O processo de
crescimento espiritual abre os olhos do coração do cristão para que ele veja
mais claramente, não somente a grandeza do amor de Deus, mas também a
intensidade de sua santidade. Já observamos que a "santidade" é a
identificação bíblica para tudo que separa Deus da humanidade, com um foco
direto no seu poder majestoso e na sua pureza moral. Neste ponto, o nosso foco
está direcionado para a questão da pureza moral.
Uma percepção mais
clara da pureza de Deus tem um efeito reflexivo, como se aquela pureza fosse
uma luz brilhando dentro dos recônditos do ego e revelando tudo o que está
escondido nos meios das trevas que ali existem. Consequentemente, os cristãos
conseguem ver, neles mesmos, motivações e atitudes pecaminosas, fracassos,
faltas e deficiências, dos quais não se apercebiam antes, simplesmente porque,
até agora, sua consciência não tinha acessado suas condutas por meio do brilho
da luz de Deus. Dentre as coisas que vêem estão:
• firmes hábitos do pecado;
• padrões crônicos de evasão moral;
• fraquezas do caráter moral;
• desejos que são realmente viciosos;
• atitudes que são realmente arrogantes;
• falhas comportamentais em virtude do
temperamento;
• inclinações para agradar-se a si mesmo,
acomodar-se e ter autocomiseração;
• auto-proteção desenvolvida no interior
em razão de feridas passadas;
• falhas morais em razão de cicatrizes
decorrentes de abusos e da existência do medo.
Todas estas faltas e
muitas outras do tipo são agora intencionalmente liberadas. Temos de
confrontá-las. O significado da perfeição moral - perfeito amor, humildade,
alegria, paz, bondade, paciência, benignidade, sabedoria, fidelidade, confiabilidade,
coragem, e assim por diante - está, agora, mais claro em nossa mente. A
distância entre a perfeição e o nosso desempenho, do ponto-de-vista da motivação
e da execução, é percebida de forma compulsória. As limitações pessoais, que
eram usadas como justificativas, agora parecem indefensáveis. Recuamos e,
talvez, até choremos diante da nossa antiga insensibilidade nas questões
morais.
Como aconteceu com
Isaías no templo, assim acontece com os cristãos em todos os lugares. Quanto
mais claramente eles vêem o quanto Deus é santo, mais dolorosamente eles se
convencem do quanto são pecaminosos e corruptos. Uma vez que este tipo de
avanço espiritual amplia a percepção da indignidade das nossas próprias falhas,
aqueles que se aprofundam na santidade frequentemente pensam que estão
retrocedendo. Sua profunda percepção do quanto ainda são pecaminosos, apesar de
seu desejo de servir a Deus com perfeição, pesa sobre eles. Como já vimos, isto
lhes revela seu próprio lamento na posição do "homem desventurado",
ecoando as palavras de Paulo em Romanos 7.24. Muitas vezes, eles ousam imaginar
que venceram a inclinação do pecado em algumas das áreas da vida. Repetidas
vezes, Deus os humilha, permitindo que descubram que as coisas ainda não são
como eles pensam. Sentir que a sua percepção está sempre aquém do seu alcance é
angustiante. Embora o conhecimento do evangelho traga alegria em abundância,
eles estão, desta perspectiva, angustiados.
Entretanto, isto não
significa que estão em um estado espiritual doentio. O próprio "homem
desventurado" de Paulo é o próprio homem dinâmico e espiritu¬almente
saudável que está ditando a carta aos Romanos. Sua argumentação levou-o a rever
o que a lei diz sobre ele mesmo à medida que trilha o caminho da nova vida em
Cristo (Rm 6.1-14; 7.4-6; 8.1-39). Partindo do fato de que ele não conseguia se
sentir saudável, ou declarar-se como tal, uma vez que geme diante da realidade
de não ser moralmente perfeito como gostaria de ser (Rm 7.22,8.23), alguns
inferiram que ou ele realmente não era saudável ou que, em Romanos 7.14-25, ele
não estava escrevendo sobre si mesmo, apesar de usar o pronome "eu" e
o tempo presente. Segundo eles, nenhuma pessoa espiritualmente saudável poderia
ter uma impressão de si mesma como teve Paulo. No entanto, eles estão
equivocados.
A angústia intensa
diante das próprias imperfeições, no contexto de um amor intenso pela bondade
segundo definição de Deus e um intenso zelo por praticá-la, é o sinal mais
evidente possível da santidade de coração, que é o ponto central para a saúde
espiritual. O paradoxo -um osso, ao que parece, muito duro de roer - é que o
aumento da verdadeira santidade sempre vem acompanhado de um aumento no
descontentamento pelo que ainda não foi alcançado. A verdade é que o sentimento
de uma expectativa frustrada, expressado pelo coração quebrantado do
"homem desventurado", pertence à experiência daqueles que procuram
viver no poder do Espírito e, assim, agradar ao seu Deus Salvador.
Mas esta não é a coisa
mais importante a respeito deles, nem também o seu continuado senso de pecado é
o melhor indicador do poder do Espírito na vida deles. O sinal mais claro é,
simplesmente, o amor por Deus e pelas outras pessoas: amor que, com ou sem
muita força de sentimento (porque nem sempre podemos comandar sentimentos
fortes), honra a Deus de uma forma ativa por meio de um louvor agradecido e de
um serviço constante aos outros, manifesta¬do em forma de uma ajuda útil. O
amor que constantemente diz "não" ao que o puritano Richard Baxter
chamou de "ego carnal" a fim de constantemente dizer "sim"
ao seu próprio chamado generoso é a maior prova do poder do Espírito que alguém
pode imaginar.
Este livro mencionou
coisas sobre o amor que tornam qualquer discussão sobre o assunto agora
desnecessária. Tudo o que se faz necessário é recordar que o amor, baseado na
verdade, é a mais segura manifestação do poder de Deus na vida de uma pessoa.
Convém também relembrar que o poder do amor é enraizado na capacidade de receber
amor dos outros - em primeiro lugar, do Pai e do Filho.
Para que (...) sejais
fortalecidos com poder (...) a fim de poderdes compreender (...) o amor de
Cristo (...). (Ef 3.16-18)
Pois o amor de Cristo
nos constrange. (2Co 5.14)
(Deus) nos amou e enviou
o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (...) Amados, se Deus de tal
maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. (1Jo 4.10,11)
Nós amamos porque ele
nos amou primeiro. (1Jo 4.19)






