Mas se o nosso evangelho está encoberto( 2 Co.3).
Teria sido fácil despejar escárnio na alegação de Paulo de que a sua pregação
era muitíssimo clara, porquanto ela contava com muitos oponentes. Porém, Paulo
enfrenta esta acusação com implacável autoridade, ameaçando todo aquele que não
reconhecesse o poder do seu evangelho e alertando a todos de que este é um
sinal de reprovação e morte. É exatamente como se dissesse: "Se alguém
afirma que não reconhece a manifestação de Cristo, na qual me glorio, por esse
mesmo fato prova claramente ser ele mesmo um réprobo, porque a sinceridade de
minha pregação é pública e claramente compreendida por todos quantos têm olhos
para ver." Aqueles para quem o evangelho está oculto devem, pois, estar
cegos e carentes dos próprios vestígios de entendimento racional. A conclusão é
que a cegueira dos incrédulos de modo algum denigre a clareza de seu evangelho;
o sol não é menos resplendente só porque os cegos não podem perceber sua luz.
Alegar-se-á que isto se
aplica igualmente à lei, porquanto em si mesma ela é "lâmpada para guiar
os nossos pés" (SI 119.105), e "iluminar os nossos olhos" (SI
19.8), e está oculta somente para aqueles que perecem. A minha resposta é que,
enquanto Cristo estiver associado à lei, o brilho do sol penetra através das
nuvens, de modo que os homens têm luz suficiente para o seu uso; mas onde
Cristo é dissociado da lei, não fica nada senão trevas ou, antes, uma falsa
aparência de luz que ofusca, em vez de iluminar os olhos dos homens.
O fato de que ele ousa
considerar como réprobos a todos quantos rejeitam sua doutrina é evidência de
grande segurança, mas é certo que todos quantos desejam ser considerados
ministros de Deus possuam semelhante segurança, de modo que, com uma
consciência intrépida, não hesitam em intimar aos que se opõem ao seu ensino a
comparecerem diante do trono do juízo divino para que recebam ali ajusta
condenação.
4.
Em quem o deus deste mundo. Paulo está querendo dizer que não
acredita que seria surpreendido pela perversa obstinação de seus oponentes.
"Eles não conseguem ver o sol ao meio-dia", diz ele, "porque o
diabo cegou seu entendimento." Ninguém em são juízo teria alguma dúvida de
que o apóstolo, aqui, se refere a Satanás. Hilário, que se viu obrigado a
tratar com os arianos que abusavam desta passagem em apoio de seu ponto de
vista de que Cristo era um deus, ainda que negassem sua genuína divindade,
torcem o texto para significar que foi Deus quem cegou o entendimento deste
mundo. Crisóstomo, mais tarde, seguiu esta tradução a fim de não propiciar aos
maniqueus sua visão dualística de dois princípios primários. Por que Ambrósio
também a aceitou não fica claro, mas a razão de Agostinho foi a mesma de
Crisóstomo, porque ele também foi envolvido na disputa com os maniqueus.
Este é um clássico
exemplo do que pode suceder no calor de uma controvérsia, porque, se todos
aqueles homens tivessem lido as palavras de Paulo com uma mente tranquila e
isenta, jamais teria ocorrido que viessem a torcer tal texto para que o seu
significado fosse assim forçado. Mas, ao serem duramente pressionados por seus
oponentes, ficaram mais ansiosos em refutá-los do que em explicar Paulo. Porém,
que necessidade havia para tal ansiedade? Era um subterfúgio infantil, porque
os arianos argumentavam que, em razão de o diabo ser chamado de deus deste
mundo, a palavra Deus, aplicada a Cristo, não expressa a verdadeira, eterna e
única divindade.
Paulo diz alhures que
"muitos são chamados deuses" (1 Co 8.5), e Davi declara que "os
deuses das nações são demônios" (SI 96.5). Portanto, quando o diabo é
chamado deus em razão de ele ter domínio sobre os homens e ser adorado por eles
no lugar de Deus, como pode isto detrair de alguma forma a dignidade de Cristo?
Enquanto que, para os maniqueus, este título não empresta qualquer feição ao
seu ponto de vista mais do que quando o diabo é chamado o príncipe deste mundo.
Assim, não há razão por que devemos ter receio de interpretar esta passagem
como aplicável ao diabo, porque isso pode ser feito sem qualquer risco. Porque,
se os arianos sustentam que a essência divina de Cristo não pode ser provada em
ser-lhe dado o nome de Deus não mais do que a essência divina de Satanás pode
ser provada em ser ele chamado um deus, esta tergiversação é facilmente
resolvida. Pois Cristo é chamado Deus absolutamente sem qualquer frase
qualificativa, e ele ainda é chamado "Deus bendito para sempre". Ele
é chamado Deus que existiu desde antes da criação do mundo. Todavia, o diabo é
chamado o deus deste mundo exatamente na mesma forma como baal é chamado o deus
daqueles que o adoram, ou o cão é chamado o deus do Egito. Os maniqueus, em
defesa de seus pontos de vista pervertidos, como já expus, dependem de outras
passagens da Escritura, além desta, porém não é difícil, tampouco, refutá-los.
O seu argumento não se
restringe ao nome do diabo, mas se estende ao seu poder. Em razão de ser
atribuído a Satanás poder de cegar e domínio sobre os crentes, então deduzem
que ele, por sua própria habilidade, é o autor de todo o mal, de modo que não
está sujeito ao comando de Deus - como se a Escritura, em muitos passos, não
chamasse os demônios de ministros de Deus, tanto quanto o são os anjos
celestiais, ainda que num sentido mui diverso. Pois assim como os anjos
celestiais são ministros das bênçãos de Deus para a nossa salvação, também os
demônios executam a Sua ira. Portanto, os anjos celestiais são chamados
principados e poderes, mas só porque exercem o poder que Deus lhes conferiu.
Da mesma forma, Satanás
é o príncipe do mundo, não porque tenha ele conferido a si mesmo esse poder
principesco ou obtido o mesmo por seu próprio direito ou seja capaz de
exercê-lo por sua própria vontade, mas ele o possui só até onde o Senhor lho
permite. Assim a Escritura não só menciona o bom Espírito de Deus e os bons
anjos, mas também menciona os maus espíritos de Deus. Assim temos em 1 Samuel
16.14: "Tendo-se retirado de Saul o Espírito do Senhor, da parte deste um
espírito maligno o atormentava." Bem como em Salmo 78.49 lemos do castigo
infligido pela instrumentalidade de "anjos portadores de males".
Voltando à passagem em
pauta, cegar os incrédulos é uma obra comum a Deus e a Satanás, mas o poder que
cada um deles possui não é o mesmo, nem a mesma a maneira como é ele funciona.
Ainda não disse nada sobre a maneira, mas a Escritura ensina que Satanás cega
os homens não só com a permissão de Deus, mas sob seu comando, para aplicar sua
vingança. Assim, Acabe foi enganado por Satanás (1 Rs 22.21), porém Satanás não
podia ter feito isto de moto próprio. Tendo oferecido seus préstimos a Deus
para fazer o mal, ele foi enviado para ser um espírito mentiroso na boca de
todos os profetas (1 Rs 22.22). Portanto, diz-se que Deus é quem cega os
homens, porque, tendo-nos privado do correto uso de nossas mentes, e da luz de
seu Espírito, ele nos entrega ao diabo para nos reduzir a um estado mental
reprovável e lhe dá o poder de nos iludir e assim infligir justa vingança sobre
nós através do ministério de Sua ira.






