O amor humano, até o
mais elevado, o mais nobre e o melhor, está até certo ponto contaminado pelas
impurezas do interesse próprio. Nós, os cristãos, somos especificamente
chamados para amar os nossos inimigos (amor no qual não há interesse próprio),
e isto torna-se impossível sem a graça sobrenatural de Deus. Se amamos apenas
aqueles que nos amam, não somos melhores do que os vigaristas.
Se cumprimentamos
apenas os nossos irmãos e irmãs, apenas os nossos companheiros cristãos, não
somos melhores do que os pagãos; eles também se cumprimentam uns aos outros. A
pergunta de Jesus foi: O que vocês estão fazendo mais do que os outros? (v.
47). Esta simples palavra, mais, foi o ponto culminante do que ele estava
dizendo.
Não basta aos cristãos
parecer-se com os não-cristãos; nossa vocação ê para ultrapassá-los em virtude.
Nossa justiça tem de exceder (perisseusê . . . pleion) a dos fariseus (v. 20) e
o nosso amor deve ultrapassar, ser mais do que (perisson) o dos gentios (v.
47). Bonhoeffer explica bem isso: "O fator especificamente cristão
consiste no 'extraordinário, no perisson, no invulgar, não natural . . . É o
muito mais, o muito superior. O natural é to auto (a mesma coisa) tanto para
gentios como para cristãos; o especificamente cristão começa com o perisson ...
O essencialmente cristão consiste no 'extraordinário'."
E o que é o perisson,
este "mais" ou "extra" que os cristãos devem exibir?
Bonhoeffer responde assim: "É o próprio amor de Jesus Cristo, o amor que
sofrendo e obedecendo vai à cruz . . . A essência, o extraordinário do
cristianismo é a cruz." O que ele
escrever é verdade. Mas, para sermos mais precisos, a ma¬neira como Jesus o
expôs declara que este "super-amor" não é o amor dos homens, mas o
amor de Deus que, pela graça comum, concede o sol e a chuva aos ímpios.
Portanto, sede vós (o "vós" é enfático, fazendo a distinção entre os
cristãos e os não-cristãos) perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (v.
48). O conceito de que o povo de Deus deve imitar a Deus e não aos homens não é
novo. O livro de Levítico repete cerca de cinco vezes este mandamento como um
refrão: "Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto . . . sereis santos, porque
eu sou santo." Mas, aqui, Cristo
nos chama para sermos "perfeitos", não apenas "santos".
Alguns mestres que
ensinam a santidade têm erigido sobre este versículo grandes sonhos quanto à
possibilidade de se atingir nesta vida um estado de perfeição sem pecado. Mas
as palavras de Jesus não podem ser forçadas para significar algo assim sem
provocar discordância no Sermão, pois ele já indicou nas bem-aventuranças que a
fome e a sede de justiça são uma característica perpétua dos seus
discípulos e, no capítulo seguinte, ele
nos ensina a orar constantemente "perdoa-nos as nossas dívidas".
A fome de justiça e a
oração pelo perdão, sendo contínuas, são indicações claras de que Jesus não
esperava que seus seguidores se tornassem moralmente perfeitos nesta vida. O
contexto mostra que a "perfeição" à qual ele se refere relaciona-se
com o amor, esse perfeito amor de Deus que é demonstrado até mesmo àqueles que
não o retribuem. Na verdade, os mestres nos dizem que a palavra aramaica que
Jesus teria usado significava "tudo-abrangente". O versículo paralelo
da narrativa de Lucas sobre o Sermão confirma isso: "Sede misericordiosos,
como também ê misericordioso vosso Pai."
Somos chamados para ser perfeitos em amor, isto é, para amar até os
nossos inimigos com o amor misericordioso e abrangente de Deus.
O chamado que Cristo
nos faz é novo, não apenas porque é uma ordem para sermos
"perfeitos", mais do que "santos", mas também por causa da
descrição que faz do Deus que devemos imitar. No Velho Testamento encontramos
sempre: "Eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito, para que
eu seja vosso Deus; portanto vós sereis santos, porque eu sou santo." Mas,
agora, nos dias do Novo Testamento, não é mais ao único Redentor de Israel que
somos chamados a seguir e obedecer; mas ao Pai celeste (vs. 45, 48). E nossa
obediência virá dos nossos corações como manifestação de nossa nova natureza;
pois somos filhos de Deus, através da fé em Jesus Cristo, e podemos de¬monstrar
de quem somos filhos apenas quando exibimos a semelhança familiar, somente
quando nos tornamos pacificadores como ele é (v. 9), apenas quando amamos com
um amor todo-abrangente como o seu (vs. 45, 48).
As duas últimas
antíteses da série revelam uma progressão. A primeira é uma ordem negativa: Não
resistais ao perverso; a segunda é positiva: Amai os vossos inimigos e procurai
o seu bem. A primeira é um chamado para uma não-retaliação passiva, a segunda
para um amor ativo. Ou, nas palavras de Agostinho: "Muitos têm aprendido a
oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os
esbofeteou." Portanto, temos de ir
além da paciência, até o serviço; além da recusa de retribuir o mal, até a
determinação de vencer o mal com o bem. Alfred Plummer resumiu as alternativas
como admirável simplicidade: "Retribuir o bem com o mal ê demoníaco;
retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é divino."
Através de toda a sua
exposição, Jesus apresenta-nos os modelos alternativos com os quais contrasta a
cultura secular à contracultura cristã. Arraigada na cultura não-cristã está a
noção de retribuição, a retribuição tanto do mal como do bem. A primeira é
óbvia, pois significa vingança. Mas a segunda, às vezes, é sobrelevada. Jesus
expressou-a com a frase "fazer o bem aos que vos fazem o bem". Portanto, a primeira diz: "Você me
prejudicou, e eu vou lhe fazer o mesmo", e a segunda: "Você me fez um
benefício, e eu lhe farei outro", ou (mais coloquialmente) "amor com
amor se paga". Portanto, a retribuição é o método do mundo; a vingança, de
um lado, e a recompensa, de outro, devolvendo injúrias e devolvendo favores.
Então ficamos quites, nada devendo a ninguém, e acertamos as nossas contas. É o
expediente do orgulhoso que não suporta ficar devendo nada a ninguém. É uma
tentativa de ordenar a sociedade através de uma justiça dura e imediata que nós
nos administramos, de modo que ninguém consegue, de forma alguma, ser melhor do
que nós.






