Deus em amor nos
predestinou para ele, para a adoção de filhos. Esta expressão parece ser a
chave para a compreensão das conseqüências presentes da nossa eleição. A
eleição tem como objetivo a adoção. Realmente, quando as pessoas nos fazem a
pergunta especulativa de por que Deus continuou com a criação quando sabia que
seria seguida pela Queda, uma resposta que podemos dar é que ele nos destinou
para uma dignidade mais alta do que a própria criação poderia nos outorgar.
Pretendia "adotar-nos", fazer-nos filhos e filhas da sua família. E
na lei romana (que faz parte do contexto dos escritos de Paulo) os filhos
adotivos desfrutavam dos mesmos direitos dos filhos legítimos. O Novo
Testamento tem muito a dizer acerca dessa posição de "filiação", dos
seus ricos privilégios e das responsabilidades inerentes. Estas duas verdades
são mencionadas nestes versículos.
Consideraremos
inicialmente o nosso privilégio. Somente aqueles que foram adotados na família
de Deus podem dizer: no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos
pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre
nós (vs. 7-8). Os filhos de Deus, pois, desfrutam do livre acesso ao Pai
celestial, e sua confiança diante dele é devida ao conhecimento de que foram
redimidos e perdoados. Redenção (apolutrõsis) significava "livramento
mediante o pagamento de um preço", e era aplicada especialmente no resgate
de escravos. Aqui, é o equivalente a remissão, pois o livramento em questão
refere-se a escapar do justo julgamento de Deus pronunciado contra os nossos
pecados, e cujo preço foi o derramamento do sangue de Cristo quando de sua
morte por nossos pecados na cruz. Desta maneira, a redenção, a re-missão e a
adoção caminham juntas; l9a redenção ou a remissão é um privilégio presente que
temos e desfrutamos agora. Torna possível um relacionamento filial com Deus.
Vem do derramamento abundante da sua graça sobre nós.
Mas a filiação também
subentende responsabilidade. O Pai celestial não estraga os seus filhos. Pelo
contrário, "nos disciplina para o nosso bem, a fim de sermos participantes
da sua santidade". Destarte, as duas declarações de Paulo são paralelas,
que "nos predestinou... para a adoção de filhos" (v. 5) e "nos
escolheu... para sermos santos". O apóstolo voltará para este tema vital
mais tarde: Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados (5:1). É
inconcebível desfrutarmos de um relaciona¬mento com Deus como seus filhos sem
aceitarmos a obrigação de imitar o nosso Pai e termos as características da sua
família.
Assim, pois, a adoção
como filhos e filhas de Deus traz consigo um "mais" e um
"menos", um ganho imenso e uma perda necessária. Ganhamos o acesso a
ele como nosso Pai mediante a redenção ou a remissão. Mas perdemos nossas
máculas, a partir da obra santificadora do Espírito Santo, até finalmente
sermos perfeitos no céu. A palavra que parece unir o privilégio e a
responsabilidade da nossa adoção é a expressão perante ele (v. 4), que
significa "à vista dele" ou "na presença dele". Viver a
nossa vida conscientes de estarmos na presença de nosso Pai é tanto um
privilégio enorme como um desafio constante para agradá-lo.






