vontade de seu Pai, apesar de isso lhe custar a vida. Deus ouviu suas orações,
porém, em vez de salvá-lo da dor e da morte, escolheu que Jesus caminhasse pela
estrada do sofrimento, de modo que pudesse receber a alegria maior da
ressurreição.
E não nos esqueçamos de
que sua morte não foi uma morte comum. Em primeiro lugar, foi morte numa cruz,
um dos mais excruciantes modos de execução jamais concebidos. Porém, ainda
mais, foi uma morte em que ele carregou a ira de Deus por todo o seu povo. A
intensidade de sua ira é notável, porque nós levaríamos toda a eternidade para
pagar a pena pelos nossos pecados e a ira de Deus nunca seria aplacada.
Contudo, Cristo levou a ira total de Deus em lugar de bilhões, e o fez em
questão de horas. Não admira que tivesse clamado: "Deus meu, Deus meu, por
que me desamparaste?" (Mt 27.46).
Quando lemos a história
da paixão de Cristo, nós frequentemente passamos por cima dessa declaração
estonteante. O Filho de Deus, que é o amado do Pai e seu deleite, foi
abandonado e deixado sozinho. Ter sido abandonado pelos seus amigos era uma
coisa; porém, ser abandonado pelo seu Pai era algo totalmente diferente. A
profundidade dessa dor é maior do que podemos conceber. Não existiu dor maior
em toda a História.
Por que a profundidade
da dor de Cristo é significativa para nós? Porque "não temos sumo
sacerdote que não possa se compadecer das nossas fraquezas, mas um que foi
tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (Hb 4.15,
de acordo com The Holy Bible, English Standard Version). Em meio à nossa dor,
podemos sentir-nos sozinhos e acreditar que ninguém sofre tanto quanto nós
sofremos. Porém, isso não é verdade. Jesus Cristo sentiu tal dor. Na realidade,
ele sentiu uma dor tal que nos teria destruído. Ele é capaz de se condoer.
"Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de
recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna"
(Hb 4.16).






